terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

NÃO HÁ OÁSIS À VISTA

Pior do que alguém que não vê é alguém que, em democracia, se esqueceu de ver. Sócrates pode ter ganho nos votos, Marques Mendes pode ter sido vencido.
Ambos perderam contra os mais de 50% de abstencionistas.
No referendo a democracia chocou contra o elefante da abstenção. E acabou esmagada.
Os políticos não conseguiram ser sereias capazes de encantar o povo.

Os políticos não conseguiram ser sereias capazes de encantar o povo. E este, na falta de praia, e com excesso de centros comerciais disponíveis, preferiu evitar deslocar-se a uma urna.
Os políticos, na noite eleitoral, falaram da maturidade do povo português.
Nada mais falso.
Os portugueses são sujeitos passivos, como quase sempre foram.
Gostam, sabe-se lá porquê, que alguém pastoreie a nação por eles.
Os portugueses vivem em profunda indiferença.
Ficam inertes face ao que os outros decidem.
Essa falta de energia torna a democracia portuguesa algo que definha.
Nos referendos, os portugueses são como na economia: evitam arriscar.
Preferem o gesto mais fácil da crítica ao que os outros não fizeram.
Quando votam em partidos transferem esse odioso para os políticos.
Quando o seu voto os torna decisores directos fogem dos espinhos da decisão.
Mas os dirigentes políticos não podem isentar-se da fuga dos cidadãos ao voto.
Sem a acção destes é todo um sistema que definha.
No domingo, Portugal pareceu um deserto.
A democracia ficou seca. E parece que ninguém percebe que não há oásis à vista
.


F.S.

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4 Comments:

At 13 de fevereiro de 2007 às 14:49, Anonymous JER said...

Não sou grande defensor dos referendos, depois das três experiências já realizadas continuo sem perceber para que serve este tipo de consulta, em todos os casos serviram mais para que minorias impedissem uma decisão do que para a maioria dos portugueses se pronunciassem.
Os promotores dos primeiros dois referendos estavam mais interessados em que uma minoria militante ganhasse à custa de uma elevada taxa de abstenção do que numa decisão em que participasse a maioria dos portugueses. Mais do que uma manifestação de democracia os referendos foram usados como truque à Marcelo Rebelo de Sousa.

Talvez faça sentido fazer um referendo para se mudar o nome de uma localidade ou para decidir entre investimentos autárquicos alternativos, por exemplo, para num contexto de recursos financeiros limitados os munícipes optarem por se investir numa escola ou numa estrada.
Houve quem desse o exemplo do túnel do Marquês como um investimento que poderia ter sido alvo de um referendo, mas nesse caso questiono-me sobre qual seria o nível da abstenção, sabendo-se que uma boa parte senão mesmo a maioria esmagadora desse túnel são eleitores dos concelhos limítrofes.

Também há quem defenda que o referendo deve servir para decidir sobre questões fundamentais e questiono-me, por exemplo, se Portugal estivesse confrontado com a hipótese de declarar a guerra se tudo deveria parar para se fazer um referendo quatro meses depois. Haverá decisão mais difícil do que a guerra?

A verdade é que os referendos têm servido mais para que os políticos não assumam as suas responsabilidades (como sucedeu com o primeiro referendo do aborto), ou para os partidos minoritários imporem a sua opinião (como sucedeu com o referendo da regionalização), do que para decidir o que quer que seja. E pelos resultados dos três referendos já realizados pode concluir-se que o peso das militâncias é grande no voto dos referendos, isso foi evidente no primeiro referendo do aborto, só assim se entende a grande diferença na opção dos que votaram.

Mas se os referendos estão para ficar é evidente que há duas questões a resolver.
Saber se o patamar exigido para que o referendo seja vinculativo deve ficar nos 50% e, o que se prende com este problema, limpar sistematicamente os cadernos eleitorais pois não faz sentido questionar a validade de um referendo quando a abstenção técnica se situa nos 7%.

De que serve promover um referendo se é tecnicamente impossível determinar qual a percentagem real do sim ou do não?
Alguém sabe qual seria o resultado do último referendo se os cadernos eleitorais não contassem com eleitores fantasmas?

 
At 14 de fevereiro de 2007 às 22:00, Anonymous JUM said...

A IGREJA, OS PARTIDOS E O REFERENDO

Não têm faltado os que atribuem a vitória do "Sim" no referendo à presença de partidos neste campo, é um argumento lançado por Marcelo Rebelo de Sousa na noite do referendo e que tem sido muito utilizado pelo defensores do não mas que ainda ontem foi retomado no editorial do Público.

Desde logo é um argumento falso pois todos os partidos da direita e da extrema direita estiveram ao lado do não e se o seu apoio não foi decisivo é porque não são representativos, os próprio PSD inclinou-se mais para o "Não" do que faria supor a sua posição inicial. Por outro lado todos esquecem o envolvimento activo da Igreja Católica cuja máquina é bem maior e mais organizada de que a de qualquer partido. Compare-se, por exemplo, o tempo de antena de que beneficiou D. José Policarpo (várias entrevistas e a sistemática referência aos seus artigos e homilias) com o concedido a Sócrates, que durante uma boa parte da semana esteve na China a ouvir as asneiras do Manuel Pinho.

