segunda-feira, 10 de janeiro de 2005

ENGRAÇADINHOS SEM GRAÇA



Ontem, pela primeira vez, ouvi uma anedota sobre a tragédia no sudeste asiático. O humor é, por definição, uma subversão da normalidade e, quando observado por esse prisma, sempre me pareceu um fenómeno interessante. No entanto, fazer humor e contar piadas sobre aquilo que aconteceu e que ainda está a acontecer a milhões de pessoas nos países afectados por esta catástrofe parece-me desumano. É o luxo daqueles que imaginam que o seu pequeno mundo nunca será destruído. É a ignorância daqueles que nunca perderam ninguém, que acreditam que nunca irão perder ninguém e que vêem o mundo como uma brincadeirinha, um jogo de playstation, uma elaboração teórica que nunca os afectará. É a total falta de empatia em relação ao sofrimento dos outros – uma das principais marcas psicológicas dos psicopatas.Aos poucos, tornámo-nos num país de engraçadinhos. Em tudo se promove a gracinha. Ter graça, aos poucos, tornou-se mais relevante do que ter razão. Como chegámos a isto? Mais cedo ou mais tarde, tornar-se-á claro que o máximo que os engraçadinhos poderão alcançar será serem engraçadinhos. Quando se tornarem um pouco mais adultos e a vida lhes mostrar o quanto é triste perseguir um objectivo tão vazio, chegará a hora de lamentar o tempo perdido. Para o bem dos próprios e para o bem de todos, espero que não seja demasiado tarde.Isto foi o que disse à pessoa que me contou uma anedota sobre a tragédia no sudeste asiático.
José Luís Peixoto

Etiquetas: