sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

ANA GOMES E O SEU TEMPO

Não me parece que o entusiasmo de Sócrates tenha alguma substancial razão.
A não ser, porventura, os milhões de milhões que aí vêm, destinados, pelo Governo, sabe-se lá a quê.

É cansativo tocar na mesma tecla, mas tornou-se exaustiva a incompetência com que, há três décadas, criaturas desprovidas de senso, se talento e de gramática gerem os nossos destinos. Aguardámos, após o Abril de todas as esperanças, que a capacidade portuguesa fosse encaminhada para um novo e redentor perímetro.
As colectivas emoções, os regozijos que levaram o povo a oferecer um dia de trabalho para a nação foram aniquilados por uma casta sem ideais, sem convicções e desprovida do mais leve resquício de grandeza.

O que os grandes liberais de Oitocentos haviam pensado, assim como os projectos da Geração de 70 malograram-se, degenerando, progressivamente, numa beata apatia e numa fúnebre desistência aparentemente sem remédio.
Quem nos dirige não possui aptidão para nos dirigir.
Vem de trás a decadência. E de cada vez que alguém ergue a voz e contraria o comportamento consuetudinário imediatamente surgem os perseguidores, os caluniadores, para quem a proeminência dos outros ameaça o conservadorismo das suas mediocridades.

Ana Gomes tem sido, nas últimas semanas, objecto e alvo dessa gentalha, pela singela razão de querer saber se a CIA utilizou a base das Lajes como plataforma de transporte de prisioneiros políticos das autoridades norte-americanas.
Carlos Coelho, do PSD, agitara o assunto, tentando o mesmo através de outras fórmulas.
Fez o que pôde ou, acaso, o que o deixaram fazer.

Ana Gomes tem ido mais longe: afirma possuir testemunhos e documentos. E não entende a verdade como um conceito derivativo. Na base do que declara, somente exige que tudo seja esclarecido. O assunto configura gravidade extrema. E os atacantes de Ana Gomes entraram num mundo muito parecido com o da esquizofrenia.
Ela não trai a lealdade devida ao seu tempo e à sua geração. Os outros ignoram o que seja esse princípio.

Não conheço, pessoalmente, a nossa antiga embaixadora em Jacarta.
Admiro a inteligência de que dá provas constantes, o destemor, a eloquência do verbo, a alegria com que mobila os seus combates, e a utilização de uma lógica que está a tornar-se acessível, até entre aqueles que sofrem de astenia social e desdenham da cidadania.
Aquela triste frente unida em torno de José Sócrates zurze-a com a violência dos que não têm razão, não assustam nem intimidam.

Ana Gomes não é antiamericana, como alguns asseveram; não é tola, como outros desejam fazer crer; não acordou, agora, do pesadelo da História, porque possui o lastro de um passado que a descreve e a sustenta.
Ao contrário dos que tropeçam, mentalmente, nas realidades actuais, por industriosos organizadores das suas pessoais vidinhas, ela interpreta as ambivalências e as ambiguidades dos seus camaradas de partido com o sarcasmo que impede a aceitação das propostas de silêncio.

Escolhendo bem as palavras, e sem pedir desculpa a ninguém, o que os aparatchiks do PS tecem, em redor de Ana Gomes, é uma fétida nojeira. O risco que a deputada europeia corre é bem maior do que se julga. E a dimensão da sua peleja sobrepuja o vulgar jargão político, embora adquira a assunção de uma específica ideologia: a que não cobre a omissão nem concorre para a cumplicidade. Governos anteriores, e este, de Sócrates, estão moral e civicamente, obrigados a esclarecer o que pretendem manter na penumbra.

Esta gente que nos governa não está, mansamente, a perder o juízo. O culto da conivência instalou-se na sociedade portuguesa há muito tempo. E a partilha das subserviências advém da circunstância de se submeterem às ordenanças do Império. A subalternidade dos dirigentes portugueses perde-se num atroz narcisismo, aliás já em tempos assinalado por Carlos Amaral Dias, o qual se transforma na coisa mais importante do que a própria política.