 
At 14 de fevereiro de 2007 às 22:00, Anonymous JUM said...

A IGREJA, OS PARTIDOS E O REFERENDO

Não têm faltado os que atribuem a vitória do "Sim" no referendo à presença de partidos neste campo, é um argumento lançado por Marcelo Rebelo de Sousa na noite do referendo e que tem sido muito utilizado pelo defensores do não mas que ainda ontem foi retomado no editorial do Público.

Desde logo é um argumento falso pois todos os partidos da direita e da extrema direita estiveram ao lado do não e se o seu apoio não foi decisivo é porque não são representativos, os próprio PSD inclinou-se mais para o "Não" do que faria supor a sua posição inicial. Por outro lado todos esquecem o envolvimento activo da Igreja Católica cuja máquina é bem maior e mais organizada de que a de qualquer partido. Compare-se, por exemplo, o tempo de antena de que beneficiou D. José Policarpo (várias entrevistas e a sistemática referência aos seus artigos e homilias) com o concedido a Sócrates, que durante uma boa parte da semana esteve na China a ouvir as asneiras do Manuel Pinho.

 
At 16 de fevereiro de 2007 às 14:45, Anonymous B.B. said...

O "sim" no referendo sobre a despenalização do aborto não constituiu uma vitória da Esquerda sobre a Direita.
Foi a resposta cívica a uma obscenidade que a Igreja e as forças mais reaccionárias têm apoiado.
Também não representou o triunfo "político" de José Sócrates sobre a massa circundante.

Será abusivo tentar extrair dividendos da singularidade do acontecimento, cuja natureza ultrapassa os axiomas tradicionais entre Esquerda e Direita, entre crentes e não crentes, entre adeptos "da vida" e adeptos "da morte".

Consistiu numa derrota parcial do Portugal velho, infligida, sobretudo, pelo Portugal novo, que vai despontando no horizonte fosco, ainda tingido pela ignorância, pela superstição, pelo analfabetismo e por abjectos manipuladores de consciências.
Estes últimos foram, de facto, os grandes vencidos.
A ira indisfarçada dos seus mais visíveis próceres demonstrou a face semioculta do jogo, no qual participou, com milhões de euros, o banco do Opus Dei.

Foi demonstrado que houve desobediência às instruções, veladas ou claras, dadas pela Igreja, sobretudo nas zonas urbanas e na parte do País onde a troca de informação e as características ideológicas são mais acentuadas. A faixa Norte corresponde à ruralidade e ao isolamento, denominadores comuns do enjaulamento cultural, em que o poder da Igreja ainda impede o questionamento do existente.
As televisões forneceram reportagens inquietantes, denunciadoras da manipulação efectuada não só por abades do tipo Leal da Câmara, mas, também, por bispos que falavam de Deus sem demonstrar fé alguma, e de liberdade individual exigindo, no entanto, absoluta submissão às imposições das homilias.
As reportagens apresentaram gente idosa, desguarnecida, analfabeta, a quem se não requeria a definição da responsabilidade pessoal mas, antes, se aplicava os mecanismos adequados à servidão.
É este país desejado pela Igreja? Historicamente, assim tem sido. Todavia, as coisas estão a alterar-se. E, notoriamente, a Igreja a perder o futuro e a desembocar em múltiplas incertezas.

Não houve partidos vencedores.
Mas houve uma violenta cisão entre católicos. E de um e de outro lado da dicotomia Esquerda-Direita registaram-se movimentos opostos, fenómeno mais do que evidente e que, no futuro, aumentará, atribuindo à sociedade diferentes sentidos.
Um declarado gosto pela decisão própria, distante de ascendências, de pressões e de slogans caracterizou o referendo. E as declarações muito claras de Paula Teixeira da Cruz e de Vasco Rato cunharam, por exemplares, o debate, na veemente crítica aos modelos sociais absurdos, repelentes e obsoletos.
Houve outras.
Contudo, as mais vivas, alicerçadas em formas de razão e de fácil identificação com conceitos actuais, procederam de áreas habitualmente tidas como de Direita.

Outro facto novo fundou-se no conceito segundo o qual começa a ser considerado apropriada a mobilidade política, como criação social em permanente desenvolvimento e transformação. Nesse campo, o discurso da Esquerda foi a monótona e cautelosa repetição do anteriormente dito, com um léxico sem criatividade nem grandeza.
Os jovens concentraram toda a energia na expansão e aperfeiçoamento das iniciativas em que se comprometeram, infiltrando a nossa taciturna existência social e despertando-nos para a transição que se adivinha.
Designando a diversidade, os resultados do referendo garantiram que nela reside a mais sólida garantia de resistência ao velho, de expulsão do anacrónico. Estatisticamente, parece provado que uma tradição só se institui como valor no desapego de toda a anterior tradição.

Não me parece acertado, porém, considerar que os resultados da consulta popular vão criar, imediatamente, uma mentalidade "progressista".
O indício foi o de que as noções canónicas não são intocáveis, e que se começa a reconsiderar (da parte de largo sector da juventude) o poder das posições de consciência. A coesão domesticada, assim como a uniformização artificial foram sacudidas pela ascensão de uma cultura individual, independente da orientação dos partidos e da escolástica da Igreja.

 

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