domingo, 11 de maio de 2008

POR FAVOR, NÃO GOVERNEM MAIS!

Alguém que eu muito amei e que aprendi a admirar ao longo da vida dizia que não há nada mais perigoso do que políticos sem ideias mas cheios de iniciativas. Cada vez mais me convenço de que é uma grande verdade, confirmada dia a dia pela observação da vida política portuguesa: não há nada mais assustador do que os decisores desatarem a tomar decisões que ninguém lhes pediu e cuja necessidade ninguém sente. Apenas porque acham que assim estão a mostrar serviço.

Alguém sente necessidade de um acordo ortográfico, de matar as consoantes mudas (excepto as que os brasileiros usam)? Alguém o reclamou, tirando os especialistas da língua da Academia das Ciências que, de outro modo, não teriam maneira de justificar a sua importância e as viagens de estudo que fazem ao Brasil e aos PALOP? Quem, de entre os que fazem da língua portuguesa a sua ferramenta diária de trabalho - escritores, editores, professores, jornalistas - pediu a normalização ortográfica com o Brasil, Timor ou a Guiné-Bissau? Porque hão-de então os sábios impor-nos a sua vontade e a sua expertise - a língua não é nossa?

E quem sentiu a necessidade urgente de mais auto-estradas a rasgar todo o interior já deserto, de um novo aeroporto para Lisboa, de um TGV de Lisboa para Madrid, outro do Porto para Vigo e de uma nova ponte sobre o Tejo para o servir? Quem foi que andou a gritar gastem-me o dinheiro dos meus impostos a fazer auto-estradas, pontes, aeroportos e comboios de que não precisamos? Porque razão, então, o lóbi das obras públicas, os engenheiros, projectistas, banqueiros e advogados que os assessoram, mais a ilusão keynesiana do primeiro-ministro, nos hão-de impingir o que não pedimos?

Fomos nós, porventura - ou os autarcas, os especuladores imobiliários e os empresários do turismo - que reclamámos a legislação de excepção dos Projectos PIN para dar cabo da costa alentejana e do que resta do Algarve? Foi nossa a decisão que a Comissão Europeia classificou como uma batota para contornar as normas de protecção ambiental e ordenamento do território?

Fomos nós que reclamámos a privatização da electricidade para depois a pagarmos muito mais cara ou que, inversamente, protegemos até ao limite o monopólio da PT nos telefones fixos, em troca de termos o pior e o mais caro serviço telefónico da Europa?

Fomos nós que nos revoltámos contra o queijo da Serra feito em mesas de mármore, a galinha de cabidela ou o medronho da Serra de Monchique? É em nome da nossa vontade e da nossa cultura que o ayatollah Nunes e a sua ASAE aterrorizam e enfurecem meio país?

Fomos nós que estabelecemos uma sociedade policial contra os fumadores, que quisemos encher Lisboa de radares para controlar velocidades impossíveis e ajudar a fazer da caça à multa o objectivo principal da prevenção rodoviária?

Fomos nós que concordámos em que os agricultores fossem pagos para não produzir, os pescadores para não pescar, as empresas para fazer cursos de formação fantasmas ou inúteis, alguns escritores para terem bolsas de criação literária para escrever livros que ninguém lê, os privados para gerir hospitais públicos com o dobro dos custos?

Fomos nós que aceitámos pagar por caças para a Força Aérea que caem todos sem nunca entrar em combate, helicópteros que não voam por falta de sobressalentes, submarinos que não servem para nada, carros de combate que avariam ao atravessar uma poça de água?
Fomos nós que decretámos que o Euro-2004 era um desígnio nacional e, para tal, desatámos a construir estádios habitados por moscas, onde jogam clubes que vegetam na segunda divisão ou se aguentam na primeira sem pagar aos jogadores, ao fisco e à Segurança Social? E é a nossa vontade colectiva que anda a animar uns espíritos inspirados que já por aí andam a reclamar um Mundial de Futebol ou mesmo uns Jogos Olímpicos?

Ah, e a regionalização, essa eterna bandeira de almas ingénuas ou melífluas, que confundem descentralização com jardinização? Esse último disparate nacional que falta fazer e com o qual nos ameaçam ciclicamente com o argumento de que está na Constituição, embora nós já tenhamos respondido, clara e amplamente, que dispensamos a experiência, muito obrigado?
Será que não se pode acalmar um bocadinho os nossos esforçados governantes? Pedir-lhes que parem com os projectos estruturantes, os “desígnios nacionais”, os “surtos de desenvolvimento”, os PIN, os aeroportos, pontes e auto-estradas, que deixem de se preocupar tanto com o que comemos, o que fumamos, o que fazemos em privado e o que temos de fazer em público? Eu hoje já só suspiro por um governo que me prometa ocupar-se do essencial e prescindir do grandioso: um governo que prometa apenas tentar que os hospitais públicos funcionem em condições dignas e que não haja filas de espera de meses ou anos para operações urgentes, que os professores e alunos vão à escola e uns ensinem e outros aprendam, que os tribunais estejam ao serviço das pessoas e da sua legítima esperança na justiça e não ao serviço dos magistrados ou dos advogados, que as estradas não tenham buracos nem a sinalização errada, que as cidades sejam habitáveis, que a burocracia estatal não sirva para nos fazer desesperar todos os dias. Um governo que me sossegue quanto ao essencial, que jure que não haverá leis de excepção nem invocados interesses nacionais que atentem contra o nosso património: a língua, a paisagem, os recursos naturais.

