quinta-feira, 5 de outubro de 2006

ATÉ CAVACO SILVA JÁ VIU O ESTADO A QUE ISTO CHEGOU...

Cavaco Silva faz apelo à luta contra a corrupção no aniversário da República

Uma tarefa que cabe em

primeira linha aos políticos


O Presidente da República apelou hoje a todos os portugueses para que se empenhem na luta contra a corrupção e na moralização da vida pública.
No combate por uma democracia de melhor qualidade devem ser convocados todos os portugueses, mas esta é uma tarefa que compete, em primeira linha, aos titulares de cargos públicos, defendeu Cavaco Silva, na cerimónia das comemorações dos 96 anos da proclamação da República.

A transparência da vida pública deve começar precisamente onde o poder do Estado se encontra mais próximo dos cidadãos, afirmou o presidente, chamando a atenção para as especiais responsabilidades dos autarcas nesta batalha.

Cavaco Silva ressalvou que a corrupção é uma excepção no comportamento dos agentes políticos portugueses, mas notou que o comportamento ético de "alguns daqueles que são chamados a desempenhar cargos de relevo nem sempre tem correspondido ao modelo ideal de civismo republicano.

É usual dizer-se que o exemplo vem de cima. E se de cima não chegarem os melhores exemplos - de seriedade, de integridade, de respeito pelas leis - é fácil os cidadãos deixarem de ter estímulos para pautarem a sua vida pessoal e profissional por padrões éticos de honestidade e de auto exigência, sublinhou

12 Comments:

At 5 de outubro de 2006 às 20:25, Anonymous J E R said...

Bin Laden não precisa de atacar Portugal, por cá temos uma imensa organização que provoca mais prejuízos ao país do que duas ou três bombas.
Os dinheiros desviados do Estado permitiriam melhorar os cuidados médicos de forma a poupar muito mais vidas do que as que se perderiam com um dos seus atentados.
A rede de padrinhos corruptos prejudicam muito mais a nossa economia ao asfixiar a concorrência e ao estimular os mais fracos do que o impacto negativo duma explosão. Bin Laden não precisa de atacar Portugal, nós já cá temos a nossa Al-Qaeda.

Bin-Laden não inventou nada com a sua Al-Qaeda, os nossos corruptos há muito que criaram uma estrutura assente no mesmo modelo orgânico da organização do terrorista saudita.
A estrutura em células, o recurso privilegiado às comunicações informais, a multiplicação de células em torno dos mesmos princípios do Rizoma (de que o gengibre é um exemplo - de raízes horizontais e de solidariedades biológicas transversais), o silêncio dos seus membros, qual omerta siciliana, a transferência de dinheiro sem recurso ao sistema bancário, são as regras de funcionamento de uma imensa organização cujas estruturas se dissemina por toda a sociedade.

É uma organização que cresce graças ao que poderia designar como “efeito Taveira Pinto”, uma cadeia de relações humanas estruturadas a partir de trocas de favores, que cresce segundo o princípio de que o “amigo do nosso amigo, nosso amigo é”.
Lembro-me de ter tido um colega que pertencia ao círculo de amigos de Taveira Pinto, tinha tantas agendas de telefone que lhe sugeria que em vez de anotar os números seria mais fácil sublinhá-los na lista telefónica. Esse meu colega fazia todos os favores que podia, os que estavam ao seu alcance e os que poderia conseguir recorrendo às suas agendas.

Se na Al-Qaeda de Bin Laden os terroristas têm nos laços religosos, o elemento de identificação onde o íman desempenha um papel central, na nossa Al-Qaeda o íman é sustituído pelo amigo mais poderoso.
Existem muitos no Fisco, no Futebol, nas Autarquias, nos Partidos, na Construção Civil e no Pato-Bravismo em geral.
Todos sabemos quem são os ímans da corrupção nessa grande "esfera armilar" que aqui até poderemos designar por "futebolítica".
Não podemos provar nada, a sociedade tem medo deles, mas toda a gente sabe quem são e onde estão.

Desempenham um papel mais parecido ao do íman fundamentalista do que ao dos padrinhos da máfia siciliana, estes não se matam, não tentam dominar o negócio, são antes amigos, partilham a mesma “religião”, são solidários, os seus seguidores optam pela partilha e pelo entendimento em vez do conflito (que deitaria tudo a perder).

E enquanto a Al-Qaeda é visada por todos os meios de investigação, por todas as polícias, das conhecidas às secretas, a nossa Al-Qaeda beneficia de total impunidade.