Quando se trata de cometer o mais ligeiro ponto de vista contrário aos norte-americanos, logo os trompetistas dos EUA afinam o solfejo e cobrem de injúrias o desavisado. Ana Gomes está a sofrer o trato de polé, comum aos dissentes. Carlos Coelho também foi atingido, mas o seu discurso era suave como um milagre.
Chega a ser desprezível a hilariante campanha contra a deputada.
Houve, inclusive, um preopinante a atrever-se a apontá-la à execração partidária, sob a espantosa alegação de que a sua campanha antiamericana (sic), servia os interesses dos inimigos.
Dos inimigos de quem?, quais?, onde estão?

A convicção de Ana Gomes é uma nota dissonante na mansuetude dos hábitos, e na bovina admissão dos acontecimentos. Ela deseja o que desejamos: esclarecimentos, assunção de responsabilidades. E, queiram ou não, tornou-se no porta-voz da adormecida consciência moral do PS.

Um pouco a propósito do estado actual das coisas, transcrevo parte do prefácio a As Farpas, cuja edição, em seis volumes, organizada pelo prof. dr. Ernesto Rodrigues, o Círculo de Leitores, vai editar, e cuja compra vivamente recomendo. Muito daquilo que somos está escrito, numa prosa admirável, nos textos de Ramalho Ortigão, um dos maiores jornalistas portugueses de sempre e, por isso mesmo, um dos mais originais escritores. Eis, Dilecto, o excerto:

O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já não se crê na honestidade dos homens públicos. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos vão abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. O tédio invadiu as almas (?) A ruína económica cresce, cresce, cresce? O comércio definha. A indústria enfraquece. O salário diminui. A renda diminui. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo. De resto a ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro. A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do País (?) Não é uma existência, é uma expiação.

Há manifestas afinidades entre o cruel retrato de Portugal, feito pelo génio de Ramalho, e a situação em que nos encontramos. O caso Ana Gomes estabelece alguma relação com aquilo que se preza e o que se despreza. E Ramalho demonstra, uma vez ainda, quais as dimensões autênticas do compromisso onde comparece o escritor e o seu tempo. Muitos daqueles que por aí escrevem estão irremediavelmente expulsos do futuro. Ramalho Ortigão continua presente.

B.B.

1 Comments:

At 20 de janeiro de 2007 às 00:02, Anonymous C.M.A. said...

O discurso de Sócrates exibe o velho voluntarismo das “grandes medidas”, agora na versão digital de uma “esquerda moderna”.

As estrelas são os euros – 21,500 milhões entre 2007 e 2013. Contabilizando a comparticipação nacional e a contribuição de privados, o dilúvio promete 45 mil milhões de euros. Em pleno século XIX, existia também uma ideia precisa para desenvolver Portugal, um plano infalível que consistia em “regar o País com libras”. Na boa tradição nacional, o primeiro-ministro promete construir um País novo no espaço de sete anos. Estas promessas messiânicas são o atributo de uma nação atrasada, pobre, que encontra no dinheiro a solução para todos os problemas. O discurso de Sócrates exibe o velho voluntarismo das “grandes medidas”, agora na versão digital de uma “esquerda moderna”.

Mas para além da retórica da mudança, existe um cálculo político mais apurado. O período de aplicação do novo “pacote financeiro” da União Europeia coincide exactamente com um provável segundo mandato de Sócrates. Como tal, a estratégica revelação poderá ser observada como o primeiro gesto de uma anunciada recandidatura. Ao contrário dos seus antecessores próximos, o primeiro-ministro revela a determinação e a vontade para ir até ao fim. As “prioridades” do QREN são o programa para o segundo mandato de Sócrates.

Existe no entanto uma outra referência incontornável. Parece ser hoje pacífico afirmar que a “primeira modernização” do Portugal democrático ficou associada ao consulado de Cavaco Silva. O objectivo desta “primeira modernização” terá sido o de criar as “infra-estruturas” necessárias ao desenvolvimento do País. Sócrates pretende ficar para a história como o político da “segunda modernização”. Uma “modernização” que irá privilegiar os “recursos humanos” e a formação dos portugueses. O primeiro-ministro sonha com um País culto e qualificado, capaz de se afirmar no mundo, na realização do progresso e na justiça social. O primeiro-ministro idealiza um Portugal que acredita em si mesmo. Tal como Sócrates acredita em Sócrates.

É um facto que esse País não existe. E é igualmente um facto que sete anos são um instante na vida de uma nação. Se tudo correr pelo melhor, no espaço de uma ou duas gerações talvez Portugal seja uma nação de progresso. Mas nos dias de hoje sobra um desejo – que a estrela de Sócrates possa brilhar.

 

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