Mas não há dia que passe que não veja o eng.º Sócrates a inaugurar ou a lançar a primeira pedra de qualquer coisa. E encolho-me de terror perante esta saraivada de pedras, que ora ajuda a roubar mais frente de rio a Lisboa, ora entrega mais uma praia a um empreendimento turístico absolutamente necessário para o desenvolvimento, ora lança mais uma obra pública inútil e faraónica destinada a aliviar-me ainda mais do meu dinheiro para o dar a quem não precisa. Vivo no terror dos sonhos, dos projectos, das iniciativas de governantes, autarcas e sábios de várias especialidades. Apetece dizer: Parem lá um pouco, ao menos para pensar no que andam a fazer!

Além de mais, já não percebo muito bem o que justifica tanto frenesim. Já temos tudo o que são vias de transporte concessionado para as próximas gerações: auto-estradas, pontes, portos, aeroportos (só falta o comboio, mas os privados não são parvos, vejam lá se eles querem ficar com o negócio prometidamente ruinoso do TGV!). Já temos tudo o que é essencial privatizado (só falta a água e palpita-me que não tarda aí mais esse imperativo nacional). É verdade que ainda faltam alguns Parques Naturais, Redes Natura e REN por urbanizar, mas é por falta de clientes, não por falta de vontade de quem governa. Já faltou mais para chegarmos ao ponto em que os governos já não terão mais nada para distribuir. Talvez então se queiram ocupar dos hospitais, das escolas, dos tribunais. Valha-nos essa esperança.


Miguel Sousa Tavares

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4 Comments:

At 12 de maio de 2008 às 21:18, Anonymous Anónimo said...

Apesar de nem sempre apreciar os artigos e comentário do MST. Este hoje está divinal.Este é bem o país que temos governados pela corja reles.

 
At 12 de maio de 2008 às 22:07, Anonymous Anónimo said...

Ao ler este artigo lembrei-me que se nao seria acerca da Ponte Sor, Lisboa tem o aeroporto d eAlcochete, Ponte Sor tem o aeroporto da Agua Todo Ano, Deram o CCB ao Berardo, ca deram os Celeiros ao Prates, Lisboa tem drels, crils e Auto Estradas, Ponte Sor tem Rotundas feitas e refeitas carradas de vezes,No entanto na Ponte Sor fecham fabricas e nao se vislumbrta nada de novo.
B

 
At 13 de maio de 2008 às 03:29, Anonymous Anónimo said...

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com bom senso

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At 15 de maio de 2008 às 14:52, Anonymous JPG said...

O ordenamento é uma palavra vazia e o território é terreno de caça para os interesses e para quem os apoiar. O exemplo mais recente vem numa reportagem no Público de ontem: a nova Aldeia da Luz, uma espécie de andar modelo do edifício do Alentejo pós-Alqueva, está em vias de desertificação. Perante isto será fácil lançar as culpas para a incapacidade de uma comunidade em se adaptar a uma arquitectura e um estilo de vida algo estilizados a partir da aldeia original. Pode até mesmo, com alguma falta de originalidade, contar-se uma nova anedota sobre alentejanos. Mas a verdade é que a comunidade de 325 pessoas transferidas da velha para a nova aldeia ao que não se adaptou, muito concretamente, foi a um modelo e a uma qualidade de vida que o poder lhe prometeu sem jamais cumprir a promessa.

Não foi fácil convencê-los a aceitar que a velha aldeia, terra do seu pão e chão dos seus mortos, ficasse submersa, afogando a história mais a memória daquela gente. E aí entraram em força as promessas dos poderes. Devia ser criminalizado o incumprimento de promessas por parte do poder. Político que prometesse e não cumprisse ficava de quarentena na política e em estado de nojo para os negócios.

Em menos de seis anos, as infra-estruturas da Aldeia modelo da Luz entraram em colapso o que muito está a contribuir para a inadaptação dos habitantes. E às perguntas diz-se nada: as respostas e explicações traduzem-se num chorrilho de siglas sem rosto e sem palavra. As pessoas vão sendo empurradas para fora da aldeia. Quando sair a última, talvez a Aldeia da Luz receba enfim arranjos e dê lugar a um condomínio de luxo. Não lhe faltam, por perto, água e campos de golfe.

 

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