 
At 5 de outubro de 2006 às 23:13, Anonymous Rui said...

Teve hoje início a tradicional união nacional em torno da veneranda figura que chefia o Estado português.
O propósito foi, desta vez, o discurso sobre a luta contra a corrupção, que já recebeu elogios de todos os quadrantes, até mesmo dos próprios visados.
Um fenómeno!

 
At 5 de outubro de 2006 às 23:17, Anonymous Anónimo said...

«No entanto, existem sinais que nos obrigam a reflectir seriamente sobre se o combate a esse fenómeno [corrupção] tem sido travado de forma eficaz e satisfatória, seja no plano preventivo da instauração de uma cultura de dever e responsabilidade, seja no plano repressivo da perseguição criminal.
A corrupção tem um potencial corrosivo para a qualidade da democracia que não pode ser menosprezado. Como tal, todos devem ser chamados a travar a batalha da moralização da vida pública, a bem da democracia e a bem da República. São por isso de saudar todas as iniciativas que, de uma forma séria, contribuam para debelar o fenómeno da corrupção.»
«Intervenção do Presidente da República na Cerimónia das Comemorações dos 96 anos da Proclamação da República», Aníbal Cavaco Silva (PR, 5.10.2006).

A bancada parlamentar do PS e o Governo ainda não acabaram de digerir o pacote de propostas anti-corrupção de João Cravinho e eis que surge, agora, o Presidente da República a salientar o tema que, relembre-se, ficou à margem do recente pacto/acordo PS/PSD sobre a justiça.
O Presidente da República, na prática, apoia sem apoiar -- iniciativas legislativas como a de João Cravinho -- e critica sem criticar -- o Governo pela pouca relevância que tem dado ao assunto. Nenhuma iniciativa, em concreto, é destacada. Ninguém, em particular, é mencionado. Neste jogo de sombras, ninguém poderá reivindicar o apoio directo de Cavaco Silva e todos poderão manifestar a sua concordância com as suas palavras, mesmo aqueles que, de uma forma ou de outra, foram o seu alvo.

P.G.

 
At 6 de outubro de 2006 às 09:11, Anonymous Anónimo said...

Intervenção do Presidente da República na Cerimónia das Comemorações dos 96 anos da Proclamação da República
Lisboa, 5 de Outubro de 2006

Senhor Presidente da Assembleia da República
Senhor Primeiro Ministro
Senhor Presidente da Câmara Municipal de Lisboa
Senhora Presidente da Assembleia Municipal
Portugueses

Assinala-se no dia de hoje a proclamação da República, ocorrida precisamente há noventa e seis anos.

Aproximamo-nos, pois, do centenário da instauração do regime republicano. Os poderes públicos irão comemorar essa efeméride com um propósito – um propósito patriótico – de unir os Portugueses em torno dos ideais e do acervo de valores que constituem o legado da Primeira República.

Ao fim de cem anos, a República não é propriedade de ninguém, porque representa um património que a todos pertence. Como tal, as comemorações da sua fundação não devem servir de pretexto para dividir os Portugueses em torno de polémicas velhas de décadas, destituídas de sentido no nosso tempo.

As instituições da sociedade civil poderão assinalar a efeméride através das iniciativas que entenderem por convenientes, mas, como é próprio de um regime democrático e pluralista, não cabe ao Estado patrocinar versões oficiais ou oficiosas da História.

Nos termos da Constituição, o Presidente «representa a República Portuguesa». Nessa qualidade, considero que o aniversário da República é uma data festiva e, como tal, deve ser assinalado com alegria, tranquilidade, elevação e sentido de Estado.

Ao participar nesta cerimónia, julgo, antes de mais, ser meu dever confrontar os Portugueses com a seguinte pergunta: qual o sentido da comemoração que hoje tem lugar em todo o País?

Ao tentar responder a esta interrogação, poderíamos dizer o óbvio: faz sentido assinalar o dia 5 de Outubro porque nessa data se proclamou a República, a forma de governo em que vivemos há quase um século.

Mas, precisamente porque possui quase um século de existência, que significado tem esta instituição centenária para o País? No fundo, o que diz a República ao povo português?

Parece-me evidente que a República e o espírito republicano têm de ser renovados e actualizados, para não perderem o seu valor enquanto forma de regime e padrão de comportamento cívico.

