sábado, 5 de janeiro de 2008

LUIZ PACHECO - MORREU O MAIOR ESCRITOR PORTUGUÊS DO SÉCULO XX



LUIZ
José Machado Gomes Guerreiro PACHECO


nasceu a 7 de Maio de 1925
faleceu a 5 de Janeiro de 2008



CARTA A FÁTIMA

Lembras-te Fátima? era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim? se nem tu já te lembras de mim agora, tu, a quem tanto amei, não te lembras, e foi há tão pouco, foi ontem, parece, que te levantaste e disseste: «Ficamos amigos como dantes»... E dizias: como dantes e era já noutro que pensavas, olhavas-me e nos teus olhos ria-se a traição, o prazer da liberdade, um desafio alegre, uma alegria provocante e desapiedada, ias a meu lado pela última vez e eu era já um estranho para ti, um fantasma a quem se concede, por caridade, uns momentos mais de companhia, algumas palavras vagas distraídas, um pouco de estima, talvez. Reparei: o teu corpo, oh corpo do meu prazer! oh carne virgem sangrando debaixo de mim! oh meu repouso e minha febre! o teu corpo outrora tão cativo e tão submisso, ficara de repente cerimonioso e esquivo, cauteloso, afastado, com um pudor forçado no puxares a saia sobre os joelhos, como se tivesse uma grande vergonha do despudor com que se dera antes...


Dizias: como dantes e não era já nisso que pensavas, e não era já para mim que falavas, eu era uma coisa para esquecer, para deitar fora, uma coisa que se abandona caída no chão e se perde sem pena. Dizias: «adeus» e saías da minha vida com um aperto de mão desembaraçado, quase cordial um gesto de boa camarada, como se nada tivesse havido antes, como se não tivéssemos sido tantas vezes na cama, um dentro do outro, um no outro, um-outro diferente, uma coisa sublime: Deus Criador, como os míseros humanos só ali o podem sentir e saber; um Outro que éramos nós ainda, mas tão transtornados, tão virados
para fora de nós, tão esquecidos do mundo e de nós, tão eficazes, tão leais, nós boca com boca, corpo a corpo, um sexo torturando um sexo, mordendo-se devorando-se, numa febre de chegar ao fim depressa, ao esquecimento, ao repouso. Disseste: adeus e eu odiei-te logo nesse minuto, como te odeio agora, não por ti ou pelo teu corpo que já me esqueceu noutros que vieram depois, mas porque morri ali naquela palavra, -morri entendes? -, perdi-me numa grande confusão, esqueci-me de ser eu, fiquei roubado do meu passado.


Hoje, encontrarias um outro homem; havia de rir-me do teu corpo, da sua entrega ou das suas traições, de tu me dizeres: «Vem» ou «Adeus...», ou «Não quero...». Hoje, saberias quem fizeste com uma só palavra, conhecerias um outro homem, que é obra tua, minha segunda mãe! Hoje, havia de rir ou chorar, era a máscara do momento; mas diria: tanto faz..., tanto me faz... Sabia-o!

Luiz Pacheco


Coro de escárnio e lamentação dos cornudos em volta de S.Pedro

Coplas dedicadas às fogosas e vampirescas mulheres da
Beira,de quem já Abel Botelho disse o que disse.

Monólogo do primeiro cornudo:

Acordei um triste dia

Com uns cornos bem bonitos

E perguntei à Maria

Porque me pôs os palitos

Jurou por alma da mãe

(Com mil tretas de mulher)

Que era mentira

Tambem,ainda me custava a crer

Fiquei de olho espevitado

Que calado é o melhor

E para não re-ser enganado

Redobrei gozos de amor

Tais canseiras dei ao físico

Tal ardor pus nos abraços

Que caí morto de tísico

Com o sexo em pedaços

Já esperava por isto a magana?

Já previra o que se deu?

Do Além via-a na cama

Com um tipo pior que eu

Vi-o dar ao rabo a valer

Fornicando a preceito

Sabia daquele mistério

Que puxa muito do peito

Foi a hora de me eu rir

Que a vingança tem seus quês

O mais certo é para aqui vir

Ainda antes que passe um mês

Arranjei um bom lugar

Na pensão de Mestre Pedro

Onde todos vão parar

Embora com muito medo

Não passava de uma semana

O meu dito estava escrito

Vítima daquela magana

Pobre tísico,tadito

Dueto dos dois cornudos:

Agora já somos dois

A espreitar de cá de cima

Calados como dois bois

Vendo o que passa na vida

Meteu na cama mais gente

Um,dois,três logo a seguir

Não há piça que a contente

É tudo o que tiver de vir

São Pedro,indignado,pragueja:

É demais,arre diabo-berra S.Pedro,sandeu-

E mortos por dar ao rabo,lá vêm eles p'ró ceu...

Coro,pianíssimo,lirismo nas vozes:

Quem morre como um anjinho...

Quem morre por muito amar...

Coro,agora narrativo ou explicativo:

Já formamos um ranchinho,de cá de cima a espreitar

Aparte do autor das coplas:-coitadinhos

Passam meses,passa tempo e a bela não se consola

Já somos um regimento como esses que vão para a Angola

Fazemos apostas lindas sempre que vem cara nova

Cálculos,medidas infindas,como ela terá a cova!

Há quem diga que por si já não lhe tocou o fundo

Outros juram que era assim do tamanho deste mundo

Parecia uma piscina!-diz um do lado,espantado-

Nunca vi uma menina num estado tão desgraçado

(Aparte do autor,antigo militante das esquerdas baixas)

Num estado tão desgraçado,parece-me ouvir o povo

Chorando seu triste fado nas garras do Estado Novo

O ultimo que cegou cá morreu que nem um patego

Afogado e era mar nos abismos daquele pêgo

O coro dos cornudos acompanhado por S.Pedro em

surdina,entoa a moralidade,após ter limpado as últimas

lagrimetas e suspirado como só os cornudos sabem:ahh!

Mulher não queiras sabida

Nem com vício desusado

Que podes perder a vida

Na estafa de dar ao rabo

Escolhe donzela discreta

Com os três no seu lugar

Examina-lhe bem a greta

Não te vá ela enganar

E depois de lhe veres o bicho

E as mamadeiras que tem

A funcionar a capricho

Já sabes se te convem

Mulher calma,é estima-la

Como a santa no altar

Cabra doida,é rifa-la

Que não venhas cá parar

Este conselho te dão

E não te levam dinheiro

Os cornudos que aqui estão

Com São Pedro hospitaleiro

Invejosos,quase todos

Dos cornos que o mundo guarda

Fazem mais um bocado de lamentação

(Nota do autor-quase,porque,entretanto alguns brincavam uns com os

outros.Rabolices...

Mas se fornicas a rodos tua vida aqui não tarda

Recomeça a moralidade,estilo 'estão verdes,não prestam'

Alguns bêbedos,cornudos despeitados ou

amargurados,vozes pastosas (deve ler-se vinho...velhinho)

Melhor que a mulher é o vinho

Que faz esquecer a mulher

Que faz do amor já velhinho

Ressurgir de novo o prazer

Finale muito católico

Assim termina o lamento

Pois recordar é sofrer

A mãe fode

É bom sustento

E por nós reza o pater

Luiz Pacheco,num dia em que se achou mais pachorrento.


BIBLIOGRAFIA

História antiga e conhecida
1946
in Bloco (vários autores)
Reeditado em Crítica de circunstância e em 2002 com o nome Os doutores, a salvação e o menino Jesus;

Caca, cuspo & Ramela
1958?9
Colecção "A antologia em 1958"
Triunvirato de Luiz Pacheco, Natália Correia e Manuel de Lima:

Carta-Sincera a José Gomes Ferreira
1959
Colecção "A antologia em 1958"
Lisboa;

Convivência e polémica (panfleto)
1959;

Crueldade testicular (panfleto)
1960
Contraponto;

O Teodolito
1962
Contraponto
Edição policopiada.
5ª Edição integral pela Ed. Rolim, Lisboa (1985).
6ª Edição levemente corrigida pelo autor (1990), Estuário, Lontra europeia, 2 (Setúbal) - com prefácio de António Mega Ferreira e ilustrações de Luís Filipe Cunha;

Surrealismo/ Abjeccionismo
1963
Editorial Minotauro
Antologia org: Mário Cesariny, inclui versão abreviada d'O Teodolito;

Comunidade
1964
Contraponto
Há pelo menos 11 reedições: 1969, 1980 (6ª ed. com desenhos de Teresa Dias Coellho, pela Contexto - Cábulas de navegação, 2 - Lisboa), 1985 (Forja - Textos Forja, Lisboa) e 1999 (11ª ed. com extra-textos de Isabel Lobinho e revisão de Aníbal Telo, pela Sabatina, Lisboa);

Comunicado ou intervenção da província (panfleto)
1966;

O cachecol do artista (panfleto)
1965
Contraponto
Santarém;

Coro de escárnio e lamentação dos cornudos em volta de S.Pedro (poema)
1966 (1965?)
Afrodite
in "Antologia da poesia erótica e satírica", org. Natália Correia;

Maravilhas & maravalhas caldenses (panfleto)
1966;

Crítica de Circunstância
1966
Ulisseia;

Textos Locais
1967(1968?)
Contraponto
Alcobaça:

Exéquias de Manuel Lima, o careca: manifesto
1967
Texto policopiado:

O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor
1970
Contraponto
Com gralha na capa corrigida pelo autor. (à esquerda)
Duas reedição: uma ordinária e outra em papel couchet, com fac-simile manuscrito - Edições Colibri, Lisboa (1992) e textos acompanhantes de Vitor Silva Tavares (direita).
Reedição Fundação cultural Bracara Augusta, Braga: cidade bimilenar (2000);

Exercícios de estilo
1971 (2ºed. 1973, 3ªed. 1998 - revista e aumentada - colecção Ficções, 30)
Editorial Estampa
Novas direcções, 6
Lisboa;

Literatura comestível
1972
Editorial Estampa
Novas direcções, 7
Lisboa;

Pacheco versus Cesariny - folhetim de feição epistolográfica
1974 (1973?)
Editorial Estampa
Novas direcções, 23
Lisboa
Capa e ilustrações de Martim Avilez;

A PIDE nunca existiu (panfleto)
1976;

Textos de Circunstância
1977
Fronteira
Direito à cultura, 5
Amadora;

Carta a Gonelha
1977
Contraponto;

Textos Malditos
1977
Fernando Ribeiro de Mello/ Edições Afrodite
Autores, 1
Lisboa;

