sábado, 5 de janeiro de 2008

LUIZ PACHECO - MORREU O MAIOR ESCRITOR PORTUGUÊS DO SÉCULO XX



LUIZ
José Machado Gomes Guerreiro PACHECO


nasceu a 7 de Maio de 1925
faleceu a 5 de Janeiro de 2008



CARTA A FÁTIMA

Lembras-te Fátima? era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim? se nem tu já te lembras de mim agora, tu, a quem tanto amei, não te lembras, e foi há tão pouco, foi ontem, parece, que te levantaste e disseste: «Ficamos amigos como dantes»... E dizias: como dantes e era já noutro que pensavas, olhavas-me e nos teus olhos ria-se a traição, o prazer da liberdade, um desafio alegre, uma alegria provocante e desapiedada, ias a meu lado pela última vez e eu era já um estranho para ti, um fantasma a quem se concede, por caridade, uns momentos mais de companhia, algumas palavras vagas distraídas, um pouco de estima, talvez. Reparei: o teu corpo, oh corpo do meu prazer! oh carne virgem sangrando debaixo de mim! oh meu repouso e minha febre! o teu corpo outrora tão cativo e tão submisso, ficara de repente cerimonioso e esquivo, cauteloso, afastado, com um pudor forçado no puxares a saia sobre os joelhos, como se tivesse uma grande vergonha do despudor com que se dera antes...


Dizias: como dantes e não era já nisso que pensavas, e não era já para mim que falavas, eu era uma coisa para esquecer, para deitar fora, uma coisa que se abandona caída no chão e se perde sem pena. Dizias: «adeus» e saías da minha vida com um aperto de mão desembaraçado, quase cordial um gesto de boa camarada, como se nada tivesse havido antes, como se não tivéssemos sido tantas vezes na cama, um dentro do outro, um no outro, um-outro diferente, uma coisa sublime: Deus Criador, como os míseros humanos só ali o podem sentir e saber; um Outro que éramos nós ainda, mas tão transtornados, tão virados
para fora de nós, tão esquecidos do mundo e de nós, tão eficazes, tão leais, nós boca com boca, corpo a corpo, um sexo torturando um sexo, mordendo-se devorando-se, numa febre de chegar ao fim depressa, ao esquecimento, ao repouso. Disseste: adeus e eu odiei-te logo nesse minuto, como te odeio agora, não por ti ou pelo teu corpo que já me esqueceu noutros que vieram depois, mas porque morri ali naquela palavra, -morri entendes? -, perdi-me numa grande confusão, esqueci-me de ser eu, fiquei roubado do meu passado.


Hoje, encontrarias um outro homem; havia de rir-me do teu corpo, da sua entrega ou das suas traições, de tu me dizeres: «Vem» ou «Adeus...», ou «Não quero...». Hoje, saberias quem fizeste com uma só palavra, conhecerias um outro homem, que é obra tua, minha segunda mãe! Hoje, havia de rir ou chorar, era a máscara do momento; mas diria: tanto faz..., tanto me faz... Sabia-o!

Luiz Pacheco


Coro de escárnio e lamentação dos cornudos em volta de S.Pedro

Coplas dedicadas às fogosas e vampirescas mulheres da
Beira,de quem já Abel Botelho disse o que disse.

Monólogo do primeiro cornudo:

Acordei um triste dia

Com uns cornos bem bonitos

E perguntei à Maria

Porque me pôs os palitos

Jurou por alma da mãe

(Com mil tretas de mulher)

Que era mentira

Tambem,ainda me custava a crer

Fiquei de olho espevitado

Que calado é o melhor

E para não re-ser enganado

Redobrei gozos de amor

Tais canseiras dei ao físico

Tal ardor pus nos abraços

Que caí morto de tísico

Com o sexo em pedaços

Já esperava por isto a magana?

Já previra o que se deu?

