LUIZ PACHECO - MORREU O MAIOR ESCRITOR PORTUGUÊS DO SÉCULO XX
LUIZ José Machado Gomes Guerreiro PACHECO
Lembras-te Fátima? era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim? se nem tu já te lembras de mim agora, tu, a quem tanto amei, não te lembras, e foi há tão pouco, foi ontem, parece, que te levantaste e disseste: «Ficamos amigos como dantes»... E dizias: como dantes e era já noutro que pensavas, olhavas-me e nos teus olhos ria-se a traição, o prazer da liberdade, um desafio alegre, uma alegria provocante e desapiedada, ias a meu lado pela última vez e eu era já um estranho para ti, um fantasma a quem se concede, por caridade, uns momentos mais de companhia, algumas palavras vagas distraídas, um pouco de estima, talvez. Reparei: o teu corpo, oh corpo do meu prazer! oh carne virgem sangrando debaixo de mim! oh meu repouso e minha febre! o teu corpo outrora tão cativo e tão submisso, ficara de repente cerimonioso e esquivo, cauteloso, afastado, com um pudor forçado no puxares a saia sobre os joelhos, como se tivesse uma grande vergonha do despudor com que se dera antes...
Dizias: como dantes e não era já nisso que pensavas, e não era já para mim que falavas, eu era uma coisa para esquecer, para deitar fora, uma coisa que se abandona caída no chão e se perde sem pena. Dizias: «adeus» e saías da minha vida com um aperto de mão desembaraçado, quase cordial um gesto de boa camarada, como se nada tivesse havido antes, como se não tivéssemos sido tantas vezes na cama, um dentro do outro, um no outro, um-outro diferente, uma coisa sublime: Deus Criador, como os míseros humanos só ali o podem sentir e saber; um Outro que éramos nós ainda, mas tão transtornados, tão virados para fora de nós, tão esquecidos do mundo e de nós, tão eficazes, tão leais, nós boca com boca, corpo a corpo, um sexo torturando um sexo, mordendo-se devorando-se, numa febre de chegar ao fim depressa, ao esquecimento, ao repouso. Disseste: adeus e eu odiei-te logo nesse minuto, como te odeio agora, não por ti ou pelo teu corpo que já me esqueceu noutros que vieram depois, mas porque morri ali naquela palavra, -morri entendes? -, perdi-me numa grande confusão, esqueci-me de ser eu, fiquei roubado do meu passado.
Hoje, encontrarias um outro homem; havia de rir-me do teu corpo, da sua entrega ou das suas traições, de tu me dizeres: «Vem» ou «Adeus...», ou «Não quero...». Hoje, saberias quem fizeste com uma só palavra, conhecerias um outro homem, que é obra tua, minha segunda mãe! Hoje, havia de rir ou chorar, era a máscara do momento; mas diria: tanto faz..., tanto me faz... Sabia-o!
Coro de escárnio e lamentação dos cornudos em volta de S.Pedro
Coplas dedicadas às fogosas e vampirescas mulheres da
Beira,de quem já Abel Botelho disse o que disse.
Monólogo do primeiro cornudo:
Acordei um triste dia
Com uns cornos bem bonitos
E perguntei à Maria
Porque me pôs os palitos
Jurou por alma da mãe
(Com mil tretas de mulher)
Que era mentira
Tambem,ainda me custava a crer
Fiquei de olho espevitado
Que calado é o melhor
E para não re-ser enganado
Redobrei gozos de amor
Tais canseiras dei ao físico
Tal ardor pus nos abraços
Que caí morto de tísico
Com o sexo em pedaços
Já esperava por isto a magana?
Já previra o que se deu?
Do Além via-a na cama
Com um tipo pior que eu
Vi-o dar ao rabo a valer
Fornicando a preceito
Sabia daquele mistério
Que puxa muito do peito
Foi a hora de me eu rir
Que a vingança tem seus quês
O mais certo é para aqui vir
Ainda antes que passe um mês
Arranjei um bom lugar
Na pensão de Mestre Pedro
Onde todos vão parar
Embora com muito medo
Não passava de uma semana
O meu dito estava escrito
Vítima daquela magana
Pobre tísico,tadito
Dueto dos dois cornudos:
Agora já somos dois
A espreitar de cá de cima
Calados como dois bois
Vendo o que passa na vida
Meteu na cama mais gente
Um,dois,três logo a seguir
Não há piça que a contente
É tudo o que tiver de vir
São Pedro,indignado,pragueja:
É demais,arre diabo-berra S.Pedro,sandeu-
E mortos por dar ao rabo,lá vêm eles p'ró ceu...
Coro,pianíssimo,lirismo nas vozes:
Quem morre como um anjinho...
Quem morre por muito amar...
