terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

ESTE PAÍS NÃO É PARA VELHOS, NEM PARA CRIANÇAS, NEM PARA JOVENS, NEM PARA...,


Aqui há uns três meses, numa cerimónia pública de apresentação de um livro, as palavras de um prelado português impressionaram vivamente quem as ouviu: Cada vez que vejo um pobre a dormir na rua penso que nesse dia e por esse motivo o governo do país devia cair.
O que terá proclamado o bispo ao ler, nos jornais de ontem, os dados europeus sobre a pobreza infantil em Portugal?

Há estatísticas que trazem consigo tanto sofrimento e amargura de tanta gente indefesa que só mesmo corações empedernidos e sensibilidades sociais embotadas podem ficar indiferentes.
É o caso dos dados europeus que, uma vez mais, envergonham Portugal e deveriam rebaixar os titulares do poder em Portugal.

Só que os titulares do poder estão tão inebriados consigo próprios, tão enlevados com a sua própria propaganda, tão extasiados com os elogios das clientelas, tão cegos pelo brilho do dinheiro dos compartes e pelo sucesso dos interesses que não há miséria que os comova.

No último caso conhecido, os dados europeus revelam que Portugal é o segundo país europeu onde o risco de pobreza infantil é maior e mais duradouro.
A situação piorou desde o relatório anterior e hoje em Portugal já existe um número considerável de crianças que sofre de sérias carências alimentares.

Não consta que o Governo, de acordo com a vontade do bispo, tenha caído e nem é de prever que se tenha sentido minimamente incomodado.

As muito pobres crianças portuguesas – uma em cada cinco – se não têm pão que comam brioches, como dizia Maria Antonieta, e siga em frente a tilintante marcha dos interesses.


J.P.G.

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sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

PALAVRAS PARA OS DILECTOS

O tempo não tem sido cordial para os portugueses.
Muitos dos sonhos que acalentámos e das esperanças que atenuavam as nossas desgraças têm sido rudemente liquidados.
Mas somos um grande povo. E tenho muito orgulho em lhe pertencer e em ele de mim fazer parte.
Conheço a nossa terra de lés-a-lés.
Vou aonde me pedem para ir, viajo para sítios que os Governos ignoram.

Falo com pessoas de todos os graus intelectuais; ouço-os com a atenção minuciosa que todas as experiências merecem e exigem. Gosto muito desta gente, a minha gente.
Ofereceram-me um legado sem preço, e nada pediram em troca.

Desculpem, os Dilectos, estas modestas confissões de um homem que nunca se serviu de metáforas para exprimir sentimentos.
É verdade que tenho alguma dificuldade em adaptar-me a este tempo, no qual o pragmatismo dissimula, amiúde, a mais vil de todas as capitulações.
Assistimos, diariamente, a essas deficiências de carácter.

Estamos a fechar o ano e tudo indica que outros mais ferozes anos se adivinham. A mentira adquiriu carta-de-alforria, a trafulhice sai impune, os abjurantes são premiados, os traidores aplaudidos, os subservientes obsequiados, os incompetentes promovidos. A indiferença reina. A abulia aparenta ser endémica.

O Governo não sabe, ou não quer, resolver os problemas da esmagadora maioria dos portugueses. A harmonia social é aparente. O medo impõe regras, entre as quais o controlo das pessoas nos seus naturais anseios contraditórios. Poucos desobedecem. O desmesurado poder económico, que corrói a prática da política, transforma cidadãos em servos. O Governo só demonstra um contentamento demencial. A destruição da sociedade dual parece não o afectar. Pelo menos, não dá indícios de preocupação. O frio autoritarismo de José Sócrates tinge-se com o eufemismo de determinação. Ele mesmo diz que a rua não o afecta, as manifestações são democráticas mas não o demovem.