Essa renovação requer, antes de mais, uma nova atitude perante a República, a qual, sem perder de vista a memória do passado, redescubra e actualize todos os dias, no quotidiano dos cidadãos, os valores e os princípios que constituem a matriz essencial do republicanismo.

Uma nova atitude perante a República, da sua dimensão cívica e da sua dimensão ética, é algo que se torna premente no Portugal contemporâneo.

Ao fim de quase um século de República, não existe uma questão de regime entre nós. Por outro lado, decorridos trinta anos sobre a aprovação da Constituição de 1976, as instituições democráticas encontram-se plenamente sedimentadas e consolidadas. A democracia está presente nas instituições e no espírito dos cidadãos. Os Portugueses são democratas, gostam e querem viver em democracia.

Mas os Portugueses desejam viver numa democracia melhor. E o Presidente da República acompanha-os nessa sua legítima aspiração por uma melhor democracia.

Na verdade, é tempo de nos tornarmos mais exigentes perante a democracia que temos. É tempo de nos preocuparmos com a qualidade da nossa democracia.

Ora, é justamente em nome de uma maior qualidade da democracia portuguesa que temos de aprofundar a dimensão ética da cultura republicana e sublinhar a necessidade de transparência das instituições e de moralização da vida pública.

Olhando para a República Portuguesa, prestes a comemorar cem anos de existência, não poderemos deixar de notar que o comportamento ético de muitos dos nossos concidadãos, incluindo alguns daqueles que são chamados a desempenhar cargos de relevo, nem sempre tem correspondido ao modelo ideal de civismo republicano.

A corrupção, devo sublinhá-lo claramente, é uma excepção no comportamento dos nossos agentes políticos. Não deveremos, por isso, abordar este problema com propósitos alarmistas ou populistas.

No entanto, existem sinais que nos obrigam a reflectir seriamente sobre se o combate a esse fenómeno tem sido travado de forma eficaz e satisfatória, seja no plano preventivo da instauração de uma cultura de dever e responsabilidade, seja no plano repressivo da perseguição criminal.

A corrupção tem um potencial corrosivo para a qualidade da democracia que não pode ser menosprezado. Como tal, todos devem ser chamados a travar a batalha da moralização da vida pública, a bem da democracia e a bem da República. São por isso de saudar todas as iniciativas que, de uma forma séria, contribuam para debelar o fenómeno da corrupção.

Uma das principais perversões da corrupção reside na sua capacidade de alastrar como uma mancha que a todos envolve e a todos contamina. Perante a divulgação de um indício de corrupção, de compadrio ou tráfico de influências, é fácil tomar a parte pelo todo, julgando que uma situação isolada reflecte um comportamento generalizado.

Da corrupção decorre outro efeito altamente perverso para a qualidade da democracia: julgando que, de um modo generalizado, o comportamento dos titulares de cargos públicos não é exemplar, os cidadãos deixam de possuir modelos de acção e referenciais éticos nos seus próprios comportamentos.

É usual dizer-se que o exemplo vem de cima. E se de cima não chegarem os melhores exemplos – de seriedade, de integridade, de respeito pelas leis – é fácil os cidadãos deixarem de ter estímulos ou incentivos para pautarem a sua vida pessoal e profissional por padrões éticos de honestidade e de autoexigência.

Deve ainda acrescentar-se que a corrupção tem outro efeito perverso: aprofunda as desigualdades existentes na sociedade. É lamentável que se pense que aqueles que dispõem de poder económico ou de capacidade de influência possuem um acesso privilegiado aos decisores políticos. E, por isso, é necessário existir um relacionamento aberto e transparente, em condições de igualdade, de todos os cidadãos com os poderes públicos.

É igualmente preocupante que os cidadãos, apesar de acreditarem na democracia como o melhor dos regimes, se distanciem e alheiem da gestão da vida pública. Que julguem, de uma forma a que urge pôr cobro, que a condução do destino da coisa pública – da res publica – é algo que lhes não diz respeito, porque entendem que a política é o feudo de alguns, que a utilizam em proveito próprio.

À apatia cívica e ao desinteresse dos cidadãos pela actividade política têm os poderes públicos de responder com uma mudança de atitudes, de modo a reconquistar a confiança dos Portugueses. É essencial que os Portugueses sintam que os seus governantes, aos diversos níveis, vivem para a política, com espírito de serviço e de dedicação à causa pública.

No combate por uma democracia de melhor qualidade devem ser convocados todos os Portugueses, mas esta é uma tarefa que compete em primeira linha aos titulares de cargos públicos.