Textos de Guerrilha 1
1979
Ler Editora
Lisboa
Prefácio de José João Louro. Ilustrações de Vasco;

Torga: a minha homenagem (panfleto)
Contraponto
1979?
Ed. revista de "Os nossos escribas no pós-25 de Abril: Miguel Torga o caso veterano" página Um, Lisboa n.249, 1978;

O caso do sonâmbulo chupista (panfleto)
1980
Contraponto
Lisboa;

O Caso das Criancinhas Desaparecidas
1981
Círculo dos Leitores
Lisboa
Reedição pela Ed. Rolim, Lisboa (1986);

Textos de Guerrilha 2
1981
Ler Editora
Poema prefacial de José Correia Tavares. Carta posfácio de Paulo Eduardo Pacheco;

Textos do Barro
1985 (1984?)
Contraponto
Lisboa
Ilustrações de Maria Henriques
Nota:desta edição fizeram-se 500 exemplares assinados e numerados pelo autor;

O Teodolito e a velha casa
1985
Rolim
A hora do lobo, 6
Lisboa
Nota:Reedição integral conforme a de 1962;

Textos Sadinos
1991
Plurijornal
Colecção Arca do verbo, 2
Setúbal
Prefácio de Baptista-Bastos e epitáfio de Ângela Caires. Com Ilustrações de Rui Mesquita;

Carta a Fátima
1992
Plurijornal
Setúbal
500 exemplares;

O uivo do coiote
1992
Contraponto
Palmela
Livro de entrevistas. Reedição em 1996 (Palmela) com prefácio de Acácio Barradas;

Memorando, Mirabolando
1995
Contraponto
Setúbal;

Coro dos cornudos
1996-8?
Contraponto
Palmela?
Reeditado em 2000;

Cartas na mesa: 1966-1996
1996
Editorial Escritor
Lisboa
Apresentação e notas de Serafim Ferreira. (2ª ed. 1996);

Prazo de validade
1998
Contraponto
Palmela
Crónicas do Público. Ilustrações de Manuel João Ramos;

Isto de estar vivo
2000
Contraponto (500 exemplares)
Selecção de crónicas do Diário Económico entre Abril 1995 e Dezembro 1996
Ilustração de Alice Geirinhas;

Uma admirável droga
2001
Quarteto editora
Acasos, 5
Coimbra;

Mano forte
2002
Editorial Alexandria
Lisboa
Correspondência com António José Forte entre 1961 e 1966.
1000 exemplares numerados. Transcrição e apresentação de Bernardo de Sá Nogueira. Existem mais duas edições, uma numerada de 1 a 100 e assinadas pelo autor e outra, de 30 exemplares numerados, com estojo e encadernação em tela;

Os doutores, a salvação e o menino Jesus - Conto de Natal
2002
Oficina do livro
Lisboa
Ilustração de Henrique Manuel;

Raio de Luar
2003
Oficina do livro
Lisboa
Prefácio de Rui Zink. Textos sobre vários temas, escritores, etc;

Os melhores contos e novelas portuguesas, Vol 3
2003
Selecções do Readers Digest
Lisboa
Organizado por Vasco Graça Moura, inclui a Comunidade;

Figuras, figurantes e figurões
2004
O Independente
Colecção Inéditos da Imprensa
Lisboa
Prefácio e edição de João Pedro George, que inclui, maioritariamente, crónicas provindas da revista angolana Notícia e do jornal Diário Económico e mais 6 textos;

Diário remendado 1971-1975
2005
D. Quixote
Lisboa;

Cartas ao léu: 24 cartas a João Carlos Raposo Nunes
2005
Quasi
Biblioteca Primeiras Pessoas
Vila Nova de Famalicão
Organização e notas de António Cândido Franco.


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20 Comments:

At 6 de janeiro de 2008 às 16:00, Anonymous L.Carvalho said...

A morte do Luiz Pacheco, e do Mário Cesariny, é o fim de uma geração de intelectuais boémios, anarcas, desalinhados, que viveram no limbo da marginalidade e usaram as fragilidades da vida para alimentar o talento.
Com eles a palavra libertinagem ganha toda a plenitude e a inquietação e a irreverência tornaram-se acção.

Conheci o Luiz Pacheco nos anos setenta na Livraria Opinião, no Bairro Alto.
O Hipólito era então o gerente da livraria-galeria-bar e com a sua militância intelectual e de vida apresentou-me a figuras que acabaram por marcar o meu percurso. Foi lá, por exemplo, que conheci o Augusto Cabrita, o Batista-Bastos, muitos outros.
O Pacheco pairava pela Opinião, na Cervejaria Trindade, no Restaurante A trave, atormentando todos e todas com uma disposição irreverente, constante.
Era um provocador permanente, nato, um desatino.
Foram muitas as vezes que fugi dele para não ter que o aturar, principalmente quando vinha com os copos, o que era constante. Lembro-me de uma cena que me horrorizou dele a meter nos bolsos do casaco o resto do almoço!!! Demasiado para a minha camioneta ! Gostava dele mas não tinha pachorra para aqueles exageros, mas eu sou muito conservador.
A sua presença abanava a tranquilidade e muitas vezes nas piores alturas.
Mas todos gostávamos dele.
Como dizia alguém, " era um cabrão de quem se gostava!".
Era uma surpresa constante, com o que dizia e sobretudo como dizia. Por vezes as palavras eram tão entremeladas que já nada se entendia.
Na altura confesso que nos meus vinte e poucos anos nem me apercebi da dimensão da sua obra.

O fim dos anarquistas num tempo em que os medíocres abundam.
O Luiz Pacheco vai de certeza contaminar o Céu !

 
At 6 de janeiro de 2008 às 16:08, Anonymous L. said...

Morre um HOMEM BOM
Resta esperar que, em lugar das declarações de circunstância proferidas pelos do costume, seja feita uma ampla divulgação da sua vida e da sua obra.

 
At 6 de janeiro de 2008 às 16:30, Anonymous Anónimo said...

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

De Mário de Sá-Carneiro… para Luís Pacheco...

 
At 6 de janeiro de 2008 às 16:33, Anonymous José Mário Silva said...

Morreu o Pacheco. O escriba sem medo, o maldito, o bendito, o sacripanta, o míope, o desbocado, o crava, o madraço, o arrasa-livros, o salva-livros, o editor extremoso, o prosador desassombrado, o lúbrico, o chico-esperto, o espalha-brasas, o fura-vidas, o franco-atirador, o marginal, o amigo da onça, o asmático que berrava, o que atirava à cara, o que não se ficava, o que dizia as verdades mais duras, o hiper-lúcido, o inimputável, o português mais português de Portugal (no seu jeito malandro de oscilar entre a grandeza e a miséria).
Era um génio? Era. Génio heterodoxo e escangalhado, mas génio. Leia-se o que fez à língua portuguesa em livros como O Teodolito, O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor ou Comunidade. Tratos de amante canalha, coisas milagrosas.
Quando a morte o procurou, ontem à noite, num lar da terceira idade no Montijo, das duas uma: ou lhe fez um manguito dos antigos e riu na cara dela como um alarve, ou deixou-se ir com a mansidão dos resignados mas ainda a mirar-lhe as pernas e a magicar um piropo.

 
At 6 de janeiro de 2008 às 16:36, Anonymous J.G. said...

Era no tempo em que a Feira do Livro de Lisboa estava viva. O Pacheco deambulava entre os pavilhões com um saco de plástico de onde tirava exemplares de uma edição - com um erro que ele fazia questão de emendar à mão - do seu Libertino que vendia directamente a quem quisesse.
Descemos - eu, ele e o Vicente Batalha - até ao Marquês de Pombal onde ele desapareceu tão depressa como tinha aparecido.
À medida que o tempo passa, e salvo duas ou três honrosas excepções, os meus mortos são os meus melhores vivos.
Pacheco tem a vantagem, sobre outros mortos-vivos, dos livros e da polémica.
Com o seu desaparecimento, contudo, é um pouco mais do conformismo, da complacência e da mediocridade do "meio" que avança.
Toda a morte é uma inutilidade.
Com a do Pacheco, num país entregue ao pior postiço em todos os lados, a sensação de inutilidade aumenta. Ficamos só um pouco mais bovinos do que já estávamos.

«Eu não te vou ensinar, eu ensino-te é a combater o meio... o pá, um tipo que quer fazer carreira, se não for parvo de todo e for um bocadinho filho da puta... é facílimo... O meio literário é de cortar à faca, é muito fácil de penetrar. Eu, que nasci em Lisboa, via-os chegar da província, os Namoras, os Amândios César, os Paço d’Arcos, etc., andavam por aí a borbulhar, a deslizar, a ver quem chega primeiro. É como os espermatozóides. Agora combater o meio, isso é que é difícil, é o mais difícil... a questão é esta, estúpidos, conformistas, cobardes, é a maioria da malta...»

«O autêntico convívio resulta de nos pronunciarmos como somos, rigorosamente pessoais, cruelmente duros para os hesitantes e para os oportunistas (que são a maioria), sem respeitos humanos nem silêncios falaciosos.»

«...do velho Salazar, que também não era tão mal como isso... não era tão mal como isso... era péssimo, mas enfim... era péssimo, mas também não era como estes merdas que há agora...»

 
At 6 de janeiro de 2008 às 19:28, Blogger Bel said...

Deixou obra para ser lida mas não deixou exemplo de vida .
Paz à sua alma

Simplesmente Bel

 
At 6 de janeiro de 2008 às 20:24, Anonymous C.A.M. said...

Cara Jovem, afirma a menina:...«mas não deixou exemplo de vida.»
Peço desculpa, mas não sabe o que escreve.A sua experiência de vida e de valores é tão curta comparada com a do Pacheco, que mais uma vez lhe digo, não sabe o que escreve.Leia a obra do Pacheco e talvez no fim saiba ver que a vida do Pacheco foi um exemplo.

 
At 6 de janeiro de 2008 às 20:57, Anonymous Anónimo said...

Para que a "Simplesmente Bel" aprenda a conhecer o HOMEM:

Deixo aqui um dos mais brilhantes texto do Luiz Pacheco

O LIBERTINO PASSEIA POR BRAGA, A IDOLÁTRICA, O SEU ESPLENDOR

Outubro, 15. Noite em Vieira do Minho friorenta e agitada por pesadelos, incongruências, palpitações. Já de madrugada, O Mensageiro das Trevas aparece-me na cama, agarra-me quase ao colo com os seus dedos de aço nos braços e diz-me baixo, numa voz irónica mas simpática (ou cínica e trocista?): "Ontem (referência, parece, a um sonho meu da véspera, em que me surgira A Morte, com a sua caveira comum, de dentuça à mostra, cara desgraçada!), ontem viste-me com a minha triste cara verdadeira, hoje venho alegre (a face dele era uma máscara apalhaçada, coberta de giz) mas é para te dar uma má notícia, coitado (1):

AMANHÃ MESMO MORRERÁS!