Do Além via-a na cama

Com um tipo pior que eu

Vi-o dar ao rabo a valer

Fornicando a preceito

Sabia daquele mistério

Que puxa muito do peito

Foi a hora de me eu rir

Que a vingança tem seus quês

O mais certo é para aqui vir

Ainda antes que passe um mês

Arranjei um bom lugar

Na pensão de Mestre Pedro

Onde todos vão parar

Embora com muito medo

Não passava de uma semana

O meu dito estava escrito

Vítima daquela magana

Pobre tísico,tadito

Dueto dos dois cornudos:

Agora já somos dois

A espreitar de cá de cima

Calados como dois bois

Vendo o que passa na vida

Meteu na cama mais gente

Um,dois,três logo a seguir

Não há piça que a contente

É tudo o que tiver de vir

São Pedro,indignado,pragueja:

É demais,arre diabo-berra S.Pedro,sandeu-

E mortos por dar ao rabo,lá vêm eles p'ró ceu...

Coro,pianíssimo,lirismo nas vozes:

Quem morre como um anjinho...

Quem morre por muito amar...

Coro,agora narrativo ou explicativo:

Já formamos um ranchinho,de cá de cima a espreitar

Aparte do autor das coplas:-coitadinhos

Passam meses,passa tempo e a bela não se consola

Já somos um regimento como esses que vão para a Angola

Fazemos apostas lindas sempre que vem cara nova

Cálculos,medidas infindas,como ela terá a cova!

Há quem diga que por si já não lhe tocou o fundo

Outros juram que era assim do tamanho deste mundo

Parecia uma piscina!-diz um do lado,espantado-

Nunca vi uma menina num estado tão desgraçado

(Aparte do autor,antigo militante das esquerdas baixas)

Num estado tão desgraçado,parece-me ouvir o povo

Chorando seu triste fado nas garras do Estado Novo

O ultimo que cegou cá morreu que nem um patego

Afogado e era mar nos abismos daquele pêgo

O coro dos cornudos acompanhado por S.Pedro em

surdina,entoa a moralidade,após ter limpado as últimas

lagrimetas e suspirado como só os cornudos sabem:ahh!

Mulher não queiras sabida

Nem com vício desusado

Que podes perder a vida

Na estafa de dar ao rabo

Escolhe donzela discreta

Com os três no seu lugar

Examina-lhe bem a greta

Não te vá ela enganar

E depois de lhe veres o bicho

E as mamadeiras que tem

A funcionar a capricho

Já sabes se te convem

Mulher calma,é estima-la

Como a santa no altar

Cabra doida,é rifa-la

Que não venhas cá parar

Este conselho te dão

E não te levam dinheiro

Os cornudos que aqui estão

Com São Pedro hospitaleiro

Invejosos,quase todos

Dos cornos que o mundo guarda

Fazem mais um bocado de lamentação

(Nota do autor-quase,porque,entretanto alguns brincavam uns com os

outros.Rabolices...

Mas se fornicas a rodos tua vida aqui não tarda

Recomeça a moralidade,estilo 'estão verdes,não prestam'

Alguns bêbedos,cornudos despeitados ou

amargurados,vozes pastosas (deve ler-se vinho...velhinho)

Melhor que a mulher é o vinho

Que faz esquecer a mulher

Que faz do amor já velhinho

Ressurgir de novo o prazer

Finale muito católico

Assim termina o lamento

Pois recordar é sofrer

A mãe fode

É bom sustento

E por nós reza o pater

Luiz Pacheco,num dia em que se achou mais pachorrento.


BIBLIOGRAFIA

História antiga e conhecida
1946
in Bloco (vários autores)
Reeditado em Crítica de circunstância e em 2002 com o nome Os doutores, a salvação e o menino Jesus;

Caca, cuspo & Ramela
1958?9
Colecção "A antologia em 1958"
Triunvirato de Luiz Pacheco, Natália Correia e Manuel de Lima:

Carta-Sincera a José Gomes Ferreira
1959
Colecção "A antologia em 1958"
Lisboa;

Convivência e polémica (panfleto)
1959;

Crueldade testicular (panfleto)
1960
Contraponto;

O Teodolito
1962
Contraponto
Edição policopiada.
5ª Edição integral pela Ed. Rolim, Lisboa (1985).
6ª Edição levemente corrigida pelo autor (1990), Estuário, Lontra europeia, 2 (Setúbal) - com prefácio de António Mega Ferreira e ilustrações de Luís Filipe Cunha;