Coro,agora narrativo ou explicativo:
Já formamos um ranchinho,de cá de cima a espreitar
Aparte do autor das coplas:-coitadinhos
Passam meses,passa tempo e a bela não se consola
Já somos um regimento como esses que vão para a Angola
Fazemos apostas lindas sempre que vem cara nova
Cálculos,medidas infindas,como ela terá a cova!
Há quem diga que por si já não lhe tocou o fundo
Outros juram que era assim do tamanho deste mundo
Parecia uma piscina!-diz um do lado,espantado-
Nunca vi uma menina num estado tão desgraçado
(Aparte do autor,antigo militante das esquerdas baixas)
Num estado tão desgraçado,parece-me ouvir o povo
Chorando seu triste fado nas garras do Estado Novo
O ultimo que cegou cá morreu que nem um patego
Afogado e era mar nos abismos daquele pêgo
O coro dos cornudos acompanhado por S.Pedro em
surdina,entoa a moralidade,após ter limpado as últimas
lagrimetas e suspirado como só os cornudos sabem:ahh!
Mulher não queiras sabida
Nem com vício desusado
Que podes perder a vida
Na estafa de dar ao rabo
Escolhe donzela discreta
Com os três no seu lugar
Examina-lhe bem a greta
Não te vá ela enganar
E depois de lhe veres o bicho
E as mamadeiras que tem
A funcionar a capricho
Já sabes se te convem
Mulher calma,é estima-la
Como a santa no altar
Cabra doida,é rifa-la
Que não venhas cá parar
Este conselho te dão
E não te levam dinheiro
Os cornudos que aqui estão
Com São Pedro hospitaleiro
Invejosos,quase todos
Dos cornos que o mundo guarda
Fazem mais um bocado de lamentação
(Nota do autor-quase,porque,entretanto alguns brincavam uns com os
outros.Rabolices...
Mas se fornicas a rodos tua vida aqui não tarda
Recomeça a moralidade,estilo 'estão verdes,não prestam'
Alguns bêbedos,cornudos despeitados ou
amargurados,vozes pastosas (deve ler-se vinho...velhinho)
Melhor que a mulher é o vinho
Que faz esquecer a mulher
Que faz do amor já velhinho
Ressurgir de novo o prazer
Finale muito católico
Assim termina o lamento
Pois recordar é sofrer
A mãe fode
É bom sustento
E por nós reza o pater
Luiz Pacheco,num dia em que se achou mais pachorrento.
BIBLIOGRAFIA
1946
in Bloco (vários autores)
Reeditado em Crítica de circunstância e em 2002 com o nome Os doutores, a salvação e o menino Jesus;
Caca, cuspo & Ramela
1958?9
Colecção "A antologia em 1958"
Triunvirato de Luiz Pacheco, Natália Correia e Manuel de Lima:
Carta-Sincera a José Gomes Ferreira
1959
Colecção "A antologia em 1958"
Lisboa;
Convivência e polémica (panfleto)
1959;
Crueldade testicular (panfleto)
1960
Contraponto;
O Teodolito
1962
Contraponto
Edição policopiada.
5ª Edição integral pela Ed. Rolim, Lisboa (1985).
6ª Edição levemente corrigida pelo autor (1990), Estuário, Lontra europeia, 2 (Setúbal) - com prefácio de António Mega Ferreira e ilustrações de Luís Filipe Cunha;
Surrealismo/ Abjeccionismo
1963
Editorial Minotauro
Antologia org: Mário Cesariny, inclui versão abreviada d'O Teodolito;
Comunidade
1964
Contraponto
Há pelo menos 11 reedições: 1969, 1980 (6ª ed. com desenhos de Teresa Dias Coellho, pela Contexto - Cábulas de navegação, 2 - Lisboa), 1985 (Forja - Textos Forja, Lisboa) e 1999 (11ª ed. com extra-textos de Isabel Lobinho e revisão de Aníbal Telo, pela Sabatina, Lisboa);
Comunicado ou intervenção da província (panfleto)
1966;
O cachecol do artista (panfleto)
1965
Contraponto
Santarém;
Coro de escárnio e lamentação dos cornudos em volta de S.Pedro (poema)
1966 (1965?)
Afrodite
in "Antologia da poesia erótica e satírica", org. Natália Correia;
Maravilhas & maravalhas caldenses (panfleto)
1966;
Crítica de Circunstância
1966
Ulisseia;
Textos Locais
1967(1968?)
Contraponto
Alcobaça:
Exéquias de Manuel Lima, o careca: manifesto
1967
Texto policopiado:
O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor
1970
Contraponto
Com gralha na capa corrigida pelo autor. (à esquerda)
Duas reedição: uma ordinária e outra em papel couchet, com fac-simile manuscrito - Edições Colibri, Lisboa (1992) e textos acompanhantes de Vitor Silva Tavares (direita).