Trata-se de uma interpelação que percorre todos os níveis do Estado, do poder central às autarquias locais. A transparência da vida pública deve começar precisamente onde o poder do Estado se encontra mais próximo dos cidadãos. Nesse sentido, é necessário chamar a atenção, de uma forma particularmente incisiva, para as especiais responsabilidades que todos os autarcas detêm nesta batalha em prol da restauração da confiança dos cidadãos nas suas instituições.

A instauração de uma ética republicana de serviço público não pode basear-se apenas numa pedagogia de deveres, nem em meros apelos a uma mudança de atitudes. Infelizmente, sempre existirão indivíduos ou situações dos quais estará ausente esta dimensão moral do republicanismo. Daí que para este esforço colectivo deva também ser convocado o poder judicial, pilar fundamental do Estado de direito. Mas para que as instâncias de controlo persigam os prevaricadores de uma forma célere e eficaz, é necessário que o combate à corrupção seja assumido como um esforço a que todos são chamados, nomeadamente pelo sistema de justiça, cuja dignidade e credibilidade devem ser reforçadas perante os Portugueses.

Por outro lado, a influência que nos nossos dias a comunicação social adquiriu implica que os seus profissionais participem igualmente neste esforço de renovação da ética republicana. Exige-se da imprensa uma atitude de responsabilidade, rigor e isenção, pois o papel que ela desempenha na formação da opinião pública não se compadece com formas sensacionalistas ou populistas de tratamento da informação nem, menos ainda, com a divulgação de factos ou notícias sem qualquer correspondência com a realidade.

Neste dia 5 de Outubro, a República deve ser comemorada. Mas para que essa comemoração se converta numa festa onde todos os Portugueses participem devemos mudar de atitude e de mentalidade, tendo presente que a República é regra de vida, sentido de dever e modelo de comportamento.

Celebremos a República! Mas, acima de tudo, celebremos a República por aquilo que a República de nós exige.

 
At 6 de outubro de 2006 às 09:12, Anonymous Carlos said...

Há uma passagem no discurso do Presidente da República muito interessante. No meio dos lugares comuns sobre a corrupção, Cavaco Silva diz:

No entanto, existem sinais que nos obrigam a reflectir seriamente sobre se o combate a esse fenómeno tem sido travado de forma eficaz e satisfatória, seja no plano preventivo da instauração de uma cultura de dever e responsabilidade, seja no plano repressivo da perseguição criminal.

Pergunta: quantos dias, meses ou anos tem o novo Procurador Geral da República, Pinto Monteiro, para apresentar resultados no combate (perseguição criminal) à corrupção?.

 
At 6 de outubro de 2006 às 09:15, Anonymous JUM said...

ATÉ CAVACO SILVA

Já fala em combater a corrupção:

«"No combate por uma democracia de melhor qualidade devem ser convocados todos os portugueses, mas esta é uma tarefa que compete, em primeira linha, aos titulares de cargos públicos", defendeu Cavaco Silva no seu discurso comemorativo dos 96 anos da Implantação da República.»
In: Correio da Manhã

Verifique-se se foi desta que Sócrates acordou, ou se ainda continua a dormir descansado.

 
At 6 de outubro de 2006 às 09:19, Anonymous J. Gonçalves said...

Vale a pena comemorar a República? Não vale. Contrariamente ao que a doutrina oficial propala, o que se sucedeu depois do 5 de Outubro de 1910 foi a história de uma tirania "popular", centrada e liderada pelo velho Partido Republicano Português que, em pouco tempo, conseguiu a proeza de "virar" o "país profundo" e algumas das suas hostes "moderadas" contra si. Pomposos e medíocres, arrivistas e oportunistas, melancólicos e dramáticos furiosos, as notabilidades do PRP e, depois, do Partido Democrático, arrasaram às suas próprias mãos a tão prometida República e o "povo" que ela majestaticamente iria servir. É claro que a idiotia "monárquica" também não se recomendava, nem se recomenda ainda a ninguém. Contudo, este folclore melodrámático que cessou às mãos da tropa, em 1926, não se deve confundir com o respeito pelos princípios republicanos no exercício das funções públicas. A probidade, a isenção e o alheamento dos "interesses" continuam a ser boas intenções. É isso que nós temos, a quase um século de distância do primeiro 5 de Outubro?

 
At 6 de outubro de 2006 às 09:22, Anonymous Anónimo said...