Surrealismo/ Abjeccionismo
1963
Editorial Minotauro
Antologia org: Mário Cesariny, inclui versão abreviada d'O Teodolito;

Comunidade
1964
Contraponto
Há pelo menos 11 reedições: 1969, 1980 (6ª ed. com desenhos de Teresa Dias Coellho, pela Contexto - Cábulas de navegação, 2 - Lisboa), 1985 (Forja - Textos Forja, Lisboa) e 1999 (11ª ed. com extra-textos de Isabel Lobinho e revisão de Aníbal Telo, pela Sabatina, Lisboa);

Comunicado ou intervenção da província (panfleto)
1966;

O cachecol do artista (panfleto)
1965
Contraponto
Santarém;

Coro de escárnio e lamentação dos cornudos em volta de S.Pedro (poema)
1966 (1965?)
Afrodite
in "Antologia da poesia erótica e satírica", org. Natália Correia;

Maravilhas & maravalhas caldenses (panfleto)
1966;

Crítica de Circunstância
1966
Ulisseia;

Textos Locais
1967(1968?)
Contraponto
Alcobaça:

Exéquias de Manuel Lima, o careca: manifesto
1967
Texto policopiado:

O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor
1970
Contraponto
Com gralha na capa corrigida pelo autor. (à esquerda)
Duas reedição: uma ordinária e outra em papel couchet, com fac-simile manuscrito - Edições Colibri, Lisboa (1992) e textos acompanhantes de Vitor Silva Tavares (direita).
Reedição Fundação cultural Bracara Augusta, Braga: cidade bimilenar (2000);

Exercícios de estilo
1971 (2ºed. 1973, 3ªed. 1998 - revista e aumentada - colecção Ficções, 30)
Editorial Estampa
Novas direcções, 6
Lisboa;

Literatura comestível
1972
Editorial Estampa
Novas direcções, 7
Lisboa;

Pacheco versus Cesariny - folhetim de feição epistolográfica
1974 (1973?)
Editorial Estampa
Novas direcções, 23
Lisboa
Capa e ilustrações de Martim Avilez;

A PIDE nunca existiu (panfleto)
1976;

Textos de Circunstância
1977
Fronteira
Direito à cultura, 5
Amadora;

Carta a Gonelha
1977
Contraponto;

Textos Malditos
1977
Fernando Ribeiro de Mello/ Edições Afrodite
Autores, 1
Lisboa;

Textos de Guerrilha 1
1979
Ler Editora
Lisboa
Prefácio de José João Louro. Ilustrações de Vasco;

Torga: a minha homenagem (panfleto)
Contraponto
1979?
Ed. revista de "Os nossos escribas no pós-25 de Abril: Miguel Torga o caso veterano" página Um, Lisboa n.249, 1978;

O caso do sonâmbulo chupista (panfleto)
1980
Contraponto
Lisboa;

O Caso das Criancinhas Desaparecidas
1981
Círculo dos Leitores
Lisboa
Reedição pela Ed. Rolim, Lisboa (1986);

Textos de Guerrilha 2
1981
Ler Editora
Poema prefacial de José Correia Tavares. Carta posfácio de Paulo Eduardo Pacheco;

Textos do Barro
1985 (1984?)
Contraponto
Lisboa
Ilustrações de Maria Henriques
Nota:desta edição fizeram-se 500 exemplares assinados e numerados pelo autor;

O Teodolito e a velha casa
1985
Rolim
A hora do lobo, 6
Lisboa
Nota:Reedição integral conforme a de 1962;

Textos Sadinos
1991
Plurijornal
Colecção Arca do verbo, 2
Setúbal
Prefácio de Baptista-Bastos e epitáfio de Ângela Caires. Com Ilustrações de Rui Mesquita;

Carta a Fátima
1992
Plurijornal
Setúbal
500 exemplares;

O uivo do coiote
1992
Contraponto
Palmela
Livro de entrevistas. Reedição em 1996 (Palmela) com prefácio de Acácio Barradas;

Memorando, Mirabolando
1995
Contraponto
Setúbal;

Coro dos cornudos
1996-8?
Contraponto
Palmela?
Reeditado em 2000;

