O QUE FAZER O RESTO DA SUA VIDA?
HÁ UM ANO, muitos portugueses acreditavam. Estavam
mobilizados para salvar o país. Pagariam, trabalhariam – salvariam. Hoje,
muitas pessoas só quererão salvar-se a si mesmas. A si, aos seus. A emergência
tornou-se individual. O Governo diz-se sem alternativas. Mas há empresas com
alternativas. Há pessoas com alternativas. Você pode ser uma pessoa com
alternativas. O que vai fazer?
Há a alternativa de baixar os braços. A alternativa de
levantá-los para gritar. A alternativa de virar as costas ou exigir de frente.
A alternativa, nas empresas, de despedir ou baixar salários. De cortar no topo
para manter a base. A alternativa, das pessoas, de emigrar ou ficar cá, de
passar a fugir aos impostos ou continuar a pagá-los, a alternativa de perder a
cabeça, de exigir cabeças ou de ter cabeça. A alternativa de atirar tudo para o
ar ou sentar com o raio da máquina de calcular à frente outra vez. A
alternativa de perder para sempre ou começar de novo. A alternativa de dar,
partilhar, lutar por quem não tem emprego, casa, dinheiro, pão – de quem não
tem alternativa.
O ORÇAMENTO do Estado tem tudo para correr mal. O rol de
desgraças está mais do que listado, a maior carga fiscal de sempre é um
tonelada em cima de algodão, não há justiça nem rumo, há impostos, impostos, impostos.
E há sobretudo a descrença de que vai funcionar. A certeza de que não vai
chegar, porque nada chega para encher um buraco negro no universo. Desde ontem,
há ainda mais. Há riscos.
O risco de execução do orçamento é tão grande que se vê do
céu à vista desarmada. Começando no défice deste ano, que está longe de estar
garantido, depois do "chumbo" à utilização da concessão da ANA. Para
2013, é incredível que as receitas de IRS aumentem 30%, o que pode repetir a
derrapagem nas receitas fiscais deste ano. Pior do que este ano, o PIB poderá
facilmente contrair mais do que 1%, mercê das recessões dos países para os
quais exportamos e dos "multiplicadores" agora descobertos pelo FMI.
O risco está pois nos dois lados da fracção. A probabilidade de conseguirmos
reduzir o défice para 4,5% em 2013 é, portanto, muito pequena. Quem nos dera
pensar o contrário. Porque desta forma, "isto" não chega.
"Isto" é a maior carga fiscal de sempre. É cortes
na saúde, na educação, é redução de salários e pensões, é rescisões de
contratos na função pública, é mais despedimentos nas empresas públicas, é
desemprego, falências, recessão. Se "isto" não chega, nada chegará.
MAS HÁ mais um risco. O risco político. Os desenvolvimentos
dos últimos dias mostram que o golpe palaciano movido pelo CDS e por parte do
PSD contra o ministro das Finanças falhou. Ficou tudo como estava antes das
maratonas no Conselho de Ministros. Vítor Gaspar não cedeu a Portas, como
noticiava o "Sol" na sexta, os escalões de IRS e a sobretaxa não
mudaram, como avançava o "Expresso" no sábado. Ficou tudo na mesma.
Gaspar venceu. E ficou só.
Vítor Gaspar está isolado no Governo. Ontem, cometeu ademais
a imprudência de ridicularizar o Presidente da República, ao dizer que o FMI
não assumiu erro algum na questão dos multiplicadores, que isso teria sido
apenas a interpretação do blogue de Paul Krugman. Cavaco Silva não é de
embarcar em blogues. E não precisou, Gaspar não tem razão. Em conferências
públicas na última semana, quer o economista-chefe, quer a a directora-geral do
FMI assumiram o erro. E três Presidentes da República – Cavaco, Soares, Sampaio
– falaram na última semana dizendo coisas diferentes mas dizendo uma coisa
igual: a austeridade está a matar a economia, a sociedade – e pode matar a
democracia.
Só um Governo forte e coeso aguenta este Orçamento e ele não
há. Portas parece querer sair. Gaspar está só, mas não está fraco. Gaspar manda
no Governo porque a troika manda no País. Quando Gaspar repete à exaustão que a
margem é quase nula, não está só a falar ao País. Está a falar para dentro do
Conselho de Ministros. Está a falar ao espelho.
É POR ISSO que o FMI tem de ser consequente e a UE tem de
ser responsabilizada. Só eles têm chaveiros para abrir estas arcas. Nos
próximos meses, a UE vai atravessar um caos político com a aprovação em pacote
de ajuda externa a um grupo de países, que deverá incluir Espanha, Chipre,
Eslovénia e a própria Grécia. Talvez esteja aí o bom-senso: Portugal ganha
tempo para submergir durante essa fase. E ganha "folga assistida" em
2013. Assistida pelas instituições internacionais nos mercados. Para que, como
disse ontem Vítor Gaspar, haja credibilidade acrescida e acesso ao
financiamento.
ESTAS são também alternativas, as de pressionar as
instituições comunitárias. Porque também elas têm uma alternativa: a
alternativa de ser Europa. A mesma alternativa que tem o Governo português, a
de negociar, pressionar, de provar que será melhor e será merecido.
É preciso inventar a esperança. Ela não morreu, apenas não
está no Governo que a devia erguer. Talvez depois do salvamento venha a
salvação. Talvez valha pena acreditar que um louco se atira mais de quatro
minutos em queda-livre e aterra ileso. Porque, sim, muitos têm alternativas. A
alternativa do conflito ou do compromisso. "O que vai fazer o resto da sua
vida?", tocava Bill Evans, que era um génio e editou um álbum chamado
"você tem de acreditar na Primavera". Agora é
Outono. E há uma
decisão que também é sua.
Pedro Santos Guerreiro
Etiquetas: Orçamento de Estado de 2013, Portugal Não Pode Ser um País de Bananas Governado Por Filhos da Puta, Portugueses Cada Vez Com Mais Fome






