sexta-feira, 30 de dezembro de 2005

LONGE VÁ O AGOURO

O mistério da aversão de Cavaco à exposição pública das suas ideias tem afinal uma explicação, cuja foi revelada na entrevista concedida pelo próprio ao JN, em vésperas de Natal, e publicada na edição de 27 de Dezembro.
O ex-primeiro-ministro está a guardar-se para quando e se chegar a Belém.
A primeira tarefa que gostaria de realizar era uma conversa longa com o primeiro-ministro, diz o candidato quando questionado sobre o primeiro trabalho que gostaria de fazer se for eleito.
Convenhamos que é uma opção de tomo: falar.
É claro que, na ausência de uma bola de cristal digna de crédito, difícil é tentar antecipar o conteúdo da hipotética conversa - sobretudo porque não se entende o que obsta desde já a esse aparentemente tão desejado tète-à-tète com Sócrates -, mas pode-se tentar uma aproximação a partir das pérolas dadas na entrevista.
Generalidades à parte, como as conversas em família, os comentários dos netos, o afastamento partidário, as opções de residência e as profissões de fé na capacidade de cooperação, Cavaco levanta a ponta do véu ao falar da momentosa questão das deslocalizações de empresas estrangeiras, questão que lhe terá deixado uma pedra no sapato desde o seu consulado no governo.
Quem é que já se esqueceu do célebre empreendimento Roussel, em Odemira, apontado como exemplo de sucesso pelo então primeiro-ministro Cavaco numa visita de Estado, cujo dono deu à sola mal os holofotes se apagaram, deixando dívidas aos trabalhadores e prejuízos ao País?
Pois deve ser isso que explica que o agora candidato a Belém defenda a criação de uma secretaria de Estado para as empresas estrangeiras, cujo titular teria com função fazer o recenseamento das ditas e fosse de vez em quando, falar com cada uma delas para tentar indagar sobre problemas com que se deparam e para antecipar algum desejo dessas empresas se irem embora, para assim o Governo tentar ajudá-las e inverter essas motivações.
Nem mais.
Ora vocelência tem algum problema?
Em que é que podemos ajudá-lo?
Veja lá, não se vá embora que nos faz cá falta, se precisar de alguma coisa é só dizer, umas facilidades fiscais, um aperto na lei da greve, uns perdões para Segurança Social, etc., etc., etc., o que não falta é fórmulas de ensinar o padre nosso ao vigário.
Sócrates que se cuide, que a dar-se o desastre o epicentro do governo corre o risco de escapar de S. Bento, pois o que o homem quer é governar.
Longe vá o agouro, que para pior já basta assim.

Anabela Fino

1 Comments:

At 30 de dezembro de 2005 às 13:25, Anonymous J E R said...

EM BUSCA DA NOSSA SENHORA DE FÁTIMA

Portugal não é o único país europeu que atravessa uma crise económica grave, e entre estes não é o único que tem um regime não presidencialista.
Mas enquanto os outros países procuram encontrar soluções, são muitos os portugueses que persistem em ter a ilusão de que nada mudou nem tem de mudar à nossa volta, e em vez de questionarem o que têm que fazer, procuram um salvador.

Aquilo que os outros povos, que há séculos que nos dão lições de desenvolvimento, procuram é tornar os seus mercados mais concorrências, as suas empresas mais competitivas, os seus trabalhadores mais qualificados, as suas administrações públicas mais eficazes.
Nós que somos um povo eleito, que olhamos os estrangeiros que nos visitam como uns idiotas somos mais espertos, continuamos tranquilamente a pagar a prestação do Fiat Uno para que nos fins de semana possamos entrar nas filas dos que vão molhar os pés à barragem, e em vez de resolvermos os nossos problemas, procuramos um salvador.

Depois do D. Sebastião veio a Nossa Senhora de Fátima ajudar a salvar-nos, e é mesmo uma nossa senhora de Fátima que os portugueses parecem procurar, pois da forma como se comportam só mesmo um milagre salvara a nossa economia.

E se o país está mal devido a uma crise económica andamos todos alegres porque vamos juntar à crise económica uma grave crise política, só porque vimos no homem de Boliqueime, nos seus tiques autoritários e na sua falsa modéstia saloia as qualidades de que este país da Europa precisa.

Enquanto os outros povos melhoraram as suas democracias, apostaram na liberdade como estímulo da criatividade, essencial à modernização das sociedades, os portugueses andam há séculos em busca de fórmulas autoritárias para resolverem as crises que enquanto povo não souberam impedir.
Adoramos o sacana do Marquês de Pombal e esquecemos que o grande primeiro-ministro de D. José governava o maior e quase único produtor de ouro do mundo, elogiamos o ministro das Obras Públicas de Salazar e esquecemos que os portugueses da época foram forçados a viver miseravelmente, elogiamos a obra rodoviária de Cavaco e omitimos que nesse tempo choviam ecus em Portugal

Agora já nem D. Sebastião nos vai valer, precisamos mesmo de um milagre, e esse só uma Nossa Senhora de Fátima o pode fazer. Mas de entre os países que aderiram com Portugal à CEE somos o único a ter o privilégio de ter um santa residente, e ainda bem que assim é, de entre esses países também somos o único que apesar dos muitos milhões de ajudas comunitárias atravessa uma crise com as características das nossas. O que Cavaco não fez como primeiro-ministro, vai agora fazer com os poderes milagrosos do estatuto de nossa senhora milagreira.

 

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