quarta-feira, 4 de outubro de 2006

OBVIAMENTE, DEMITO-O [ parte II ]

O Café Chave de Ouro está repleto.
Estamos a 10 de Maio de 1958, a um mês das eleições para a Presidência da Republica.
Primeiro acto público com a presença do Candidato Humberto Delgado depois de iniciado oficialmente o período eleitoral.

À nossa volta personalidades de todos os matizes políticos que se opõem ao regime salazarista. E certamente não só.
A Polícia Política, de uma forma ou de outra não deixará de aí ter ouvidos e olhos para, como usualmente, saber o que se passa e com quem se passa...

O professor Vieira de Almeida, o primeiro orador, com o brilhantismo que levava às suas aulas gente de todas as escolas superiores de Lisboa, depois de referir a surpresa enorme que teve pela sua investidura como Presidente da Comissão Nacional da Candidatura, considera-a explicada pela presença de tantas pessoas que representam tão diversas correntes de opinião.

Faz de seguida a apresentação de Humberto Delgado, General, candidato independente.
Não procura o apoio de partido algum.
Apresenta-se sem compromissos partidários.
Aceita o apoio de todos os homens de boa vontade.
Desassombradamente, sem desconhecer o risco que corre.
Explica que tal não significa que se considerem em si mesmos ilegítimos os partidos. Pelo contrário.

Acrescenta que "a decisão de apresentar a candidatura é tanto mais meritória quanto as condições são nitidamente desfavoráveis".

Ergue-se Humberto Delgado.
A expectativa não pode ser maior.
A sala está suspensa do que seguirá.
Os minutos seguintes justificam-na, se todo o cenário não a tivesse justificado já.

O General começa por agradecer as variadas presenças.
Propõe-se responder às perguntas dos jornalistas.
Critica o Governo e a União Nacional pela sonegação dos cadernos eleitorais à oposição. O que "integra a tendência de todas as ditaduras para a crueldade".


Prossegue:

"O Governo não abranda as suas tradicionais perseguições à oposição".

Refuta a referência de determinado jornal à sua candidatura como sendo apoiada por uma potência estrangeira a que contrapõe o carácter indiscutivelmente nacionalista da sua posição desde sempre.
Surge a primeira pergunta, do correspondente da France Press.


"Qual a sua atitude para com o Sr. Presidente do Conselho se for eleito?"

E a resposta, imediata, enérgica, sem uma hesitação, sem um tremor:

"Obviamente, demito-o".

É difícil acreditar no que estamos a ouvir.
Mais que uma frase, é uma bomba.
Uma revolução.
Por terra a muralha que se opõe ao sacrilégio de dizer em público palavras agressivas ou menos respeitosas para com o "Chefe Supremo".

Rebentar da bomba que verdadeiramente inicia o caminho que o introduz na História, e lhe carreia o cognome de "General sem Medo".

"Sem medo" contagiante que liberta de muitos medos. E cria outros que o tempo mostrará.

1 Comments:

At 6 de outubro de 2006 às 09:17, Anonymous J. Gonçalves said...

No Panteão Nacional, reuniu-se o regime e mais dois ou três excêntricos para celebrarem os 100 anos do ex-Director-Geral de Aviação do dr. Salazar. Nunca me impressionei muito com a "história" de Humberto Delgado, a não ser num detalhe importante. Tinha uma enorme coragem física o que, para uma nação de cobardes, é obra. De resto, desde Salazar à "oposição", todos se serviram dele. O seu desassombro, num país em que o respeitinho mandava por igual no "sistema" e na "oposição", impressionava. Era um mitómano e um visionário que ambos abandonaram à sua sorte depois do "feito" de 58. Não merecia morrer da forma miserável, sórdida e solitária como morreu. Na sua altivez alucinada, sonhou com qualquer coisa de diferente para uma nação que o não entendia e que ele nunca compreendeu. Por esse "sonho", perdeu o seu tempo e, no final, a vida.
Valeu a pena?

 

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