A integridade, a compaixão, a indulgência e a dignidade estão reduzidas a pálidas manifestações de pequenos grupos, que o vozear pós-moderno classifica de anacrónicos. Historicamente, vamo-nos abaixo: somos incapazes que dar a volta às coisas. Basta ler qualquer grande autor de qualquer geração anterior. Vejam os Dilectos como o Abade de Jazente mimoseava a pátria, no século XVIII. É um soneto para recortar, pela actualidade que comporta:

Eu bem sei, Portugal, que tu não queres
Que ninguém te descubra as tuas faltas;
Tu folgas de prazer, de gosto saltas;
E disto as consequências não inferes.

Vês homens misturados com mulheres
Em banquetes, em jogos, danças altas;
Elas na casquilhice mui peraltas,
Eles na chibantice, todos eres.

Ah!, pobre Portugal! Muito me espanto;
No que noto no teu contentamento,
Devendo ser em ti contínuo o pranto.

Eu bem sei que o respeito é muito atento;
Mas sempre há-de cair, quem não for santo,
Ou por obra, palavra ou pensamento.

Alexandre O’Neill, decisivamente influenciado pelo Abade de Jazente, foi, também, porta-voz do mal-estar português e, como a esmagadora maioria de nós, acreditou ser possível a modificação de mentalidades, quando do 25 de Abril. A decepção assaltou-o, pouco tempo depois. Eu próprio criticava o que entendia ser o seu radicalismo desnorteado. Não tardei em compreender quanto o imenso poeta de Um Adeus Português tinha razão de sobra. Uma casta de oportunistas e de aventureiros assenhoreou-se do poder, enquanto todos nós nos envolvíamos em lutas partidárias que haviam já perdido o conteúdo ideológico. Os casos Cavaco, Guterres, Durão, Santana, Sócrates decorrem da deformação da História e da decadência das convicções.

Temo-nos arrastado, penosamente, assistindo ao descalabro de um país que consente injustiças gritantes e transforma a mediocridade em valor impositivo. O respeitinho é muito bonito é uma fórmula nacional que lacra o nosso destino e faz de nós a massa informa que se não revolta. Cada ano que passa, cada ano pior.

Quanto custa um rico a um País?, perguntava Garrett, no século XIX, nas admiráveis Viagens na Minha Terra, que pouquíssimos lêem, manifestamente iletrados. Quanto custa? Bom: basta olhar em derredor. Basta atentar nessa obscenidade das reformas que a si próprios atribuem os gestores de tudo. Aquele famoso caso de um engenheiro muito mediático, que, durante seis meses, exerceu funções na Caixa Geral de Depósitos, foi mandado embora e recebe uma de 3 600 contos mensais, não é único. Leiam o pensão Diário da República e indignem-se. Vemos morrer, nos jardins do desespero, os nossos velhos, que trabalharam uma vida e auferem por mês pouco mais de 60 contos. Há dias, o presidente do Grupo Jerónimo Martins, dizia, neste jornal, que não há motivação para quem recebe um salário mensal de 400 euros. Bom: há largos milhares de compatriotas que sobrevivem com menos de 200. Posso fornecer uma lista.

De facto, o tempo não tem sido cordial para os portugueses. E a ausência de verdade ainda força mais as negras cores. Omite-se, mente-se em nome da manutenção de uma casta no poder. Os meios de comunicação não nos informam devidamente. E os compromissos assumidos são sempre pagos. É fácil verificar quem, nos últimos tempos, tem passado dos jornais, das televisões e das rádios para o exercício de funçanatas em poderosas empresas. Em numerosos casos, o jornalismo deixou de ser um acto social para constituir um meio de se defender a vidinha. O salve-se quem poder converteu-se numa divisa de comportamento. Os exemplos vêm de cima.

Dilecto: não tome a mal estes desabafos. Apesar de tudo, está em frente de um homem que não perde a esperança, que nunca perdeu a esperança.

Ergo a minha taça em seu louvor e honra. Bom Natal, Dilecto!


B.B.

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