Cartas na mesa: 1966-1996
1996
Editorial Escritor
Lisboa
Apresentação e notas de Serafim Ferreira. (2ª ed. 1996);

Prazo de validade
1998
Contraponto
Palmela
Crónicas do Público. Ilustrações de Manuel João Ramos;

Isto de estar vivo
2000
Contraponto (500 exemplares)
Selecção de crónicas do Diário Económico entre Abril 1995 e Dezembro 1996
Ilustração de Alice Geirinhas;

Uma admirável droga
2001
Quarteto editora
Acasos, 5
Coimbra;

Mano forte
2002
Editorial Alexandria
Lisboa
Correspondência com António José Forte entre 1961 e 1966.
1000 exemplares numerados. Transcrição e apresentação de Bernardo de Sá Nogueira. Existem mais duas edições, uma numerada de 1 a 100 e assinadas pelo autor e outra, de 30 exemplares numerados, com estojo e encadernação em tela;

Os doutores, a salvação e o menino Jesus - Conto de Natal
2002
Oficina do livro
Lisboa
Ilustração de Henrique Manuel;

Raio de Luar
2003
Oficina do livro
Lisboa
Prefácio de Rui Zink. Textos sobre vários temas, escritores, etc;

Os melhores contos e novelas portuguesas, Vol 3
2003
Selecções do Readers Digest
Lisboa
Organizado por Vasco Graça Moura, inclui a Comunidade;

Figuras, figurantes e figurões
2004
O Independente
Colecção Inéditos da Imprensa
Lisboa
Prefácio e edição de João Pedro George, que inclui, maioritariamente, crónicas provindas da revista angolana Notícia e do jornal Diário Económico e mais 6 textos;

Diário remendado 1971-1975
2005
D. Quixote
Lisboa;

Cartas ao léu: 24 cartas a João Carlos Raposo Nunes
2005
Quasi
Biblioteca Primeiras Pessoas
Vila Nova de Famalicão
Organização e notas de António Cândido Franco.


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domingo, 8 de abril de 2007

SÓCRATES? QUÊM É? NÃO O CONHEÇO

Os óculos pesam nos olhos que cegaram. À cabeceira, o jornal ‘Avante’ e um livro de José Gomes Ferreira não são bibelôs, mas companhias. Luiz Pacheco, criatura de inteligência rigorosa, de lucidez sobrenatural, um livre pensador que disse e diz coisas que não são fáceis de serem ditas, está preso a um cadeirão, tem o robe vestido, o aquecedor ligado e uma manta para o frio não lhe magoar o esqueleto. Nasceu em Lisboa, na Rua da Estefânea, a 7 de Maio de 1925, pai de oito filhos – frutos de muitos amores, na vida escolhida, que foi dura por prazer, só fez o que bem entendeu.



O Estado Novo prendeu-o por politiquices e por ter amado menores. Frequentou o curso de Filologia Românica na Faculdade de Letras e a meio mandou o curso dar uma curva ao bilhar russo. Entretanto, a Inspecção de Espectáculos admitiu-o como agente fiscal, mas sedentarismo não combinava com o seu feitio. Preferiu a situação que considera invejável: desempregado. Depois, funda a editora Contraponto onde a corrente surrealista viu muitos dos seus autores publicados. Crítico literário e cultural, tradutor, colaborou em diversos jornais e revistas, ‘O Globo’, ‘Afinidades’, ‘Seara Nova’, ‘Diário Popular’. A sua escrita caracterizada de irreverência e de poesia esbofeteou a torpeza intelectual e desafiou o lápis azul da censura salazarista. Luiz Pacheco, que, em tempos, se fez sócio do Benfica para ir aos bailes e do Sporting para ir à natação, já não dança e não aprendeu a nadar. Apesar de ter andado perto do fundo, acaba por vir sempre à tona e ao seu ritmo.



Tinha dito que não saía do lar do Príncipe Real. Afinal, enganou-se. Vive com o seu filho.

