sexta-feira, 24 de novembro de 2006

CAMARILHA

Ontem a Sic passou uma peça a evocar as aventuras do James Bond 007 pelas bandas do Estoril, Cascais, Guincho, perseguições na Malveira e Estoril novamente.
Vimos ali a estória da espiolhagem da II Guerra Mundial, por entre as brumas da memória de hotéis restaurados, bares recônditos e cocktails incertos, empregados do outro tempo no jogo dos encontros sociais, como lhe chamaria Goffman, i.é, no carácter ritual e teatralizado das interacções da história pequena, média e grande.
Se o programa terminasse ali, o que se seguiu depois, a entrevista ao sr. José barroso, ficaria na mesma - porque, em rigor, nada se acrescentou nessa máquina de fazer inferências, poses, e trejeitos estéreis, como se Europa - fosse uma enorme ruga no mapa mundial - sem nada para dizer à humanidade.
E assim se passou o 007 - como que a servir de aperitivo-macaco para a entrada triunfante do sr. Durão na festa de Barrancos, em que o transmontano de Bruxelas era o protagonista.
O qual contou aos 10 milhões de portugueses a 2ª maior mentira do post-25 de Abril.
A 1ª foi, naturalmente, o próprio ter acreditado nela...
Os resultados dessa crença estão à vista com uma Europa completamente paralisada e secundarizada no seu estatuto geopolítico.
Uma Europa sem visão, sem estratégia, sem auto consciência, sem avaliação, sem autoconfiança, sem capacidade de adaptação e de realização, sem capacidade de iniciativa, sem nada.
Uma Europa apenas com Durão à ilharga..


Durão tem uma referência epistemológica, fala-nos de desporto porque quer ser parecido com o Mourinho (que o convidou para frequentar uns estádios de Futebol mais a famelga..., isto é bonito!!!), esse novo rico do futebol mundial que tem uma sorte do tamanho do mundo - e que ele julga ser inteligência pura - e é outro que anda por aí fazendo publicidade marada contribuindo para que os desgraçados dos portugueses se endividem ainda mais perante a banca)...

Eis as referências intelectuais do dr. Barroso.
Um vulto da pequena Europa, uma sombra do que ela foi ao tempo de Jacques Delor.
Vamos agora ao conteúdo da entrevista ambulante do sr. José Barroso, naquela dialéctica peri(patética) - provavelmente preparada por dois ou três telefonemas do Guincho por parte do sr. bolsa-na-mão (perdão, Balsemão) pedindo ao sr. Presidente da Comissão para aturar o sr. Ricardo Costa durante uns tempos, i.é, durante a visita guiada como quem vai alí à Gulbenkian ver os quadros da pintora (i)Lena Roseta.
Já agora, a senhora é pintora ou é escritora!?
Nunca sei...
Um amigo, jura-me a pés-juntos que é escultora.
Acreditamos em todos as possibilidades, sou um homem de fé..
Mas, com efeito, a entrevista foi um poço de surpresas.
Vejamos o seu conteúdo e as suas ideias-força numa Europa do (e para) o séc. XXI:
1) Durão sai de casa de madrugada, ainda pensei que levasse espingarda e cinto de caça para apanhar as perdizes e coelhos...
Fala com Ricardo da SIC, que mais parece o Bastos dos tapetes de Arraiolos em conversa com Cavaco, e entra no carro.
Pelo meio murmura que é preciso acabar com as golden.... wings, um modelo da Honda já descontinuado.
Mas não percebemos bem!!!
De notar, que se tratavam de boas motas, tinham marcha-atrás e tudo, além de mui confortáveis;
2) Só depois percebemos que falava de golden share, uma coutada diferente sob a tutela do governo que lhe permite mandar em certas empresas estratégicas – de que a telecom é (um triste) exemplo;
3) Por outro lado, o sr. Barroso reafirmou o seu não arrependimento por ter sido um elemento pró-activo na guerra ao Iraque - legitimando o louco e imberbe de G.W. Bush naquela cruzada ilimitada e gratuita - à margem do direito internacional e à latere do Conselho de Segurança da ONU.
Até apetece dizer, que se f... a ONU e o Direito internacional.
Pois que se dane também o Durão...
Saberá ele, porventura, quantos mortos civis hoje existem (e militares, já agora)?
Saberá o sujeito quantos deslocados existem?
Não!!!
Ele só sabe duas coisas: é preciso acabar com as golden shares e não está arrependido por ter sido o mordo-mor na Cimeira dos Azores...
Nem doutro ele poderia ter sido catapultado para Bruxelas, como poderia ele estar arrependido!?
Neste sentido, foi sincero, ainda que inconscientemente e dando mais uns tiros no pé.
Isto é que é ambição e visão para a Europa, porra!!!
Só faltou perguntar ao Kissinger se (com Barroso à frente dos comandos da Europa) ele iria repetir a velha fórmula: se com uma Europa assim – ela ainda teria número de telefone para contactar com a Washington D.C.?!!!
4) Meanwhile, o que Durão sabe é o seguinte - e explica-nos esse pensamento com as manápulas à saída das sua gabardine à 008; não nos esqueçamos que a SIC antecedeu a entrevista com o Casino Royal...
é preciso influenciar o que se está a passar no mundo - disse Durão...
Depois rematou: sou português, não sou apátrida - sic.