Acordo aos estremeções, aflito, com uma consciência muito nítida do encontro, e começo por fazer figas debaixo da roupa ao Intruso, mas depois, cheio duma superstição infantil (que me ficou da criança que fui, entenda-se), faço o sinal-da-cruz. E para não tirar as mãos debaixo do quente das mantas, engrolo gestos e palavras mesmo sobre o peito, à matroca, como um aprendiz de catequese faria. Sossego mais. Começo a pensar como morrerei. Desastre? colapso? ou loucura súbita e logo suicida? Adormeço nisto. Ao acordar conto ao Forte o meu sonho, para o esconjurar. Ou talvez para criar uma testemunha do meu presságio nocturno, se sair certo. Figas! Cruzes! Malandro! Canhoto! E logo eu, que gosto tanto da Vida! A caminheta dos livros segue para Braga; primeira paragem, em Esporães ou Esporões (2), outra terra a que perdi o nome (3) e depois Somar. Eis a grande revelação da jornada: Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no 3º ano do curso comercial, residente no lugar de Assento. Fico varado! Mas é a Lolita tal-e-qual do Nabokov, é a Super-Geninha jamais esquecida. A Super-Super-Geninha, que talvez me vá fazer esquecer de vez a outra. Baixa, encorpada, ancas cheias como se quer, barriga abaulada, leveza nos modos, gravidade e força de mulher no corpo, uma suave expectativa de adolescente. Que beleza! Que maravilha! Morena, olhos atentos, cabelo entrançado (seria? ou rabo-de-cavalo?). Adivinho e aspiro o perfume do seu sexo; leio-lhe nos olhos os gritos que ela daria de prazer se a possuísse agora, nesta luta de vida ou de morte contra o Mafarrico, a última, a grande vitória do Libertino. O espichar de corpo, o estrebuche no orgasmo, que beleza, que maravilha!

Sou eu que lhe ensino a preencher a ficha de inscrição, depois perco-me dela, para não revelar a minha exaltação. Ela é que escolhe os livros: três volumes Condessa de Ségur ("O Enjeitadinho"? "O Corcundinha"?, são livros de títulos tristes). Espero-a fora da caminheta, estendo a mão, pego nos livros que pediu, faço perguntas calmas; ela é grave, concisa, responde logo com naturalidade ao que lhe pergunto: "Andas a estudar? sim. Em que ano? terceiro ano da escola comercial. Estás adiantada". Ela fica ainda perto da caminheta uns minutos, a ver os que entram e saem, e depois segue num passo lento por uma azinhaga que desce entre muros. Faço umas manobras disfarçatórias, ando por aqui por ali, e acabo por enfiar alvoroçadamente azinhaga abaixo, na esperança de a tornar a ver, mesmo de longe! e desfocada em vulto com as minhas múltiplas dioptrias! ou falar-lhe, o que era já improvável. Pergunto a uns indígenas muito sujinhos, benza-os Deus, onde era o lugar de Assento, novitos, nunca ouviram falar (nem chego até a perceber se entenderam o que lhes disse). Sigo pela azinhaga. Está uma manhã puríssima e silenciosa. Casas velhas, palheiros de gente e gado, tons pela verdura de castanho, ruivo, sanguínea nas parreiras e árvores. Conversas que me chegam, abafadas pelos muros grossos das empenas, pela distância, pela sua própria peculiar intimidade, que se espalham no ar e congelam em cima de mim uma súbita tristeza, ou isolamento de angustiado: quem me dera ser um deles! ser um da casa! eles conhecerem-me!, mas não como agora, mas desde o princípio, um como eles, na pureza fresca e larga desta manhã dos arredores de Braga no Outono, com a vizinhança permanente da Deolinda e seu cheiro de terra lavrada por semear. Medito, ocorre-me por um instante a diferença das classes e fossos vários que as separam, do qual o maior não será o económico sendo o mais decisivo como maquilhagem das pessoas (explico: sem um tostão na algibeira, eu era tão pobre como um deles ou mais pobre ainda, mas o que nos separaria para sempre era aquela estranheza feita dos nossos tempos diferentes e de como cada qual os tínhamos gasto, eles ali como plantas, húmus, eu sempre por casas e terras e gentes afinal a mim alheias). Como lhes fazer compreender agora a minha vida, ou contá-la como novela ao serão, quem sou, quem fui, o que fiz, e onde tudo começou e em que capítulo ficámos na última noite e onde tudo irá acabar... Impossível saber e eles saberem-no, sofrer como eles sofreram ou eles sofrerem por mim as minhas dores passadas, gozar eu com as suas alegrias e nada, nada disto nos poderá ser comum.

Regresso à caminheta e venho a saber depois que o lugar de Assento é estrada abaixo, para ao pé da igreja. Voltamos todos para Braga. Apontei o nome da miúda e o resto. Almoçarada em Gualtar com o Forte e o King- Kong, o motorista, que paga tudo e está simpatiquíssimo comigo e com o Mundo. Frango com arroz, à minhota, uma delícia. Vinho verde, à minhota, uma delícia. Como bundaradas porque adoro arroz de cabidela e vinho verde e minhotas: "Deolinda da Costa Rodrigues, 14 anos, no lugar de Assento, cá me ficas, mas este arroz marcha à frente!". Bebo mais que um Arcebispo, com o Bom-Jesus em cenário. Deixo de pensar na Morte, essa magana. Estou um tanto pesado e alegrote. Voltamos a Braga. Cafés. Decido ficar. O Forte dá-me cinco escudos, que é quanto lhe resta. Um bom Libertino não precisa de dinheiro. Decido ficar e fazer uma tarde de luxúria mental em Braga, para esconjurar o cheiro a incenso e mofo de padre que empestam estas ruas.

Largo o casaco e a sacola num tasco. Meto mais verde. Telefono ao. Victor de Sá, a quem vinha incumbido de entrevistar para a "Seara". Grande confusão política em Braga: há duas listas da Oposição, uma, a boa, que o Governo cortou, "da maneira mais arbitrária...", diz-me o V.S.; outra, a dos moderados ou mortos (é o termo dele). E que não dá entrevista, que tem muito que fazer, que estão a estudar uma reclamação ou petição, etc. Oh diacho, é outro caso de pré-deputado ou candidato a deputado, que chega ao dia das eleições sem saber se vai, se o deixam ir, se lhe contam os votos, se as listas de eleitores lhe são facultadas, a cegada do costume. E duas listas da Oposição, em Braga?!... É para ver se perdem mais depressa, ah!... ah!... (isto sou eu a rir-me dos políticos de Braga). Concluo que em Braga a política é uma trampa, uma trampa aflita em dias de sol deste, com raparigas na sua folga de domingo, o Vianense a jogar contra o Braga, logo excursões de Viana ali perto, com certeza - e a Deolinda perdida entre azinhagas e casas velhas, o lugar de Assento ao pé da igreja, a Deolinda ainda não esquecida mesmo depois do frango do almoço. Vou-me a ela!

Mas passam por mim duas miúdas: uma, grande cu descaído, badalhoca de cara, trouxa de carne a dar às pernas - é a que me tenta; outra, muito compostinha no trajar, casaco preto, saia branca ou creme, muito viva, muito espevitada. Atiro pontaria na badalhoca, a ver se avanço depressa o negócio, jogando no ganha-perde da beleza física e no cálculo das probabilidades dos complexos das feias. Vou-as seguindo, de rabo alçado como um garanhão, e a gorduchona já me topou. Olha para trás, por vezes. Já comunicou à parceira. A andar, a andar, chegamos a uma espécie de logradouro público, com certo ar antiquado e bancos largos de pedra, onde finda a linha dos eléctricos para o estádio (vejo o nome, Estádio 28 de Maio, oh a Política!, ah! ah!, isto só em Braga). Mas agora o grupo das meninas complicou-se: entrou por ali uma velha gorda, e inútil, e naturalmente sabichona e danada por invejar o prazer dos outros como é próprio de velhas; com ela, e tão empatas como ela, duas estúpidas de duas garotitas, broncas e também inúteis para questões de sexo. Sento-me num banco e faço de grão-senhor, porque assim disfarço as calças rotas no rabo. A miúda mais bonita dá-me uma chance? (será isso?). Atira-se a dizer: "Eu sento-me já aqui", e vem toda lampeira para o meu banco, mas depois passa ao do lado. Manobra provocatória, mas feita por uma quase amadora? assim o entendi, e lanço-lhe uns olhares de desfazer pedras, o meu olhar mágico, de megatoneladas de cio (assim penso, mas com as 17 ou mais dioptrias e o estigmatismo e as lentes, e as clarabóias do verde, que olhar será o meu?). A trupe das estúpidas, porém, escolhe um banco lá pro fim e depois ficam todas sentadas e de costas umas para as outras e caladas. Domingos divertidos passam estas raparigas em Braga! quase tanto como o V.S. a preparar as suas petições para o ministro limpar o rabo a elas. Crio fastio de posar ao grão-senhor, distraído e benevolente com a paisagem. E começo a deambular, de árvore para árvore, e vou comprar castanhas ao cimo duma escadaria porque as duas miúdas broncas para coisas de entre-pemas vieram também ali abastecer-se; o meu fito era chegar à fala com elas e daí às mais graudinhas. Começo a comer castanhas e fico raivoso - ou embuchado? Escrevo então dois bilhetinhos (de que desculparão o estilo parvóide: nestas coisas de engates de miúdas e, até, de graúdas, segundo opinam os entendidos, quanto mais estúpidas as declarações de amor mais resultado dão, aqui a intenção, a sugestão é tudo), em folhas arrancadas da agenda, assim: Preciso muito de falar consigo, diga-me o seu nome e morada; outro, assim: Lambia-te toda, desde as maminhas até ao pipi. Verás que gozo, é melhor que bom, em linguagem infantilizada, a ver se pega. Amachuco-os até caberem numa bolinha dentro duma casca vazia de castanha, que guardo na algibeira da blusa, ao lado da bolota que me caiu em cima dos ombros esta manhã e considero um talismã... ora agora aqui se podem rir da minha infantilidade, mas olhem que vi O Mundo a Seus Pés. Viram ? A castanha amorosa é para mandar à gorducha ou à outra, a tal compostinha, isto se chegarmos à fala, do que já começo a duvidar; sinto que estou a perder tempo (como o outro tonto, a redigir petições sinceras) e precipito os acontecimentos. Aproximo-me do banco delas e faço um jogo declarado de olhares furiosos, de cem megatoneladas, para a gorducha lorpa, que é a que me deita as trombas de frente; a outra, a sagaz, está de costas. A velha topa-me ou é informada (porque há gente capaz de tudo, seria alguma das miúdas ou das brutinhas primárias?), e resolve arrecadar o rebanho para casa. Vou-as seguindo a distância, e pelo caminho inda catrapisco umas malfeitonas que andam a saber o seu Destino numa maniqueta chegada da América que diz se o que se tem no pensamento sairá certo ou errado, e dá uma sina disparatada a cada cliente, tudo por dez tostões (esqueci-me de dizer que no caminho para lá, para o repouso ao pé do estádio, a miúda gira tinha ido consultar a maquineta, muito azougada e preocupada com o seu futuro, e foi aí, até, que reparei como era vivaz e um tanto parecida (ou não seria ilusão minha?), nos modos e cabrice, com a Geninha. Começo a ver que, com guardiã à perna e saloias até mais não, destas fulanas não levo nada. Preparo uma vingança digna dum Libertino nos domingos sonolentos de Braga. Elas vão ao fundo da avenida; então, chamo um puto com cara de esperto: "Eh pá, queres ganhar uma croa? (eu tinha só três) sim, senhora! atão, entrega esta castanha àquela menina que vai ali, de casaco preto e saia branca. Mas de modo que ninguém veja...". O puto desata numa corrida e eu atravesso logo para o outro passeio, como o bombista que se afasta dos estilhaços que ele próprio provocou. Anarquismo minhoto!