Um gajo também se engana! A vida nos lares é uma espécie de regimento. Horários. E mais horários. E eu estive em três. O pior era a convivência com os moribundos e as moribundas. Deprimente. Os tipos iam buscar os velhos às camas e espetavam com eles num buraco a que chamavam sala do convívio. Qual convívio? Convívio nenhum! Velhotes com os olhos fechados e outros que estavam nas últimas. Ah... e havia um animador que se punha a contar de um até ao número dez. Quando a gente pensava que o tipo ia fechar a goela, desatava a dizer a numeração em forma decrescente. Ele fazia coisas incríveis! Mandava pôr a mão para cima, para trás, para os lados. Eu sei lá. O último lar era muito mau. Tinha lá uma mulata que era cleptomaníaca. Roubou uma velha muito afanada e eu também fui roubado.

O Luiz é que não está nada afanado...

Eu não estou afanado? A miúda deve estar a brincar! Eu não estou nada bem. Tenho muitas doenças, talvez umas vinte e três. Agora tenho uma m. chamada incontinência. Para um gajo é muito mau andar de fraldas. Mas a vista é a pior das mazelas.

Se fosse menos teimoso já tinha sido operado.

Não conte com isso! Tenho medo. E não é da anestesia. Medo das consequências. A merda da operação pode provocar um acidente cardiovascular e já viu o que era? Dizem que é coisa muito simples, mas isso são conversas. Nessa eu não caio!

Voltar a ler não é um estímulo?

Oh miúda, eu já li muito. Nem queira saber o que eu já li. Agora é a minha filha que me lê os artigos de jornais e algum livro que eu queira ler. Ocupo o raio do tempo a ver a RTP Memória. Estou a ver coisas que nunca tinha visto. Como por exemplo, o Júlio Isidro, o Zip-Zip. Gosto de ver velhadas. Entretenho-me com o humor fabuloso do Vasco Santana, do António Silva. O Solnado é uma merda. Uma invenção. Um disparate. O Herman José é diferente. Basta ser de origem alemã para saber o que está a fazer .

O melhor aluno do Liceu Camões gosta de velhadas...

Não me faça rir. Mas fui o melhor daquela malta toda. Entrei em 1936 e fiquei lá oito anos. Sentava-me sempre na carteira da frente, porque os meus olhos já eram dois sacanas. O avô desse tipo chamado Eduardo Prado Coelho foi meu professor. Nós cagávamo-nos no gajo.

Quem eram os seus colegas?

Lembro-me do José Manuel Serra, que foi director do Teatro Nacional de São Carlos, Lobo Saias, que chegou a ministro, e outros.

Os liceus não eram mistos, portanto, miúdas não eram peras doces...

Imagine que nem podíamos chegar ao pé de uma escola feminina. Quando chegou a altura da universidade, o convívio não foi fácil. Não estávamos habituados. Pedir um lápis emprestado era cá uma trabalheira. Só para não haver contacto, deixávamos cair o raio do lápis ao chão.

Entretanto, os contactos melhoram... esteve preso no Limoeiro devido a aventuras amorosas.

Prenderam-me por razões políticas e por ter desflorado umas garotas que eram menores. Mas atenção: eu também era menor! Uma ocasião foram duas irmãs ao mesmo tempo. Foi cá uma chatice... Antigamente, rapazes e raparigas faziam o que hoje fazem, mas com a diferença: não tinham o à-vontade que existe hoje. A pílula foi a estrondosa revolução. Ouvir dizer que, até, os homens já podem tomar essa m. Eu nunca tomei. E sou contra o aborto. Hoje em dia as garotas têm muitas facilidades...!

Um rol de contraceptivos e a pílula do dia seguinte

O que é isso? O comprimido do dia a seguir à cegada?

Sim. É contra o aborto e a favor da despenalização?

É claro! Prender moças é um autêntico disparate. Mas há malta que diz que aborta porque rejeita ter filhos indesejados. Ouça cá uma coisa: uma rapariga que se deita com um rapaz sabe do risco. E há outra malta que diz que não consegue criar filhos. Mentira. É só conversa. Eu sem cheta, desempregado, tenho oito filhos. Uma vez, fui deixar um filho à Casa Pia. Se os ‘gansos’ eram bem tratados? Coitados. Aquilo era uma miséria.

Voltando à prisão. Como era no Limoeiro?

Uma prisão para os gajos que esperavam julgamento. Havia batota que não era a feijões, mas a dinheiro. Estava lá um enfermeiro tarado que vendia penicilina misturada com água. O refeitório era umas mesas corridas e havia um tipo que distribuía a comida. Os acordos davam direito ao prato ficar mais cheio. Naquela merda havia estratos sociais. A Sala dos Menores, a Sala dos Primários, para os estreantes, a Sala Comum, que era para a maralha, e a Sala dos Bacanos, onde estavam aqueles que tinham conhecimentos fora da prisão. Como eu. Da segunda vez que estive dentro, o Artur Ramos telefonou ao pai, que era director-geral da Penitenciária e pôs-me cá fora.

Um homem que nunca gostou de regras nasceu no seio de uma família de militares...

Não venha com as perguntas feitas de casa. O meu avô materno era capitão-de-mar-guerra, engenheiro maquinista, e o meu avô paterno, coronel da artilharia, dirigiu o Arquivo histórico-militar. Eram militares, mas pareciam ser outras pessoas. Tinham boa cara. O pai do meu pai, aquando da primeira incursão monárquica, comandada pelo Paiva Couceiro, foi a Chaves dar umas bombadas nos canhões e teve de fugir. O meu pai estava a tirar o curso na Faculdade de Letras para ser diplomata, mas como aconteceu a Primeira Grande Guerra, a diplomacia foi para o galheiro. Não acabou o curso. Nem eu.

Por razões diferentes?


Sim. Os professores na Faculdade de Letras eram uns chatos. Excepto o Vitorino Nemésio (que me deu 18 valores) e o Delfim Santos. Nunca engraxei o Nemésio, eu não era igual ao Urbano e ao David. Mas espere aí, deixe-me falar do ano que antecedeu a faculdade. Em 1943, quando acabei o liceu, o meu pai disse que não tinha dinheiro para eu estudar na Faculdade. Falou com o professor João de Brito, que me deixou assistir às aulas. Eu era um aluno fantasma. Não me perguntavam nada, o que era maravilhoso. Nos intervalos ia para a biblioteca. Devorei Gil Vicente, Garcia de Resende, Fernão Lopes e outros. Por essa altura comecei a dar explicações. Portanto, aprendia e ensinava. Foi um ano em cheio! No final, fiquei muitíssimo bem classificado no exame de admissão à Faculdade de Letras de Lisboa, no Curso de Filologia Romântica, e consegui ficar isento das propinas.

Saiu da faculdade e, em 1946, foi admitido como agente fiscal da Inspecção de Espectáculos.

Aquilo era uma treta. Não inspeccionávamos nada.

Quando é que funda a editora Contraponto?

A editora começou a funcionar em 1951, logo depois do primeiro número da revista. Nasceu no ensaio de uma terceira via e só tinha um critério: os gajos do Estado Novo não podiam entrar. Vivia um bocado à mercê do facto de eu e o Jaime Salazar sermos amigos. Quando foi publicado o ‘Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano’, de Mário Cesariny, o Jaime ficou f. Pensava que a editora era só para ele. Mais tarde, o mesmo aconteceu com Cesariny, quando Herberto apareceu. Razão tinha o Gaspar Simões em chamar- -me ‘O sacristão do Surrealismo’, por publicar aquela gajada. Não faz muito tempo, vendi a editora à irmã do Manuel Alegre por um preço de m...

Era amigo de Cesariny?


Essa pergunta traz água no bico. Dizem que nós éramos amantes. Um disparate. O gajo não fazia o meu género. Eu nunca tive a mania de Paris. Ele tinha.

A sua colaboração nos jornais começou no ‘O Globo’, em 1945, e ainda há dez anos escrevia na imprensa

O Nicolau Santos, que na altura era director do jornal ‘O Público’, convidou-me para escrever uma crónica. Os gajos até pagavam bem. Mas tiveram o azar de anunciar Luiz Pacheco escritor polemista. Dava-lhes jeito que eu desse porrada. Mas durante meses não lhes fiz a vontade. Podem contar comigo para dar porrada, mas jamais por incumbência.

É verdade que, uma vez, enquanto traduzia um livro, esteve quase para ser publicado um palavrão?