4.1 Ora, caso não saiba, a influência de um líder supõe aptidão para encontrar temas apelativos adequados a cada um dos interlocutores até à capacidade para conquistar a adesão dos outros e tecer redes de interesse que apoiem as iniciativas. Barroso, ao invés, fala-nos de golden shares, do seu não arrependimento por ter apoiado pro-activamente
o acidente genético-político G.W.Bush, do Mourinho e da regulamentação do futebol (que nos intervalos e em conversa de balneário lhe deve ter ventilado...).

4.2 E nós a pensarmos que era um maoista deslocado na Europa via Consenso de Washington (com escala na cimeira dos Azores) – que hoje só nos dizia: é preciso acabar com as golden shares e que urge pensar a regulamentação do futebol... Será que o ideal de Durão é ser o o Mourinho da Europa?!
Meus Deus, chamem a polícia!!!
Este homem, é o presidente do Frutas & Almeida alí na Av. de Roma ou é mesmo pressssssidiente da Comissão Europeia???
Por momentos pensei tratar-se dum presidente dum clube recreativo de Frei de Espada à Cinta...
5) Depois mais do mesmo, e lá vieram à baila os assuntos da guerra e da paz:
revelou-se um não arrependido, porque, explicou cientificamente: entre uma ditadura de tipo iraquiana - Durão sabe bem que os amigos de Portugal, da Europa e do mundo, e da cristandade - são os EUA, a Inglaterra e a Espanha de Azenar…
Pensamento estratégico, história, teoria, liderança, visão de futuro - zero.
6) De resto, emergiram outras dimensões da sua alta cultura política, a componente da doutrina económica de Barroso. E aqui foi verdadeiramente inovador, disse:
a) A Europa não cresce, há problemas; há pouco PIB; há deslocalizações; mas, por outro lado, a Europa está mais forte do que à 20 anos atrás (que bela comparação);
b) Lançámos muitas cimeiras, a de Lisboa, por exemplo (começada por Guterres, mas esqueceu-se de referir o nome do autor...);
7) Seguidamente, vem mais uma questão lorpa do jornalista: como acha que vai ser recordado?
Durão responde que ainda não é tempo de fazer balanços desses, mas que desejaria equipar a Europa para os desafios da globalização.
Mais um chavão de literatura barata, nem Bernardino Soeiro Pereira Gomes (da bancada do PCP, o mesmo que torpemente defende que a Coreia do Norte é uma democracia...só por isso deveria perder o mandato) faria tão mal, revelando desconhecer os principais pensadores sobre o assunto, não apontando uma única ideia estruturante para o Velho Continente.
Em face do exposto, Durão revelou-se um deserto de ideias, sem nenhuma liderança inspiradora capaz de gerar ressonância e estimular pessoas e projectos no plano europeu.
Falou ele nos ofshores e nos paraísos fiscais para indivíduos (com super-empowerment) e multinacionais; implementações de acordos ambientais globais rigorosos; de algum programa global de desenvolvimento mais equitativo; do estabelecimento duma nova visão e/ou instituição de desenvolvimento europeia financiada pelo Norte global como solidariedade relativamente aos países mais pobres do Sul?
Falou Durão da necessidade de estabelecer padrões de protecção laboral internacional (estabelecendo sanções para aquelas multinacionais que deslocalizam oportunisticamente e interrompendo os compromissos assumidos com os Estados hospedeiros desses investimentos) a fim de proteger os trabalhadores (dar previsibilidade à economia e aos agentes sociais) que hoje são cada vez mais tratados como coisas descartáveis?
Falou ele da necessidade de reformar organizações multilaterais tipo OMC (resquícios da Guerra Fria) a fim de equilibrar mais e melhor a forma de praticar o comércio internacional?
De luta anti-terrorista - zero...
De programas de promoção do desenvolvimento económico e social - abaixo de zero...
Durão não nos falou de coisas essenciais,
Barroso apenas quer ser o Mourinho da Europa e, como tal, só se preocupa com a sua agenda-setting, e nesta cabem a eventual regulamentação do futebol (sugerida pelo Mourinho nos balneários dum intervalo do team de futebol), as golden shares e mais não sei o quê...
Durão, mais uma vez, confunde a Europa com o seu umbigo. Ou seja, Durão tem projectos mas não são estratégicos; tem patrocínios mas são pessoais; tem equipas mas são privadas.
No fundo, temos Europa - mas está paralisada.
Ao menos poderia ter citado uma daquelas passagens fashion dos livros de Anthony Giddens (já não digo David Held, que é mais sofisticado) que se compram nos quiosques dos aeroportos, mas nem isso fujão Barroso conseguira...
Bem sabemos como o cérebro não é elástico. E a Europa rouba alguma gravidade ao cérebro...
7.1. - Todavia, o bom do fujão Barroso lá bifurcou o seu discurso pobre, pobrezinho – que nem numa nota de pé-de-página de António Vitorino caberia – para dizer à turba o seguinte:
a) A Europa ou se esconde debaixo da mesa - um pouco como ele fez quando preparou a sua fuga para Bruxelas (isto foi um acto falhado em jeito metafórico) - mentindo ao povo português em franca violação da Constituição e do contrato político com o país, enquanto dizia que o seu governo apoiava o então melhor e mais prestigiado Comissário europeu;
b) Ou a Europa dominava a globalização com os valores europeus e impunha a sua visão no ambiente, na segurança, etc..
E pronto(s), terminou a entrevista, saltando a emissão para Carnaxide onde o pivot de serviço rematou: é por estas e por outras que vocês (os telespectadores) sabem que encontram aqui a melhor informação do país.