Meto a caminho de Somar. Saem-me à estrada duas bezerras, tasquinhando castanhas. Peço-lhes de que comer, mostra-me uma um naco de pão com carne ou presunto. "Que o reparta", digo. Mas elas são duas toiras muito sabidas e não vão às primeiras com o meu ar tedibói pobretana. A de cá, da direita, é um belo pedaço de mulher, coxas reais, pernas, cabelos e cara, bicho para dar trabalho de cu-abaixo-cu-acima a um batalhão. Vão para um baile ou encontro furtivo. Que as fodam! Dou-me todo a pensar na minha Deolinda e aperto a bolota-talismã. Chego ao local onde a vira primeiro, de manhã, com uma casa afidalgada na curva da estrada e a azinhaga que enviesga para os campos, à direita. Farei referência pela igreja, já que o lugar de Assento é vizinho e depois bisbilhotarei pelos campos, usando o meu faro atiradiço. Onde estará agora a casta diva? Lá se vê a capela, e pergunto a quatro moçoilas onde é o lugar de Assento, "que é por ali", respondem, "então sigam à minha frente que é para eu as ver melhor" , digo, a fingir de domador de potras vadias. Estas são mais novas que as duas de há bocado na estrada, aí entre os 15 ou os 18, mulherzinhas já, mas não fazem concorrência à Deolinda, ah! não, p.q. as pariu! Vão numa grande galhofa, e eu rio-me cá atrás, para saberem que lhes estou interessado nas falas. A que vai do meu lado, à esquerda da azinhaga, é uma loira espigadota, bonitota, provocante; é a que mais vezes se volta e encaro-a com o meu olhar mágico de duzentas megatoneladas e um riso de dizer (e o pior era o bafo, a mosto...) "anda cá, rapariga, estou cheio de tesão por ti, pois não vês?". Vamos neste jogo modesto até ao lugar de Assento e eu já arranjei pretexto para andar por ali, com o meu traje um tanto invulgar: blusão de nylon preto, calças rotas no rabo, sapatos rotíssimos nas solas e sujos de poeira por cima, uma coisa entre o tedibói e o vagabundo, com a pêndula a dar neste quando melhor se reparasse que blusão, calças e sapatos, novos ou rotos, velhos ou rebrilhantes, não iam com o meu corpo por medida senão por força de hábito e contrariados. O pretexto é: que me disseram que a capela ou igreja é muito, muito antiga e tem muito que ver; faço-me de Raul Proença ou Torga, a coscuvilhar raridades perdidas na Província, preocupado com velharias e ossos, quando o que quero são caras e bocas e olhos e risos. E mãos e pernas. Tudo, etc., de mulheres. Dou com a capela aberta: fazem um baptizado. O padre tem cara de cabra doente. Puta que o pariu mais ao pai da criança (que, depois, vim a sabê-lo, está em Angola-é-Nossa. Boa ocasião de conhecer melhor a mãe do neófito, para compensá-la do patriotismo do marido). As raparigas sentaram-se numa pedra e faço o mesmo, mesmo ao pé delas. Então entro em palestra, que toma logo um caminho picante: se a igreja é muito antiga, se elas são solteiras, se moram por ali, se há na casa da loirita um quarto a mais ou uma cama (abespinha-se: "isso num chei!") e mais isto e aquilo. Não dão muito pela minha curiosidade arqueológica e não sabem bem a qual delas me atiro ou que faço ali. Duas saem aos saltos, à outra peço-lhe tremoços que mos atira, caem no chão, pede desculpa, dá-me mais na mãozinha, pergunto se não há vinho para os forasteiros. Estou nisto e sai da porta, mesmo ao pé da igreja, a Lindita, a minha Lolita, a Super-Geninha. A bolota-talismã não me desenganou. Sai a correr, leva um cântaro e desaparece numa azinhaga. (A esta maravilha perco-a sempre por azinhagas). Estou em ir ou não ir atrás dela, mas disfarço o jogo, por causa das quatro sabichonas e também porque ela, tendo-me visto, não deu mostras de me reconhecer. O que me parece pouco natural, dado o meu blusão negro, característico, os óculos, a cara espantada, as calças todas amachucadas. Vira-me ainda não há umas 5 horas. Falara com ela duas vezes. Rondara-a com os olhos. Mas talvez não desse à minha ida ali qualquer significado especial, talvez não me topasse por eu estar a pôr-lhe os cornos com as outras, qualquer delas me servia para abrir o meu apetite da Super-Geninha, se isso fosse preciso. Mas o foder dá a vontade do foder (mais). Reparou em mim? não reparou? Daí a nada voltava a correr, sem o cântaro, e olhou-me como da primeira vez e eu olhei-a, com naturalidade. As quatro sabichonas não deram por nada. Entretanto, tinham-se ido sentar mais adiante e eu dei-lhes sopa, porque não aturo más-criações (mesmo fingidas e provocadoras) e agora que já vira a Super-Lolita-Super-Geninha não me calhava estar a namorar com elas. Vou-me para a capela, na minha nova pele de arqueólogo amador, neo-Proença. Surge o sacristão, que olhou para a blusa nova e não reparou nas calças esfiampadas, rotas e cosidas no cu. Óptimo. Falo para o futuro (dele): que quero tirar umas fotos àquela igreja tão antiga (muito, muito, diz-me o tipo a impingir-me a mercadoria), vejo uns baixos-relevos muito antigos (?) e muito toscos também, entro na capela, bisbilhoto tudo. O baptizo já acabou, e estão agora todos cá fora a conversar. Falo ao tipo na minha reportagem, em fotos - ele aí atrapalhou-me porque está um tipo precisamente cá fora a tirar fotografias ao bebé ranhoso e ao padre cara-de-cabra-doente, mas digo que a minha máquina é melhor, é minha. (Não tenho máquina nenhuma). O tipo concorda, está à espera duma gorja bestial mas eu lanço-o no caminho das grandes esperanças (no futuro). Falo da Fundação Gulbenkian, de milhões, de petróleo. Sou agora repórter da Fundação, faço de Santana Dionísio. Logo a seguir tomo nota do nome e morada do cavalheiro a aprazar vinda próxima, pois é nesta terra que me sinto bem. Entretanto, catrapisco ao longe a Super, que está numa bela pose inclinada a ver o grupo a tirar poses e mais poses para mandar ao pai da criança. Se a pudesse engatar! Vou atrás daquelas bestas, sempre metendo fantasias na pinha do sacristão, que é um espertalhão-estúpido, típico maloio de Braga. E vou-me. Marcho para Braga, está a fazer-se tarde e faz frio. Gasto a última coroa para a caixinha da rapariguita que me guardou a bagagem. Visto o casaco e vou ao ataque da Pensão Oliveira, onde há que fazer meter na pinha do hospedeiro que sou um velho e fiel cliente da casa. Havia nesta pensão duas velhotas Antigo Regime, uma sala de cortinados com um piano e duas maganas que tinham (uma delas) bigodaça loira. Tá tudo mudado: bar americano, tasco infame, forno de assar frangos. "As velhas morreram, para dar lugar à gente, antão?!", diz-me a filha do dono. Este leva-me ao meu antigo quarto no 2º andar, pergunto pelo piano, ainda lá está porque não há quem o queira. E na antiga cozinha é agora um quarto para noivos ou casais que façam muito uso de água, porque tem chuveiro e bidé sanitas anexo. Um regalo para encontros furtivos. Aqui a luxúria envolveu-se no campo perigoso da política, ah! ah! Bebo mais um copo, que me dá uma grande volta às tripas. Tenho de ir para o jardim passear, com vómitos embrulhados na língua. Aguento. Jantar. Dois moços de fidalgas famílias ou de massa? são estúpidos mas gulosos de mulheres. Meto conversa. Pergunto como é isto aqui de putas em Braga. Faço-lhes um sinalzinho com o dedo indicador em curva para virem até à minha mesa e levo o assunto para o minete, reforçado depois com o biminete. Dizem que há aqui o 28, que tem uma (pelo menos) gaja boa. Pergunto se já fizeram ou viram fazer minete. Explico-lhes o biminete. Pretendo com isto uma bacanal a cinco, que eles pagariam para me ver e foder as miúdas. Ficaram chocados com a minha declaração de que o foder já não se usa, cansa muito e eu tenho tesão, mas não fodo. São eles que terão de foder as mulheres. Não percebo bem se estão espantados, irritados ou entusiasmados. Querem ir ao 28 mas digo que depois de jantar, nada. Mais tarde. Eles então vão para o cinema e eu fico de ir esperá-Ios à porta. Saem jurando vingança! Cravo um maço de Paris ao balcão e fósforos. E perco-me pouco depois a explicar a um melro que o Totobola não prejudica isto da lotaria porque o lucro vai para a mesmíssima sereníssima beatíssima Misericórdia. Depois aparece um velho ginja que é monárquico, um tipo assanhado com um olho com um grande penso branco e um cabo ou sargento (não entendo de divisas) que vai para Angola e diz que um rei alemão, que nem sabe falar português, não lhe serve. Grande barafunda, berraria, copos, risadas. Eu vou de grupo a grupo, dou razão ao que está mais perto, digo ao sargento que o ginja pode ser um agente da Pide e provocador, o do olho entrapado diz que ele é um caixeirote, que nem fidalgo é, etc. O sargento diz que ele é que é da Pide, que pode até mostrar o cartão, que o monárquico é um mentiroso. Nessa altura levo os dois republicanos ao meu quarto (o monárquico acabara de revelar a sua isenção cívica, declarando que tirava o chapéu à bandeira verde-vermelha, porque era a bandeira da Pátria, a Nação em forma de trapo, e que isso da bandeira azul-e-branca era uma história). Percebo que é um monárquico convicto, mas desiludido: está-se cagando para o D. Duarte Nuno, e diz apenas que há-de morrer assim, já que sempre foi monárquico.