Publicado não digo, mas aquilo fez-me correr. Eu estava a traduzir um livro para crianças e havia uma palavra cujo significado em Português eu não encontrava. Para não me esquecer escrevi a vermelho c. Quando me lembrei... falei à editora, que me disse que o livro já estava nas mãos do revisor. Corri para a casa do gajo. E lá estava o c. marcado a vermelho, mas fui a tempo. O c. foi substituído por penacho.

É autor de muitos livros, mas nunca escreveu romances.


Porque é preciso ter disciplina. Mas não é como escritor que posso ser importante. Se me perguntarem da minha importância é como editor. Editei muitos livros que eram muito baratos. Tinha bons autores, Raul Leal, Natália Correia, António Maria Lisboa, Herberto Hélder, Vergílio Ferreira, Mário Cesariny. Jamais editaria, por exemplo, o Fernando Namora. Ele era um aldrabão. Ou o José Agualusa, que não escreve nada. É um pateta alegre.

O que é preciso para escrever bem?

Ler muita coisa. Estar atento. E há gajos que escrevem sem nunca terem lido uma frase.

Gosta da escrita de António Lobo Antunes?

Muito. Gosto quando ele fala do bairro onde nasceu, Benfica. Tem muitas qualidades e anos de escrita. Mas é um bocado apanhado da pinha. Também tem a maluqueira de dizer que não consegue viver sem escrever. E tem razão. Ele é o escritor mais internacional de Portugal.

E José Saramago?

Também, embora de maneira diferente. Mereceu o Nobel. Saramago e o Lobo Antunes têm uma coisa em comum: são escritores que já só escrevem para o estrangeiro.

O que nos diz dos políticos?

São uns m. Comparados com eles próprios. Aquela que foi ministra das Finanças era uma tipa séria, mas era cá um camafeu.

Gosta do José Sócrates?

Quem é? Não o conheço.

Mas gosta de Pedro Santana Lopes?

É um ‘bom vivan’. Não deixou obra nenhuma, mas sabe viver. Andava nas discotecas e estes gajos – o pequeno, o gajo que é quase anão – fez-lhe a folha. O Santana é um senhor. Gosta das noites. E bebe o seu copinho. Eu deixei de beber há uma semana. Ao almoço bebia vinho – tinto, pois está claro. Quando se fala em vinho fala-se em tinto.

João Soares, quando era presidente da Câmara Municipal de Lisboa, fez-lhe uma visita e trouxe-lhe umas garrafas de tinto.

E que belo tintol! Apareceu no Natal, com um funcionário. Trouxe-me vinho, um belo presunto e livros. Vinha com a ideia maluca de eu fazer um artigo sobre o governador do Costa do Castelo.

O País reconhece as pessoas?


Não podemos falar de um só País. De Lisboa ao Porto existem dois países ou, talvez, existam quatro países em Portugal. Por exemplo, o Mário Soares, quando era Presidente da República, deu-me 650 contos. Uma vez, no Chiado pedi-lhe 20 paus emprestados. E ele deu-mos. Este presidente, o actual, que tem aquela cara, não me deu nada.

Vive de alguma pensão?

Tenho um subsídio de 120 contos, graças ao Alçada Batista. E também ao Balsemão, que teve a feliz ideia de inventar o decreto do mérito cultural. O Santana despachou um decreto que favorece pessoas que estão na minha situação. Mas não é por isso que gosto do rapaz. O tipo sabe o que é bom. O que é bom para mim são umas garotas, que vêm cá de manhã para me fazerem a higiene. Não é mau.

QUESTIONÁRIO

Um País... Montijo

Uma pessoa... D. Afonso Henriques

Um livro... ‘Gustavo, o Estroina’, de Paulo Koque

Uma música... ‘Variações’ de Golberg

Um lema... Não me lixem. Não me chatem

Um clube... Clube Jardinense, o clube do Montijo


Miriam Assor
In:Correio da Manhã

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quinta-feira, 4 de novembro de 2004

POESIA...


Coro de escárnio e lamentação dos cornudos em volta de S.Pedro

Coplas dedicadas às fogosas e vampirescas mulheres da Beira, de quem já Abel Botelho
disse o que disse.