Sem ter nada de pessoal contra a SIC ou o senhor entrevistado, confesso aqui que me apeteceu telefonar para a estação e perguntar se, de facto, não acharam toda aquela actuação confrangedora...
Não apenas um mau serviço para a Europa, mas também um frustrante prestação para Portugal…
Diante a desgraça:
- Pergunto: onde fica o exílio???
Cedo que percebi que é em Bruxelas...

Pedro Manuel

2 Comments:

At 25 de novembro de 2006 às 11:42, Anonymous Anónimo said...

Gostei do artigo. Apesar de não ter a retórica em termos políticos do Pedro Manuel, concordo plenamente com o que disse. Aquela entrevista ao Durão Barroso, a mim pessoalmente, não me disse nada, perdão apenas me disse " Eu quero voltar p`ra ilha"!

 
At 27 de novembro de 2006 às 15:51, Anonymous João P. Guerra said...

O actual presidente da Comissão Europeia e ex-primeiro-ministro de Portugal comentou, com a maior leviandade, que a guerra no Iraque “está a correr mal”.

urão Barroso não estava a participar num fórum sobre a última jornada do futebol, não estava a comentar a sua eventual participação num programa de entretenimento, não estava a prestar depoimento sobre uma festa à qual tivesse assistido, não estava sequer a responder a um inquérito sobre o que tinha acontecido ao País, Portugal, nas mãos do sucessor que ele próprio designou quando partiu para Bruxelas.

Durão Barroso estava a responder sobre a morte de três mil soldados norte-americanos e de mais de 650 mil civis iraquianos, sobre as matanças de todos os dias, a prática da tortura por parte das forças ocupantes e do sequestro e execução por parte dos ocupados, sobre a destruição e saque de um país, sobre uma guerra civil plantada entre comunidades religiosas, sobre a força que a guerra está a dar à implantação das ideias e respostas extremistas mais violentas e do terrorismo, no Iraque e na região. E tudo isto não lhe merece mais que uma apreciação superficial: “Está a correr mal”.

Para além disso, Durão Barroso respondeu como um diletante, um comentador de passagem, alheio ao assunto e sem interesse na matéria. Ora o que está a acontecer no Iraque, e “a correr mal”, parte de uma decisão preparada com o seu envolvimento activo. Durão Barroso foi dos que andou a jurar que existiam e até lhe teriam sido mostradas, provas suficientes para invadir o Iraque, uma refinadíssima patranha. Depois, a decisão foi tomada com o seu conhecimento, por indivíduos reunidos a seu convite e na sua presença. Ou seja com a sua conivência.

A menos que, como as coisas estão “a correr mal”, Durão Barroso queira apagar-se da fotografia de Março de 2003, nos Açores.

 

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