No meu quarto dou ao sorja o Depoimento duma Angolana. Ele começa a ler em voz alta. Lê bem, mesmo as gralhas. O tipo do olho branco começa a ficar branco pró resto da cara. Abre a porta o dono da pensão (diz) porque viu luz. Suporia panascaria? Fecho a porta, à chave, depois de o ter tranquilizado que era tudo gente de bem. Discussão atrapalhada ou trapalhona sobre Angola-é-Nossa, pretos maus e brancos bons e vice-versa, com o sorja. O do olho tapado diz que tem gente à espera e desaparece. A discussão com o sorja nunca se azeda: ele diz que sempre é bom um tipo estar informado, eu digo-lhe que ele me pode prender ou mandar prender, mas que é o meu dever (tirada de editor patriota), ele tem medo de deixar as impressões digitais no papel, eu digo-lhe que a autora (branca, note, branca, e filha de brancos e casada com um branco) já foi chamada à Pide, ele suporá agora que sou eu da Pide, estamos os dois bêbados e taralhoucos, acaba por jurar que pode morrer mas aquilo é nosso e foi nosso, sim, que há uma razão para se defender, e que pensa que há-de ter a sorte de matar ao menos um preto antes de o matarem a ele, e pira-se, clamando mortes e glórias. É um doido.

Saio para a rua e vou à cata dos dois pequenos libertinos ricos. Passeio pelas ruas de Braga, sigo ora uma miúda ora outra, deito olhares de megatoneladas, fumo. O cinema ainda não acabou. Vigio de longe o jogo amoroso duma mocinha a palrar na rua com um marçanito, muito gesticulosa, muito espalha-brasas, e com o corpo todo pendurado para cima dele que com a mão esquerda na algibeira vai entretendo o caralho com as promessas que a vista lhe está a demonstrar.

Até aqui, tudo muito bragal. Mas está-me a apetecer agora abjecção; saí da porta do cinema chateado com a demora dos rapazinhos, até porque não sabia se teriam ido ao Teatro Circo se ao Geraldo, onde também havia sessão. E aconteceu então o inesperado: tudo aliás muito naturalmente encadeado.

Faço o meu primeiro engate de magala, na rua. Não me digam tragédias: é facílimo. É a coisa mais natural do Mundo! Venho diante do café das Arcadas e de repente noto a meu lado um magala, de passo a par do meu. Olho-o uma vez e ele olha-me; olho-o segunda vez e ele volta a encarar comigo. Silêncio. Puxo do tabaco e ofereço-lhe: ele pára, pega no cigarro, dou-lhe lume, acende o meu, seguimos lado a lado. Entabula-se a conversa: trato-o logo por tu, mas sem superioridade, singelamente, como um velho camarada. Tem bom tipo: cara magra, olhar triste, rosto varonil e um pouco fatigado. Não é bonito, mas também não é boçal nem repelente. Magro de corpo, altura média. Um tipo calmo. Sei-Ihe a história num quarteirão de casas. Não é daqui, mas de Vila Franca de Xira ou perto, tem família em Lisboa, tios e tias, está danado de estar aqui (há dois meses), já emagreceu, por causa da comida; e mulheres, nada ou quase nada, não se safa: o tal 28 é a trinta paus cada virada, onde terá ele massa para isso com o pré da tropa (uns tostões, coisa que nem chega a 5 coroas). Segue amanhã às 3 para Lisboa, vai levado para a Amadora (?) fazer um treino e lá para o fim do ano, ala para Angola-é-Nossa. Parece que é mecânico ou coisa assim. A meio do cigarro apaga-o, para guardar a beata para o dia seguinte. Desconvenço-o. Acendo-lha outra vez e dou-lhe mais dois cigarros, que ele guarda um pouco avidamente na bolsa. Vamos conversando como dois velhos amigos, de repente eu olho-o muito a direito na cara, admiro-lhe o rosto. Ele já deve estar convencido que eu sou um paneleiro rico e tem a noite safa. Mas a conversa mantém-se sempre num plano de grande dignidade: malvadez da comida nos quartéis, carestia das putas, política no Ultramar (restos da minha discussão com o sargento), guerra em Angola-é-Nossa. Não é um herói, tudo isso o entristece muito, mas sem emoção. Lamenta-se mas não choraminga. A nossa conversa tem por vezes longos silêncios de metros. Vamos agora na estrada que conduz ao quartel: é aquelas duas luzes lá ao fundo; digo que sei mas não distingo senão manchas esborradas de luz, que podem ser os candeeiros da estrada. Passam por nós, em andar cadenciado de marcha, um rancho de taratas, à pressa de chegarem ao quartel antes da meia-noite. Olham o par arrebenta mas não têm uma palavra. Dum primeiro andar umas raparigolas dão uns risinhos e dizem uns dichotes.

- Estão a meter-se comigo - diz o meu companheiro cheio de calma. Voltamos a ficar sós na estrada. Parece-me que já consigo agora distinguir as tais duas luzes do quartel. Devo-lhe uma explicação.

- Gostas de broche? - pergunto e encaro-o fito nos olhos, muito sério, muito natural.

- An, nem por isso - responde sempre calmo.

- Pois é só o que eu te posso fazer - digo, como se me desculpasse de não ser o Calouste Gulbenkian.

- E quanto me dá? - pergunta desagradável feita em tom meramente comercial.

- Olha, não te posso dar nada - diz o falso Calouste - dava-te se tivesse, mas estou tesíssimo, não tenho um tostão, já o tabaco foi fiado na pensão, só amanhã é que recebo um vale de Lisboa, amanhã às duas e meia.

- 'tão, nada feito - diz a sua honra camponesa, e pela primeira vez noto como me apetecia aquele corpo, ser dono ou servo daquele aparato movediço de carne, pele, ossos, pêlos, força. E também me parece que ele está pronto a ir atrás de uma promessa, duma mentira qualquer, e que a recusa pela venda comercial é onde ele esconde a sua pronta adesão. Talvez o seu vício. Mas para comercial, comercial e meio.

- Se tivesse dava-te, já te disse.

Acreditou? não acreditou? O meu blusão rico de nylon, a minha barba mal feita, toda a nossa conversa, deram-lhe algum entendimento de mim?

- Ao menos, qualquer coisa para um maço de tabaco.

- Já te disse que não tenho um tostão Mas se queres tabaco, vens comigo à pensão e eu cravo lá um maço e bebes um copo ou uma cerveja. É fiado.

Paramos os dois na estrada. Aí - tenho a certeza - um pouco de insistência minha, qualquer promessa, fariam voltá-lo para trás. Mas não fiz nada disso; devo ter-lhe parecido um velho forreta, gabiru em chupar caralhos de borla. Resistiu.

- Só por isso não vale a pena, não interessa.

- Tens pouco tempo, não é?

- Não, posso recolher até à uma e mesmo ficar a noite fora. Mas não vale a pena - diz o ribatejano - é longe...

- Não sei - digo eu, quase no mesmo jogo, muito diplomata.

Voltamos a caminhar lado a lado. Calados.
.
- Vou ali fazer uma mija - diz o gajo.

- Vê lá se te vêem. Aqui há casas.

- Não faz mal, há aqui um sítio.

Descemos um carreiro em bico à direita da estrada. Escuridão. É o lugar ideal para mijar, cagar ou brochar discretamente. Calculo que ele está a provocar-me com o caralho fora das calças, quer festa, mas eu estou muito senhor de mim.

- É pena não ter dinheiro, aqui era um bom sítio.

- O senhor tem, há bocado disse que tinha - diz o franjolas a mijar à minha frente (e nem para a picha lhe olhei).

- Não tenho, já te disse que não tenho um tostão.

Sacudiu a gaita, voltámos à estrada.

- Ao menos, podia-me dar esse maço que tem aí...

- Toma.

E dou-lho, puxando um cigarro:

-Tiro este para mim.

Andamos, paramos. Estudamo-nos?

- Se quiseres aparecer, estou na Pensão Oliveira.
.
- Onde é que é isso?

- Ali ao pé da Polícia de Trânsito, no Campo da Vinha, mesmo defronte.

- Ao pé do posto da Polícia?

- Sim.

- Então ficamos assim: amanhã das nove às nove e meia estou lá, perto do posto da Polícia.

-Tá bem.

Dou-lhe um aperto de mão.

- Como te chamas?

- António.

- E eu Luiz.

- Até amanhã, então.

- Até amanhã.

Volto para Braga. Mas o cinema já fechou. E como estou um bocado tonto, passeio um bocado. Onde será o 28? Volto para a Pensão. Lá estão os dois rapazolas; ou serão outros, parecidos?

Pergunto:

- Que tal esse cinema?

- Não foi mau - respondeu com ar de zangado.

Ora vão pró caralho! Não aturo meninos depois de ter tido homens na mão. Bebo não bebo mais verde? bebo não bebo mais cerveja? ou uma água de Castelo? Fumo? Peço mais fiados? Volto a passear e aproveito para meter aqui o episódio da excursão vianense.

Quando andava a passear à tarde fui ao Campo da Vinha. 3 autocarros da Viação Courense (? Paredes de Coura ?). Farejei minhotas. Dentro, maioria de velhas e velhos, gente cansada, garotos com sono. Duas ou três mulheres cantam, um velhadas bate palmas a compasso. O problema estava em que duas das viandantes tinham cá os namorados e andam à solta. A chefa da excursão está arreliada e diz-lhe um home:

- Nós agora tínhamos o direito dirmos embora e deixá-las acá.