O discurso do PR

O Presidente da República centrou ontem o seu discurso do 5 de Outubro na corrupção e fez bem. Deu continuidade à tradição criada por Jorge Sam- paio nos discursos comemorativos da República, em regra dedicados a lançar alertas sobre os factores de degradação da política e dos mecanismos da democracia representativa, e colocou com força na agenda política uma matéria muito sensível.

Ao assumir que o combate à corrupção cabe a todos, do cidadão anónimo às forças políticas, o Presidente não deixou recados particulares mas um imperativo categórico a todos destinado. O Governo tem de ser mais activo neste combate, o poder judicial, em particular o Ministério Público, tem de ser mais eficaz, a Polícia Judiciária tem de ter mais iniciativa, os autarcas estão obrigados a um maior esforço de transparência.

A mensagem do Presidente não descura a dimensão repressiva nem a ne- cessidade de trabalhar no domínio da prevenção. Este será, porventura, um trabalho tão importante de fazer como o de aumentar a eficácia, reforçando os meios, da investigação. Eliminar os milhares de oportunidades que existem no seio da administração central e local para criar práticas de corrupção é um desafio gigantesco que verdadeiramente está por arrancar. Os mecanismos de simplificação administrativa lançados pelo Governo podem vir a dar um contributo, mas não são suficientes. A proposta feita pelo deputado João Cravinho de criar um organismo de su- pervisão das práticas da administração pública merece ser considerada com seriedade pelo PS e pelo Governo, que não saíram da fase de recusa praticamente liminar com o argumento inaceitável de que vem acrescentar despesa. Há, como se sabe, despesa virtuosa. A questão está sempre em saber se há ou não vontade de realmente enfrentar os desafios.

O caso de corrupção descoberto na Marinha é exemplar de como a existência de uma política preventiva pode evitar males maiores. Bastaria ter avaliado melhor os casos de ajuste directo de encomendas de material. Em algumas câmaras é sempre possível tentar perceber porque é que as propostas imbatíveis são sempre dos mesmos construtores. Ou avaliar mais a fino as su- cessivas alterações de planos direc- tores municipais. Na administração central também se podem avaliar os habitualmente opacos regimes de concessão de bens e serviços. Ou as alterações pontuais de regimes jurídicos para ceder direitos de construção. Os exemplos são inesgotáveis. A vontade é que nem sempre é óbvia.

Eduardo Dâmaso
DN
6/10/06

 
At 6 de outubro de 2006 às 09:32, Anonymous Anónimo said...

OS VALIDOS
Eu sabia que tanta graça ia corromper-me, remetendo-me para a área das coisas fúteis e terrenas. Mudo de estilo a partir deste momento, sobretudo depois de ver esta foto [Cavaco Silva e José Sócrates] e ver a referência a aspectos mais ou menos relevantes da nossa vida política.

Anonimusrexus


Falo da corrupção enquanto conceito concreto, tal como ficou narrado por sua excelência o senhor presidente da república, no discurso proferido em 5 de Outubro do ano da graça de 2006.

O senhor presidente da república chama a atenção para a necessidade de haver uma acção sobre a corrupção, não definindo os termos em que tal devia acontecer.
Não o fez por imperativo de Estado?

Efectivamente, o Estado desde que se constituiu como tal e desde que a historiografia o interpretou à luz das sociedades umbilicalmente criadas através das relações interpessoais entre grande parte da nobreza e alguma burguesia ascendente, com o rei… a partir daí, foi sendo criado e desenvolvido um regime político, económico e social de indispensabilidade do poder económico dos privados junto da esfera do poder régio.

Alguma historiografia menos liberal do séc. XIX concentrou-se viciadamente na história factual, fazendo tábua rasa desse fenómeno tão vincado nas sociedades burguesas do Antigo Regime na Europa. Valeu-nos a historiografia mais liberal dessa época e mais tarde a Escola dos Annales, que preferiu dar a partir do séc. XX, uma visão da sociedade contemporânea europeia, mais chegada à conjunção dos factores económicos e sociais. Tentou-se assim encontrar as causas da evolução das sociedades, impregnando essa análise com o fenómeno intrínseco à existência humana… que são as mentalidades. Segundo esta Escola, a validação ou privatização dos usos e costumes das sociedades modernas, consentidos pelo poder régio, criavam complexas teias de intrigas que favoreciam a corrupção.

