quinta-feira, 12 de outubro de 2006

PEDRA FILOSOFAL

Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida

tão concreta e definida

como outra coisa qualquer,

como esta pedra cinzenta

em que me sento e descanso,

como este ribeiro manso

em serenos sobressaltos,

como estes pinheiros altos

que em verde e oiro se agitam,

como estas aves que gritam

em bebedeiras de azul.



eles não sabem que o sonho

é vinho, é espuma, é fermento,

bichinho álacre e sedento,

de focinho pontiagudo,

que fossa através de tudo

num perpétuo movimento.



Eles não sabem que o sonho

é tela, é cor, é pincel,

base, fuste, capitel,

arco em ogiva, vitral,

pináculo de catedral,

contraponto, sinfonia,

máscara grega, magia,

que é retorta de alquimista,

mapa do mundo distante,

rosa-dos-ventos, Infante,

caravela quinhentista,

que é cabo da Boa Esperança,

ouro, canela, marfim,

florete de espadachim,

bastidor, passo de dança,

Colombina e Arlequim,

passarola voadora,

pára-raios, locomotiva,

barco de proa festiva,

alto-forno, geradora,

cisão do átomo, radar,

ultra-som, televisão,

desembarque em foguetão

na superfície lunar.



Eles não sabem, nem sonham,

que o sonho comanda a vida,

que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança.



António Gedeão
(1906-1997)
In Movimento Perpétuo, 1956

2 Comments:

At 13 de outubro de 2006 às 11:06, Anonymous Anónimo said...

bela letra!

 
At 13 de outubro de 2006 às 11:07, Anonymous Pedro Manuel said...

O MIT em Portugal: Ciência & Tecnologia

Quer-me parecer que com a entrada do MIT em Portugal a comunidade política e científica terá de passar a fazer um distinto com base em dois momentos: o momento pré-MIT e o momento post-MIT. Nem sequer tal deriva do facto de agora a reforma da Universidade portuguesa ter ficado mais oleada e facilitada, ajudando o governo e o ministro da pasta a impôr políticamente aquilo que se revelou impossível sem esta pressão do exterior, a fim de se ganhar economia de escala e qualidade competitiva nos curricula para competir à escala internacional.
Doravante, as propriedades e as regras do jogo burocrático-científico serão diferentes, as pessoas e as instituições serão "obrigadas" a operar mais concertadamente e não em regime de capelinhas, como é hábito em Portugal, mormente na academia. Na prática, isto significa que a lista dos players pertinentes terão de jogar novas regras do jogo que o MIT joga, sendo certo que os dados nunca são dados de uma forma definitiva: estratégias concorrentes, produção científica, mobilização intelectual e valorização de massa crítica, recrutamento, elaboração de dispositivos humanos, técnicos e tecnológicos..
Tudo agora merecerá novo empenhamento a fim de mostrar que se merece a confiança do MIT e, por outro lado, que também podemos saber produzir conhecimento puro e aplicado à ciência e à tecnologia com notórios aproveitamentos económicos e sociais por parte das pessoas e instituições, ou seja, da sociedade.
É assim que vemos a entrada do MIT em Portugal, trazendo novo know-how, novas regras e métodos de trabalho que nos obriga a abandonar velhos hábitos binários de reprodução/imitação sem qualquer noção de transferência de saber e/ou de forte inovação tecnológica útil à sociedade. Aqui as excepções são microscópicas...
É daqui que, porventura, nascerá o maior contributo do MIT em Portugal, posto que a noção de rede até então ainda era uma palavra em vão, doravante a Academia nacional terá de se habituar a trabalhar em rede, o que obriga a abrir as velhas caixas negras, já que aquilo que tomávamos por adquirido passou a ser cilindrado por novas parcerias e métodos de trabalho mais próprios do rizoma.
Então, por esta ordem de ideias, o MIT fará com que o conjunto das caixas negras portuguesas operem em rede, se entrelacem a fim de potenciar as ligações e os recursos para se engrandecerem e, assim, ganharem massa crítica e dimensão internacional. Poderá emergir daqui uma rede sociotecnológica, mais até do que científica, com vista a fazer convergir recursos e saberes sociais, económicos, científicos e técnicos para que este nosso querido Portugal se possa capitalizar, crescer, modernizar-se e desenvolver-se.
Afinal, tudo isto será político, mas antes de o ser é científico, técnico e tecnológico. Embora nunca me tivesse passado pela cabeça que o protagonista do Plano Tecnológico de Socas fosse made in EUA. Esperemos, contudo, que eles não se lembrem de exportar o G. W. Bush, é que m... dessa já cá nós temos em abundância. E esses também não se motivam em emigrar... E é pena, pois quem não desejaria um Portugal mais respirável?!
Mas atenção: o MIT não é sinónimo de milagre económico, e será desejável que no fim possamos fazer um balanço positivo. Até lá Portugal continuará com o velho tumor na cabeça, e só agora se iniciou a terapia para a sua extracção. Oxalá resulte, doutro modo não ficamos só com o tumor, mas com milhares deles - conhecidas que são as consequências que isso terá em termos de divergência de todos os indicadores de desenvolvimento humano de Portugal comparativamente às sociedades mais evoluídas da Europa.

 

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