Mas a chefa tem as suas responsabilidades. Eu giro à roda daquelas caixas de gente envidraçada, olho uns, olho outros cá debaixo. Elas cantam. Há uma mulheraça à janela, que quer entusiasmar a malta. Canta. Parece a minha Rosinha (Rosa da Costa Vaz, de Viana, Santa Marta de Portuzelo ), mais velha, mais fodida. Canta bem. Eu acabo por ficar fixado na janela dela. Olho debaixo. Não me apetece como mulher fito-a como fantasma. E eu próprio sou um fantasma do que era há cinco anos ou seis quando aqui estive com a Rosinha - Rosa da Costa Vaz que foste, minha mulher (que não foi) minhota. Como eu a amei! Chegam as transviadas. Vêm refilonas, suadas, queriam mais foda. Barafustam com a chefa, a chefa barafusta com elas. Os carros começam a andar. Eu estou especado outra vez debaixo da janela da mulheraça (Rosinha, Rosinha, onde estarás?).

E esta que fingiu nunca dar por mim, quando o carro arranca e me deixa esquecido, diz:

- Adeus, meu senhor.

Como quem diz: estavas aí e me viste e me desejaste, e quiseste o meu cono, e fui tua. Nunca mais me verás, fantasma de blusão negro e óculos grossos cara aparvalhada, fica-te, tarrenego!, sei lá quem tu és - não sou para ti.

E eu que era para ela. Outra qualquer. Dentro e fora da memória, fantasma para fantasmas.

Vou para a cama. O vinho pesa-me na cabeça. Bebo água fria para desenjoar a gorja. Durmo como um bendito. Acordo no escuro, cedo, 6 ou 5 horas, há um grupo na Pensão que se está a levantar, batem portas. Estou excitadíssimo. O meu homem virá ao encontro? Onde o hei-de meter? Nestes quartos ouve-se tudo. Abjecção. Remorsos. Decido não ir. Misturo a Deolinda com o António e sem mexer na picha estou quase a vir-me. De repente, tudo é tão violento que tenho de bater uma punheta.

Como a Natureza previu todas as nossas fraquezas e ausências, dotou-nos também com outro caralho para o cu detrás. Meto o dedo (médio?) todo no cu, bato a punheta. E a ejaculação, forte porque há dias que estou sem deitar nada cá para fora, dá-me contracções no esfincter. Gozozíssimas. Venho-me imenso. Estou cada vez mais excitado. Cada passo na escada parece julgo que é o António que vem e me penetra e me obriga a chupar-lhe o delicioso caralho que não vi. Escândalo. Tribunal Militar. Vergonha. Filhos a saberem tudo. Loucura. Suicídio. Tomo meio Calmax. A pouco e pouco a corda vai-se aligeirando, estou melhor. Mas que vontade de ter pecado. De pecar. Como assim: de viver.

Descubro que o êxito e o fracasso são uma e a mesma cadeia e em tudo. O êxito para cima, o fracasso para baixo, e quando digo baixo digo baixo: sujidões, dívidas, vergonhas, podridão, loucura. Mas o que toma tudo igual é que ambas as cadeias se encontram, nada a fazer, meus caros, daqui a cem anos ninguém se lembra.

E a nossa lição-abjecção a quem aproveitará?

Já tanto faz.

Tanto nos faz.

Braga, 16 ou 17 de Outubro, 1961.

(1) o cinismo da personagem é bem evidente nesta palavra de simpatia, não acham?

(2) Uma miudinha esfarrapada e esperta, um-padre-Amaro-sósia-do-outro; uma capelita com escadaria Bom-Jesus em miniatura (lembro-me de subir lá acima e fazer um pacto; mas a escadaria é alta, ainda); uma bonita minhota de cetim preto, com olhos largos e calmos, belos olhos que nunca mais verei.
.
(3) Umas miúdas de 4, 5 anos, a quem peço tremoços e castanhas, e depois ficam muito excitadas, e começam a levantar as saias umas às outras, dizendo (quem diz, é uma desdentadinha, magrizela e encarvoada): «Mostra a zabelinha, mostra a zabelinha a este senhor!». Olha que putitas!

 
At 7 de janeiro de 2008 às 01:07, Blogger Bel said...

A quem quem não compreendeu as minhas palavras C.A.M e um anónimo aqui vai a explicação "Deixou obra para ser lida mas não deixou exemplo de vida."
Para começar estou longe de ser menina, li Luíz Pacheco no tempo da ditadura, conheço parte da sua obra lida à "sucapa" e sei apreciar o seu TALENTO mas quando digo que não deixou exemplo de vida refiro-me simplesmente à sua vida familiar ou seja viveu ao mesmo tempo com duas mulheres que por sinal eram irmãs, teve filhos das duas que foram separados uns dos outros e criados por outras pessoas ficando apenas com um que lhe conheceu todos os vícios que não foram poucos.Não estou aqui a julgar ninguém estou apenas a justificar as minhas palavras tanto mais que até gosto do escritor mas não sou do tipo de pessoa que depois de alguém morto digo que foi um santo só porque já morreu

Simplesmente Bel

 
At 7 de janeiro de 2008 às 19:48, Anonymous C.A.M. said...

Repito novamente o que escrevi ontem:
Cara Jovem, afirma a menina...«mas não deixou exemplo de vida.»
Peço desculpa, mas não sabe o que escreve.A sua experiência de vida e de valores é tão curta comparada com a do Pacheco, que mais uma vez lhe digo, não sabe o que escreve.Leia a obra do Pacheco e talvez no fim saiba ver que a vida do Pacheco foi um exemplo.
No seu mais recente comentário escreve:...«mas quando digo que não deixou exemplo de vida refiro-me simplesmente à sua vida familiar ou seja viveu ao mesmo tempo com duas mulheres que por sinal eram irmãs, teve filhos das duas que foram separados uns dos outros e criados por outras pessoas ficando apenas com um que lhe conheceu todos os vícios que não foram poucos.»...
Quem é a Jovem menina para julgar o modo de vida do Pacheco?
Como já disse outro poeta: ...«NINGUÉM!»
Não julgue o Pacheco pelo seu modo de vida que só a ele disse respeito .

 
At 7 de janeiro de 2008 às 19:55, Anonymous B.M. said...

Luiz Pacheco foi o único que não se dobrou às conveniências e ao politicamente correcto ao longo dos tempos
- NUNCA!

 
At 7 de janeiro de 2008 às 20:00, Anonymous B.B. said...

Pode-se gostar ou não gostar, de Pacheco; pode-se estimar ou odiar Pacheco - não se pode é ignorá-lo. Este sátiro de três ao vintém, libertino de extracção caseira; redutor da vulgaridade e da grosseria, alcoólico, intriguista maior, retirante de todos os sítios, lítera do sec. XIX, ressurrecto em truculência, saltimbanco, incongruente, inconsequente - fez da literatura um meio de vida e desta um universo próprio (...)

Aí está ['Textos Malditos'] a degradação de um certo viver quotidiano; a lucidez militante de uma criatura que recusa os prestígios fáceis; as tonterias de uma prosa singularmente ladina e asseada, quero dizer: viva e sem enxúndia; o traço de união entre a miséria e a gloria (...)

Luiz Pacheco é a antítese do caligrafismo, seja: bate-se contra a frase padreca de uma literatura se santões e de arcanjos de asa branca. A estória sem historinha, a dilaceração sem uma lágrima (...)

 
At 7 de janeiro de 2008 às 20:03, Anonymous P. said...

adeus ao LUIS PACHECO

breve, brevíssimo, porque tenho à espera
uma fumegante galinha do campo
de cabidela

quanto darias tu por ela
nos teus tempos áureos
de magras vacas
do papo-seco com simulacros de manteiga
lastro também magro
para uma garrafita de tinto, fiada,
no tasco que te ficava mais à mão

breve adeus, dizia,
porque há coisas místicas
metafísicas
que espero ainda vir
a saber de ti
em particular - e isso toma tempo -
como é essa coisa da ressureição:

já ressuscitaste? como? com que visual?
com que roupa?: com essas calças largueironas?
com qualquer pijama de flanela de colarinho engordurado?

e os óculos, Luis, regressas de óculos? com esses vidros de garrafa
escaqueirados, transido de frio e todo nu,
só com esses malditos óculos
que duvido te permitissem ver
as coxas e o púbis
das gaiatas que comias?

mas isso fica para daqui a umas horas
quando eu já tiver comido
a fumegante
galinha de campo de cabidela

e tu já tiveres reincarnado
e esperes que o homem do Jornal
te pague, adiantado,
as crónicas que vais escrever
do Céu
ou do Inferno

é isso que fica um pouco
para mais tarde

 
At 7 de janeiro de 2008 às 22:26, Blogger Bel said...

Resposta a CAM
Talvez eu não seja Ninguém, mas para JULGAR esta "NINGUÉM" o senhor usou bastantes vogais e consoantes mas de uma coisa eu a tenho a certeza, o senhor é por certo ALGUÉM e um ALGUÉM muito mal disposto. Experimente Alka-Seltzer
e vai ver que isso passa.

Simplesmente Bel

 
At 7 de janeiro de 2008 às 23:24, Anonymous Anónimo said...

Ó bel reduz-te à tua pobre insignificância não comentes mais pois cada vez que escreves provas que não sabes nada...

 
At 7 de janeiro de 2008 às 23:39, Anonymous Arrebenta said...