Monólogo do primeiro cornudo:

Acordei um triste dia

Com uns cornos bem bonitos

E perguntei à Maria

Porque me pôs os palitos

Jurou por alma da mãe

(Com mil tretas de mulher)

Que era mentira

Tambem,ainda me custava a crer

Fiquei de olho espevitado

Que calado é o melhor

E para não re-ser enganado

Redobrei gozos de amor

Tais canseiras dei ao físico

Tal ardor pus nos abraços

Que caí morto de tísico

Com o sexo em pedaços

Já esperava por isto a magana?

Já previra o que se deu?

Do Além via-a na cama

Com um tipo pior que eu

Vi-o dar ao rabo a valer

Fornicando a preceito

Sabia daquele mistério

Que puxa muito do peito

Foi a hora de me eu rir

Que a vingança tem seus quês

O mais certo é para aqui vir

Ainda antes que passe um mês

Arranjei um bom lugar

Na pensão de Mestre Pedro

Onde todos vão parar

Embora com muito medo

Não passava de uma semana

O meu dito estava escrito

Vítima daquela magana

Pobre tísico,tadito

Dueto dos dois cornudos:

Agora já somos dois

A espreitar de cá de cima

Calados como dois bois

Vendo o que passa na vida

Meteu na cama mais gente

Um, dois, três logo a seguir

Não há piça que a contente

É tudo o que tiver de vir

São Pedro, indignado, pragueja:

É demais,arre diabo-berra S.Pedro, sandeu

E mortos por dar ao rabo, lá vêm eles p'ró ceu...

Coro, pianíssimo, lirismo nas vozes:

Quem morre como um anjinho...

Quem morre por muito amar...

Coro, agora narrativo ou explicativo:

Já formamos um ranchinho, de cá de cima a espreitar

Aparte do autor das coplas:-coitadinhos

Passam meses, passa tempo e a bela não se consola

Já somos um regimento como esses que vão para a Angola

Fazemos apostas lindas sempre que vem cara nova

Cálculos,medidas infindas,como ela terá a cova!

Há quem diga que por si já não lhe tocou o fundo

Outros juram que era assim do tamanho deste mundo

Parecia uma piscina! -diz um do lado, espantado-

Nunca vi uma menina num estado tão desgraçado

(Aparte do autor,antigo militante das esquerdas baixas)

Num estado tão desgraçado, parece-me ouvir o povo

Chorando seu triste fado nas garras do Estado Novo

O ultimo que cegou cá morreu que nem um patego

Afogado e era mar nos abismos daquele pêgo

O coro dos cornudos acompanhado por S.Pedro em surdina, entoa a moralidade,

após ter limpado as últimas lagrimetas e suspirado como só os cornudos sabem:ahh!

Mulher não queiras sabida

Nem com vício desusado

Que podes perder a vida

Na estafa de dar ao rabo

Escolhe donzela discreta

Com os três no seu lugar

Examina-lhe bem a greta

Não te vá ela enganar

E depois de lhe veres o bicho

E as mamadeiras que tem

A funcionar a capricho

Já sabes se te convem

Mulher calma, é estima-la

Como a santa no altar

Cabra doida, é rifa-la

Que não venhas cá parar

Este conselho te dão

E não te levam dinheiro

Os cornudos que aqui estão

Com São Pedro hospitaleiro

Invejosos, quase todos

Dos cornos que o mundo guarda

Fazem mais um bocado de lamentação

(Nota do autor-quase, porque, entretanto alguns brincavam uns com os outros. Rabolices...

Mas se fornicas a rodos tua vida aqui não tarda

Recomeça a moralidade,estilo "estão verdes, não prestam"

Alguns bêbedos,cornudos despeitados ou amargurados, vozes pastosas

(deve ler-se vinho...velhinho)

Melhor que a mulher é o vinho

Que faz esquecer a mulher

Que faz do amor já velhinho

Ressurgir de novo o prazer

Finale muito católico

Assim termina o lamento

Pois recordar é sofrer

A mãe fode

É bom sustento

E por nós reza o pater

Luiz Pacheco, num dia em que se achou mais pachorrento

Enviado por: Mário Alberto Pacheco

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