Essa corrupção criava raízes pelos laços de parentesco que se iam desenvolvendo, por força duma burguesia cada vez mais endinheirada que frequentemente adquiria por esses meios, títulos nobiliárquicos que se perpetuavam depois na esfera do poder político.

As democracias ocidentais, viveram desde a sua fundação sempre apoiadas nestas «eminências pardas», que hoje resultam numa espécie que, aparentemente em vias de extinção, faz questão de prolongar o seu estatuto de criadora do status quo em que todos vivemos.

O senhor presidente da república conhece ou devia conhecer estes meandros e como tal, não deveria «discursar aos peixinhos» no dia em que se comemora em jeito de rectificação, aquilo que foi a implantação da República em Portugal.

O poder autárquico, seja ele qual for, não tem que merecer o «aviso» do senhor presidente da república, que tanto poderia fazer no espaço governativo central, a que pertenceu, de modo a terminar com este flagelo político, económico e social que é a corrupção.

 
At 6 de outubro de 2006 às 09:34, Anonymous M. said...

Os dados estão lançados...
Casos em que se espera acção consequente, não faltam.
Vamos a ver quem tem coragem de tocar na onça dos Taveiras Pintos, dos Apitos dourados, das Fátimas, dos Valentins e quejandos.
É que, se nada for feito, um dia a casa vem abaixo...

 
At 6 de outubro de 2006 às 13:45, Anonymous JER said...

Ao longo dos anos de existência do Ponte do Sor tem vindo a denunciar a corrupção e a incompetências, duas “primas-direitas” que dominam cada vez mais a sociedade portuguesa, corroendo os eus valores éticos, destruindo a sua economia, condenando-nos ao subdesenvolvimento.

Para que uns quantos “chicos espertos” possam enriquecer fácil e impunemente é todo um país que tem vindo a vergar perante uma imensa teia corrupta.

Por isso não podia deixar de elogiar as palavras que Cavaco Silva proferiu na cerimónia comemorativa do 5 de Outubro.

O Presidente da República agarrou no tema com rigor, com frontalidade e deixando a Sócrates o espaço necessário para intervir, cabendo agora ao primeiro-ministro tomar a iniciativa.

Não se pretende dizer que o Governo não tenha feito nada nesta matéria, sou partidário de uma actuação eficaz e discreta, o espalhafato que algumas personagens fazem serve mais para promoção das suas carreiras pessoais recorrendo, foram mais os inocentes queimados na via pública por estes paladinos do combate à corrupção do que os corruptos enjaulados ou mesmo incomodados.

Daquilo que conheço na Administração Pública nunca a teia corrupta esteve tão consolidada, nunca deteve tantos lugares de chefia, nunca teve tanto poder, ao ponto de serem os honestos a recear o poder do corruptos.
A ingenuidade deste governo em matéria de combate à corrupção chega ao ponto de em postos chave da Administração Pública ser gente duvidosa do PSD a nomear os seus afilhados para os cargos mais importantes.

Nos últimos cinco anos foram mais os honestos que foram alvo de investigações do que os corruptos condenados, foram mais os competentes saneados de lugares de chefia do que os corruptos demitidos, chego mesmo a pensar que a Distrital do PSD de Lisboa já nomeou mais chefias no Estado do que os ministros deste governo.

É urgente combater a corrupção, e este combate deve ser total e visar a destruição de toda a rede corrupta que se instalou no sectores mais importantes da Administração Pública, o seu poder é tão grande que já põe em causa a segurança do Estado.

Por isso mordo a orelha e dou todo o meu apoio às palavras de Cavaco Silva.

 
At 6 de outubro de 2006 às 14:03, Anonymous J. G. said...

O discurso de Cavaco Silva no "5 de Outubro", constitui um bom pretexto para acabar com a sua comemoração.
Cavaco, como Sampaio antes de si e, se recuarmos mais um bocadinho, provavelmente Afonso Henriques – se soubesse falar – diriam o mesmo, ou seja, que pastoreiam um pais de tendenciais bandalhos irreformáveis e que cumpre ao regime – a este a todos os que o antecederam – por as coisas em devida ordem.
Acontece que andamos há séculos a tentar "por tudo em ordem" sem grandes resultados.
O pacote democrático gerou uma sociedade e uns costumes poucos consentâneos com os propósitos moralistas e irrepreensíveis dos nossos sucessivos "Capo di Stato". Cavaco não se excepciona e reclama o praticamente impossível.
Ainda não percebeu que não e por muito madrugar que amanhece mais cedo.
A choldra e sempre a mesma.

 

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