Pior Dia, do que o de Reis, e eu ainda muito pouco por cá, para que pudesse escrever uma linha sobre o grande autor das epopeias menores, mas essa foi também a derradeira surpresa do Pacheco, maldito sejas!...
"Espantação" nenhuma haveria em que eu expusesse aqui as nossas proximidades, e, por esse mesmo assim, vou já passá-las adiante, porque a realidade é que, no espaço de um ano, nós fomos barbaramente devastados, no topo da nossa Prosa e da nossa Poesia.
Falo de Pacheco, versus Cesariny, como também é evidente, e até porque a Cronologia se encarregou de os unir, para o Bem e para o Mal, no desgaste da Rota Final destes anos.
Cesariny dizia ter nascido num tempo em que não havia "para cima", para onde olhar, não havia Acima, havia tão-só uma plêidade de figuras menores, que ocupavam todos os recantos do cenário. Com Pacheco, bastava olhar para o lado: muitas vezes não interessava tanto o que ele escrevia, mas o modo como o fazia. Deve-se-lhe a suprema arte da Literatura, que é saber fluir a Língua, como uma oleada engrenagem de oralidade, sem os pesadelos e os grãos da areia a que a má prosa, generalizada, nos habituou, em toda a parte.
Pacheco era um navio ligeiro, sem lastro.
Ao contrário de Cesariny, Pacheco nunca teve receio do que eu escrevia, e esse é o meu epitáfio emocional, e passo já adiante: sem Pacheco e sem Cesariny ainda menos Acima existe para onde olhar: hoje, entre meias brumas e este insuportável Janeiro setentrional, só me recordei de que faltava o Mago Obscuro, o homem que escreve com versos de percussão, pancadas vermelhas e escuras, Herberto, e, então, também ficaremos sem ele, e ficaremos sem ninguém, e ficaremos apenas com um vasto nada.
Partilhei com o velho Pacheco aquela frase que está escrita não sei onde, do "profundo desgosto de (saber) ver escritas certas coisas só possíveis em Português", e divergimos abissalmente na perda de tempo do acto de se debruçar a lê-las. Eu nunca as li, mas ele fazia disso o seu passatempo e o seu campo de batalha, embora a sua crítica acabasse sempre por se reportar ao lugar ético da crítica moral do autor. Para Pacheco, devia haver, em cada escritor, uma figura exemplar, como o inesquecível "César", de Suetónio, mas ele sabia, tão bem quanto eu, que isso era a vaga expectativa da incorrigível ineficácia humana se poder reproduzir numa obra prima de comportamento.
Agora, Pacheco está sentado na cama, com o rádio, roufenho, a entoar cantilenas baixas, mobilário sonoro de um ambiente frugal. É Verão, e, se fosse Duras, eu seria o Vice-Cônsul, indecentemente trajado, da cabeça aos pés, em Colonial, e já separado, por um abismo de anos e costumes, do irremediável selvagem, que ali arfava perante mim, num triângulo extremado de luz. "Podes levar tudo o que quiseres", dizia, com as grossas lentes a arfarem -- a bomba do asmático -- por detrás das armações devastadas dos enfisemas, mas eu não queria nada, senão reconstruir um mundo comum, mas que já não suportava, e não tinha restituição possível à normalidade. "Sabes, as coisas mudaram muito, a vida agora está boa é para o outro, [o Saramago], que consegue viver daquilo, que não vale nada, mas, bem esticadinho, até parece ser qualquer coisa..."
Não era bem esticadinho: era já uma espantosa máquina de proliferação e ocupação, o lado pegajoso das coisas que invadem o seu espaço indevido: vinha ali, sem o sabermos, um futuro Nobel da Literatura, a maior espécie de ultraje que todos os escritores do romance lusitano alguma vez iriam presenciar, e sofrer, e sofreram.
Detestava o Saramago, e pelas duas razões enunciadas, aquela, referida, de escrever coisas que só a Língua Portuguesa ousaria suportar, e o lado negro, próprio, da sua faceta humana.
Desenganámo-nos depois, em tempos bem diversos, quando o Homem de Lanzarote lhe arranjou a pensão cultural, que o Estado há muito lhe devia, e eu, finalmente, há uma escassa meia hora, no final daquele documentário desigual, onde o Zé, nobelizado até à quinta casa, enunciava o justo epitáfio do Luiz, "o maior escritor daquela geração". Tiro-lhe, só por essa frase, e pela primeira vez na vida, José Saramago, o chapéu... que, por acaso, nem uso.
Não gosto -- eu, apologista do "noli me tangere" --, em Pacheco, daquela proximidade pastosa entre as divagações do corpo e as plasticidades escultóricas do enredo. Durante anos, tive os manuscritos dos "Diários" a segurarem as portas, para poderem assegurar correntes de ar de Verão, brisas altíssimas e escaldantes, trazidas de uma janela para a outra, com os besouros a zumbirem o Estio, nas relvas mais embaixo, cada folha minuciosamente rabiscada, caligrafia a corrigir caligrafia, de episódios fátuos, pedras armilares alternadas com banalidades da Aritmética e do senso-comum do burguês banal, quando eu precisava era daqueles voos excêntricos, do Cocteau, de "L'Aigle à deux têtes", um Oberwald de pleno Estio, e não romarias do nome de Irene, e do Paulo e do longo rosário daquela espécie de "Satiricon" do país pacato e possível. Eu precisava de abismos, e Pacheco girava em redor de uma nora do seu eu precocemente desgastado.
Como é que o homem que sabia o que era olhar para cima -- e traduzia-os, e trazia-os, cá, para dentro -- poderia perder tanto tempo com as banalidades que só uma Língua, como a Portuguesa, se permitia, a dos Sonâmbulos Chupistas, a dos futuros "Equadores", das trivialidades obsoletas e indigestas da Agustina, e do betão armado de Saramago, das missangas coloridas de Lobo Antunes, ou das fragilidades rugosas dos maus bordados da Lídia Jorge?..., mas a resposta era que talvez buscasse sempre, por detrás das insuficiências da criação, as fraquezas do criador, os seus pequenos desvarios de imperfeição, para atacar, e poder criar a sua inimitável prosa sulfúrica.
Em "As Minhas Cinco Chagas de Alamada Negreiros" -- agora, que vamos entrar na euforia necrófila, decerto virão, finalmente à luz do prelo... -- tritura Almada, se não me engano, pela impiedade para com a morte iminente daquele Ângelo de Lima (?), não me recordo do nome, que tinha o ânus ilíaco, numa atitude muito semelhante à do Princípe de Guermantes, no episódio da saída para o Baile (não me perturbes a festa, com a sombra de um luto...) como desmerecera Cesariny, a quem acusava de ter feito corte-e-costura com os fragmentos do malogrado António Maria Lisboa -- "aquilo é tudo falso, cozinhado só por ele!..." --, mas com quem tantas coisas tinha em comum, excepto aquela, essencial, que os dividia, na forma de mazela: Cesariny soubera ir aos Céus, e, como Pacheco, visitar os Infernos, mas sempre de pelica branca, e o segundo nem se levantara da cama, nem se dera ao cuidado de descalçar as pantufas, para percorrer os mesmos trajectos...
"Sabes, no outro dia fui ali, ao Jardim da Estrela, trouxe de lá um puto, já espigadote, queria uns trocos, começou a mamar-me na boca, aqui, nesta mesma cama, e eu, às tantas, páro, e olho para ele, e digo-lhe assim: "olha lá, tu já reparaste no estado em que eu estou, velho, mal-cheiroso e desdentado" -- e estava... -- "e estás aqui a beijar-me como se eu fosse uma princesa; isso não te faz impressão nenhuma?..."
A mim fazia, mas nós estávamos sempre separados por infinitas barreiras de vidro blindado, para lá de toda a afabilidade e cumplicidade que traçava o nosso encontro de dois demónios: era mais uma hipóstase da Grécia do Feio, a bruxa esquálida que fendia os ares, a manifestar-se ali em pleno, como já Pascoaes outrora o previra.
E eu perguntava-lhe, "e, então, o que é que tu achas que vai sair de importante deste tempo?..."
e ele,
"nada, ou estavas à espera de alguma coisa de especial?..."
Não estava, e lá voltávamos à voz roufenha das "cassettes", a voz etilizada e desigual, que narrava com as cordas vocais, nos dias em que a mão se tornava demasiado trémula, e passou-me agora um daqueles estranhos pensamentos pela mente, como com certas gravações da Callas, em que lastimamos que, só já extintas as grandes vozes, se tivessem tornado possíveis os grandes meios de as fixar.
Num tempo coordenado, Pacheco poderia ter sido o mais extraordinário cronista da Blogosfera, mas nós temos de assumir o tremendo desconforto destes desfasamentos, e aqui vai um brusco ponto final parágrafo.
A "cassette" dos "Diários", que prefiro -- duvido que a reproduzam, naquela filtragem correctiva, e normalização, do Incorrigível -- era o episódio da Natália (Correia), com o outro a ir preso, já não sei por quê, mas decerto por aqueles infindáveis apetites hebófilos -- neste caso, de fêmea -- e a encomendar as almas e o corpo da favorita à Poetisa, para que lhe blindasse os acessos, durante a peregrinagem pela prisão. "Então tu sabes o que é que ela fez?... mal eu lhe entreguei a rapariga, disse que tinha de ir à casa-de-banho, e veio de lá toda nua, aquela vaca, e pôs-se logo a esfregar a cona contra o espelho do guarda-vestidos, à descarada, mesmo a querer dizer à outra que, mal eu virasse as costas, já lhe estaria a apetecer fufice!..."
Pois é, Pacheco, caro amigo Luiz, que pena nós não termos podido mudar o Mundo, mas é demasiado tarde, e, hoje, 6 de Janeiro de 2008, definitivamente mais na horizontal do que sempre te conheci, tu já estás morto, e ainda estou, como se o estivesse também, por aqui, litoral da Língua, naquela estranha forma de morte que é ter podido ficar ainda mais sózinho.

 
At 7 de janeiro de 2008 às 23:40, Anonymous Anónimo said...

"[...] Não fodo ( e teria fodido bem? pelo menos, não tanto como ela desejaria, mas também arrebentava comigo em oito dias, tal como com o Júlio Caldeireiro, sem saber nada ou prever o que depois nos aconteceu, logo me declarara: "um tipo da minha idade e uma fulana daquelas com 30 anos e cheia de tesão, foda-se!... -- fazendo várias tomas -- dava cabo de mim"...), não fodo desde a Maria Franco, a Mocha, e a última vez parece-me que foi na noite de 30 para 31 de Dezembro de 1972, vai ano e meio passado. Com rapazes, aquela merda (um broche inacabado com o gordo de Massamá e uma ou duas noites com o Luisinho de Tercena, em que também, que me lembre, foi tudo triste e fracassado). Depois da última, resolvi parar com as punhetas. Ou o órgão desiste e está tudo certo; ou insiste e tenho de procurar bicho. Reservar verba no meu orçamento".

Luiz Pacheco, "Diário Remendado", pg. 111, Dom Quixote, Lisboa, 2005

 
At 9 de janeiro de 2008 às 00:04, Anonymous J.P.G. said...

As sociedades organizadas e certinhas gostam muito dos seus malditos. Sobretudo quando os malditos morrem e deixam de incomodar.