Reedição Fundação cultural Bracara Augusta, Braga: cidade bimilenar (2000);
Exercícios de estilo
1971 (2ºed. 1973, 3ªed. 1998 - revista e aumentada - colecção Ficções, 30)
Editorial Estampa
Novas direcções, 6
Lisboa;
Literatura comestível
1972
Editorial Estampa
Novas direcções, 7
Lisboa;
Pacheco versus Cesariny - folhetim de feição epistolográfica
1974 (1973?)
Editorial Estampa
Novas direcções, 23
Lisboa
Capa e ilustrações de Martim Avilez;
A PIDE nunca existiu (panfleto)
1976;
Textos de Circunstância
1977
Fronteira
Direito à cultura, 5
Amadora;
Carta a Gonelha
1977
Contraponto;
Textos Malditos
1977
Fernando Ribeiro de Mello/ Edições Afrodite
Autores, 1
Lisboa;
Textos de Guerrilha 1
1979
Ler Editora
Lisboa
Prefácio de José João Louro. Ilustrações de Vasco;
Torga: a minha homenagem (panfleto)
Contraponto
1979?
Ed. revista de "Os nossos escribas no pós-25 de Abril: Miguel Torga o caso veterano" página Um, Lisboa n.249, 1978;
O caso do sonâmbulo chupista (panfleto)
1980
Contraponto
Lisboa;
O Caso das Criancinhas Desaparecidas
1981
Círculo dos Leitores
Lisboa
Reedição pela Ed. Rolim, Lisboa (1986);
Textos de Guerrilha 2
1981
Ler Editora
Poema prefacial de José Correia Tavares. Carta posfácio de Paulo Eduardo Pacheco;
Textos do Barro
1985 (1984?)
Contraponto
Lisboa
Ilustrações de Maria Henriques
Nota:desta edição fizeram-se 500 exemplares assinados e numerados pelo autor;
O Teodolito e a velha casa
1985
Rolim
A hora do lobo, 6
Lisboa
Nota:Reedição integral conforme a de 1962;
Textos Sadinos
1991
Plurijornal
Colecção Arca do verbo, 2
Setúbal
Prefácio de Baptista-Bastos e epitáfio de Ângela Caires. Com Ilustrações de Rui Mesquita;
Carta a Fátima
1992
Plurijornal
Setúbal
500 exemplares;
O uivo do coiote
1992
Contraponto
Palmela
Livro de entrevistas. Reedição em 1996 (Palmela) com prefácio de Acácio Barradas;
Memorando, Mirabolando
1995
Contraponto
Setúbal;
Coro dos cornudos
1996-8?
Contraponto
Palmela?
Reeditado em 2000;
Cartas na mesa: 1966-1996
1996
Editorial Escritor
Lisboa
Apresentação e notas de Serafim Ferreira. (2ª ed. 1996);
Prazo de validade
1998
Contraponto
Palmela
Crónicas do Público. Ilustrações de Manuel João Ramos;
Isto de estar vivo
2000
Contraponto (500 exemplares)
Selecção de crónicas do Diário Económico entre Abril 1995 e Dezembro 1996
Ilustração de Alice Geirinhas;
Uma admirável droga
2001
Quarteto editora
Acasos, 5
Coimbra;
Mano forte
2002
Editorial Alexandria
Lisboa
Correspondência com António José Forte entre 1961 e 1966.
1000 exemplares numerados. Transcrição e apresentação de Bernardo de Sá Nogueira. Existem mais duas edições, uma numerada de 1 a 100 e assinadas pelo autor e outra, de 30 exemplares numerados, com estojo e encadernação em tela;
Os doutores, a salvação e o menino Jesus - Conto de Natal
2002
Oficina do livro
Lisboa
Ilustração de Henrique Manuel;
Raio de Luar
2003
Oficina do livro
Lisboa
Prefácio de Rui Zink. Textos sobre vários temas, escritores, etc;
Os melhores contos e novelas portuguesas, Vol 3
2003
Selecções do Readers Digest
Lisboa
Organizado por Vasco Graça Moura, inclui a Comunidade;
Figuras, figurantes e figurões
2004
O Independente
Colecção Inéditos da Imprensa
Lisboa
Prefácio e edição de João Pedro George, que inclui, maioritariamente, crónicas provindas da revista angolana Notícia e do jornal Diário Económico e mais 6 textos;
Diário remendado 1971-1975
2005
D. Quixote
Lisboa;
Cartas ao léu: 24 cartas a João Carlos Raposo Nunes
2005
Quasi
Biblioteca Primeiras Pessoas
Vila Nova de Famalicão
Organização e notas de António Cândido Franco.
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