E agora, que morreu o Luiz Pacheco, até parece que morreu um ente querido, apesar de maldito, da sociedade organizada, certinha, acomodada e literata à portuguesa. Quem tenha lido ou ouvido os elogios fúnebres jamais pensaria que Luiz Pacheco passou fome, viveu de pedir “vintes”aos amigos, editou folhetos e vendeu alguns livros, que lhe davam, para ganhar para a bucha.

Quem lesse os panegíricos com que esta sociedade organizada, certinha e hipócrita se despediu de Luiz Pacheco jamais pensaria que o maldito foi perseguido, banido, escorraçado, censurado, antes e depois do 25 de Abril. Sim senhor, censurado também depois do 25 de Abril. E ainda ontem uma instituição que censurou o Luiz Pacheco se juntou ao coro das carpideiras, chorando lágrimas de crocodilo pelo “espírito livre, independente” e “blá-blá-blá” do maldito falecido. Recentemente, alguns fizeram a mesma figura triste e farisaica em relação ao Adriano Correia de Oliveira, outro maldito, igualmente banido e censurado.

O mais odioso desta hipocrisia a título póstumo é que os tributos aos malditos mortos só se prestam porque os malditos já não podem dizer que não querem, que não vão, que não alinham, que desconfiam das homenagens, que não reconhecem depois de mortos os que jamais os reconheceram em vivos.

Não quero com isto diminuir o alcance de quanto de muito justo e absolutamente sincero se escreveu e disse sobre Luiz Pacheco, homem livre, que exerceu a liberdade vivendo e escrevendo.

 
At 11 de janeiro de 2008 às 21:10, Anonymous Anónimo said...

Morreu Luiz Pacheco, aos 82 anos. Era um escritor que nem sempre conseguia ser bom, mas que quando era bom, era mesmo muito bom – melhor do que a maior parte dos literatos seus contemporâneos, mortos e vivos. O Libertino passeia por Braga ou O Teodolito justificam todos os elogios. Fátima ou o amor louco, com apenas seis páginas na última edição de Exercícios de Estilo, é talvez a mais directa e melancólica história de amor escrita por cá no último século.

Pacheco é datável, o que não o torna menos interessante para uma história intelectual do Portugal recente. O travo da colheita literária de 1945 nota-se facilmente: por exemplo, no culto do “amor” e da “sinceridade”. Pacheco era o sobrevivente de um grande drama: o dos jovens intelectuais (Cesariny, O’ Neill e outros) que, no pós-guerra, perante o nacionalismo salazarista e o neo-realismo comunista, resolveram desalinhar (o “surrealismo” foi uma das modalidades desse desalinhamento). Em Portugal, porém, o mundo custou a mudar, e eles passaram os trinta anos seguintes a ser moídos entre a ditadura política do Estado Novo e a ditadura cultural do PCP (muito bem explicada por Eduardo Lourenço, da mesma geração). Com o diário de Virgílio Ferreira ou a correspondência de Jorge de Sena, as inconfidências de Pacheco, em diários, cartas, crónicas e ficções, fazem falar, de uma maneira violenta, essas longas vésperas da liberdade.

Numa literatura colonizada por “antifascistas” e académicos, uns e outros muito cheios com a sua própria respeitabilidade, Pacheco recorreu a outro estilo: o de Bocage, o do “desgraçado” que revelava, sobre si próprio e em público, coisas que os literatos portugueses geralmente só dizem dos outros e em segredo: faltas de dinheiro, alcoolismo, homossexualidade, prisões por delito comum. Arranjou até o “ismo” necessário para arrumar tudo isso: “neo-abjeccionismo”. Nesta lenda do “escritor maldito”, cuja desinibição saciou algum voyeurismo, havia talvez um toque defensivo. O “maldito”, por definição, não concorria a prémios nem destaques: por outras palavras, não fazia sombra a ninguém. Sem quase nada a perder, também pouco lhe podiam tirar. Só assim pôde Pacheco conduzir a “guerrilha” que o tornou célebre.

Para entender esta guerrilha e esta celebridade, convém lembrar que o grande segredo da cultura literária portuguesa era que, em privado, pouca gente do chamado “meio” levava a sério os “grandes autores” do momento. Em público, porém, todos, especialmente os que tinham ambições, faziam as esperadas genuflexões. Pacheco, não. Imprimiu a “má língua”, lembrou o prazo de validade de certas glórias oficiais. Reivindicou, contra a manipulação política da literatura, um “mercado livre das Letras”. Através dele, muitos viveram atrevimentos que não ousavam. Deu, de algum modo, voz irreverente a um silêncio reverente.

Pacheco veio da classe média com criadas, cultura e acesso aos empregos do Estado. Preferiu viver como “libertino”, versão clochard. Havia lugar para isso na sociedade portuguesa. Notáveis da província, como o Dr. Maldonado de Freitas, das Caldas da Rainha; milionários do Estado Novo, como Manoel Vinhas; políticos da democracia, como o Dr. Soares, pagaram-lhe quartos e medicamentos, deram-lhe dinheiro. Uns achavam-lhe “graça”. A outros, a educação literária terá feito sentir obrigações. Ele aproximava-se (como no seu tardio acompanhamento do PCP, de cujas capelinhas literárias dissera o pior), mas ressalvando a ambiguidade necessária à sua reputação. Era um jogo cujas regras ele próprio descreveu.

Há dois séculos que a literatura portuguesa anda a tentar inventar imagens fiéis da “nossa terra”. Quando se fizer o balanço dessa velha mania, ver-se-á que alguns dos esforços mais memoráveis são de Luiz Pacheco. Por exemplo, a narrativa Porto-Lisboa a pedir esmola. Eis o resumo (na versão de Exercícios de Estilo, a melhor): no Porto, decidido a ir de comboio para Lisboa, o narrador só tem dinheiro para o bilhete até Soure. Tenta, com uma mentira, comover o chefe da estação de S. Bento: espera-o em Lisboa uma pessoa de família doente. O chefe de estação percebe a vigarice, mas decide empurrar para a frente: que compre bilhete para Soure, e em lá chegando fale com o chefe do comboio. Em Soure, o chefe do comboio barafusta imenso, mas (e é o que importa) não o põe fora, passando a chatice ao revisor. Este, sem vontade de levantar o devido “auto”, tem uma ideia para “legalizar” o viajante: e se ele pedisse esmola aos outros passageiros? O próprio revisor chama a atenção da carruagem (de terceira classe, apinhada de gente, cestos e garrafões), e exibe o desgraçado: sem bilhete, em chegando a Santa Apolónia, irá preso (mentira). Todos se condoem: coitadinho. As moedas aparecem, o bilhete e a multa são pagos. Pela cabeça do narrador passa a ideia de recorrer novamente ao truque da próxima vez que viajar.

Aldrabice, aversão às responsabilidades, sentimentalismo: é um Portugal imaginado, mas a quem é que apetece dizer que não era (é) assim?

Rui Ramos

 
At 14 de janeiro de 2008 às 21:36, Anonymous José Carlos Faria said...

«Não tenho safa, parece. Saio do camarim assobiando (...) para o maior número do espectáculo, a minha rábula, prometido no cartaz e já previsto há muito (...). Depois o salto mortal lá mais pró fim, no trapézio sem rede sem esperança sem avé-marias sem nada. Olho para baixo, sinto o medo dos tipos da plateia, uns cagões mortos de medo que devia ser o meu e eu tenho, rapazes! e eu escondo, cavalheiros! detrás da minha fatiota larga, sarapintada, cetim fulgurante a sete e quinhentos o metro, fato de palhaço barato para melhor e mais os intrujar, ofender, insolências de polichinelo feitas a rir para gente que dá vontade de rir - e quem neste suave país não há-de querer rir, mesmo com o rabo cagado de medo? (...)
- e é tão fácil a um morto rir! e é tão fácil rir de um morto!... (...) Os tambores vão atacar num rufo calculado cúmplice da minha morte (...). Olho o País da Gargalhada e rio convosco. Choro, talvez, oh que vergonha! Oiço o tambor. É agora!
(Luiz Pacheco in «Os Namorados», Editorial Estampa)

O Pacheco, animal «crocodilupa», é um daqueles em quem nós coincidimos e reincidimos: Gostamos. Gostamos muito, pronto! Gostamos à brava! E é assim desde há muito tempo...
Amigos de «cemzes», fomos subscrevendo livros e panfletos mais ou menos à medida que foram saindo. Para o resto, correu-se alfarrabistas e comprou-se o que se foi podendo, prosa revista e acrescentada de notas manuscritas (do Autor, está bem?), enquanto se ia regateando com unhas e dentes a chico-esperteza de olhinho guloso em mais-valias oportunistas. É que o Pacheco, à pala do escritor maldito que nunca quis ser, e sem que, para a amostra, tivesse ganho um cêntimo com isso, agora «vende-se bem», sabiam?
Ou seja, gostamos tanto que decidimos, vai aí para uns dois anos, montar um espectáculo com textos seus. Mais do que o pícaro que ele também foi, interessa-nos aquela escrita de circunstância, duma crítica implacável, plena de humor truculento, ácidos e comestíveis exercícios de estilo, do melhor que a Literatura Portuguesa pariu; (não se deve dizer isto desta maneira, porque a esta hora já estará a brindar-nos com manguitos, t'arrenego, queixando-se ao mano Cesariny que está «lixado com estes gajos» e a pôr em causa a virtude das nossas mãezinhas, que, coitadas, não têm culpa nenhuma!)
Cá por coisas, vai-se chamar «Contraponto», o tal espectáculo. E há-de falar de sonhos, alcançados ou negados, de amores, uns vividos, outros frustrados, de amizades traídas, outras não, do périplo por prisões e hospitais, de copos bebidos em muita tasca, do caso das criancinhas desaparecidas, nas cartas rabiscadas a tantos do tal de «Caldas-sur-merdre», aos intervalos de ser escrivão espontâneo de petições e requerimentos dos analfabetos indefesos, andanças do verdadeiro libertino, aquele, que segundo os dicionários, ousa ser «livre-pensador e amante da Liberdade».
De tudo isto lhe fomos dando conta, a inventar contravoltas elásticas para as escassas moedinhas, muito orçamentais, culturais e ministeriais, pois então... Curiosidade satisfeita a tremeluzir nas dioptrias concêntricas, passou-nos sentença sardónica:
- Ó pá, já só vejo isso lá de cima!
Foi mesmo. O Pacheco que passou a vida a fazer figas à Morte, desta vez piscou-lhe o olho. Deixou-se ir no seu último engate. A desgraçada nem sabe com quem se meteu!...

 

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