segunda-feira, 31 de janeiro de 2005

É FIM DO MUNDO



As galinhas têm dentes. Os porcos voam. Santana Lopes defende a família tradicional.
Rui Tavares

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sexta-feira, 28 de janeiro de 2005

NÃO BASTAVA TUDO O QUE JÁ TINHA ACONTECIDO, AGORA MAIS ESTA!!!



«Até à passada quarta-feira, Pedro Santana Lopes era alvo, segundo o sistema informático do Ministério das Finanças, de um processo de execução fiscal. Em causa, estavam dívidas relativas ao IRS de 1999 e ao IVA que este tinha cobrado em 2003 mas que ainda não tinha entregue ao Estado. Contactado há dois dias, o gabinete do primeiro-ministro respondeu apresentando uma certidão pedida ontem na Direcção-Geral dos Impostos, que nega dívidas às finanças, mas não desmente que este tenha tido dívidas ao fisco recentemente.

Segundo os documentos consultados por A Capital, bem como diferentes fontes do Ministério das Finanças, até há dois dias atrás pendiam sobre Pedro Santana Lopes dois processos distintos de execução fiscal. O mais antigo referia-se a uma dívida relativa à falta de pagamento do IRS de 1999. Ao todo, 8 012,29 euros que, após um novo cálculo dos rendimentos do actual governante nesse ano feito pelas finanças, deveriam ter sido pagos até Agosto de 2003. Valor que, até à passada quarta-feira, ainda não tinha sido dado como liquidado no sistema informático das Finanças.

Especialistas na matéria explicam ainda que, face ao actual sistema informático do Ministério, é possível que esse pagamento já tivesse sido efectuado, mas não há mais do que um ou dois meses. Ou seja, mais de um ano depois do prazo estabelecido pelas Finanças, quando Santana Lopes já era primeiro-ministro.»

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quinta-feira, 27 de janeiro de 2005

HÁ PRATICAMENTE 100 ANOS


Há praticamente 100 anos, as causas defendiam-se com todo o empenho e vigor, enfrentando-se e afrontando-se adversários.
Os textos não eram subliminares, não tinham retorno possível, os bois eram chamados pelos nomes, eram bem escritos pelos (próprios) autores que eram processados e julgados a seguir, defendidos na barra pelos amigos e correligionários políticos, pagavam multas e não se retratavam ou justificavam.
Hoje, quase 100 anos depois, ainda são publicados, o que revela, para além do interesse histórico-político, valor e a qualidade literária. O artigo de que ora se fala, foi escrito por Guerra Junqueiro no jornal “A Voz Pública” em 2 de Dezembro de 1906, e está publicado pela Lello & Irmão – Editores na colectânea de escritos políticos do autor “Horas de Combate”.


2 de Dezembro de 1906

Todas as tiranias são ferocidades, e acusam portanto, na máscara do homem, a descendência do monstro.

Há tiranias dominadoras e fulgurantes, de olhos de águia, e tiranias lívidas, obliquas, de olhar de hiena. Ambas trágicas: um Bonapartre ou um Filipe II.

A tirania do Sr. D. Carlos procede das feras mais obesas: do porco.
Sim, nós somos escravos de um tirano de engorda e de vista baixa.

Que o porco esmague o lodo, é natural. O que é inaudito é que o ventre de um porco esmague uma nação, e dez arrobas de sebo achatem quatro milhões de almas!

Que ignomínia!

Basta. Viva a República, viva Portugal!


C.

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CRISE DE REPRESENTAÇÃO


Os primeiros produtos mediáticos de uma nova geração política estão no poder dos dois partidos mais importantes. Hipervalorizando as emoções, a televisão deu-nos Santana Lopes, entre o comentário do futebol e o mundo das "caras". Hipervalorizando a imagem, a televisão fez de Sócrates o seu par, ou seja, seu igual. É verdade que ambos já existiam antes de serem "feitos" pelos "media", Lopes em particular. Mas o par, a junção que marcou o destino de ambos, foi feita na televisão, assim como a promoção que os lançou para os cargos cimeiros da governação.

Mas o que também está a emergir é um desfasamento entre a produção mediática destas figuras-imagens e as exigências políticas e sociais presentes no mercado eleitoral que elas deixam insatisfeitas.
O mecanismo do "sabonete-Presidente", atribuído erradamente a Rangel, parece ainda ser imperfeito, o que é sinal de que, ou a mediatização da sociedade é menor do que se imagina, ou então que em momentos de crise - e os portugueses encontram-se numa fase depressiva do seu ciclo euforia-depressão - não é inteiramente eficaz.
O sinal dessa insatisfação entre o produto oferecido e a procura eleitoral é que, para muitos portugueses que votam habitualmente e com um mínimo de interesse e participação cívica, a panóplia de escolhas do dia 20 de Fevereiro é insatisfatória.
Não sei, e só se saberá na análise dos resultados do voto, se esta crise é estrutural ou conjuntural, mas os sinais de uma crise de representatividade estão à vista de todos, numa campanha sem emotividade, sem esperança, em que a abominação do presente se faz sem verdadeira motivação para a mudança.

O epicentro dessa crise de representação está no PSD de Santana Lopes.
Não só muitos eleitores tradicionais do partido parecem relutantes em votar Lopes, como tudo indica que os eleitores centristas que oscilam entre PSD e PS, que deram maiorias ao PSD, de há muito fugiram sem entusiasmo para o PS, ou para um espaço de perplexidade que nenhum partido ocupa.
Já chamei a atenção para que o aparecimento de um partido social-democrata moderado, entre o centro e o centro-esquerda, tinha possibilidades fugazes, mas reais, de aparecer para agregar eleitores que se sentem nestas eleições afastados por Lopes e não atraídos por Sócrates.
A falta de fluidez do nosso sistema político e a rigidez do sistema eleitoral tornaria suicidária a prazo essa pretensão e por isso as forças moderadas e reformistas favorecem a acção no interior dos partidos existentes.

O facto de no PSD se tornar cada vez mais evidente que a liderança de Santana Lopes é (foi) um epifenómeno de trágicas consequências para a credibilidade do partido manifesta-se numa campanha em que mesmo os candidatos distritais evitam a todo o custo serem associados à liderança e discutem publicamente a sucessão dentro do partido.
A liderança de Santana Lopes, que sempre apostou no culto de personalidade e na capacidade mágica e solitária de este ganhar todas as eleições, assume também a responsabilidade, se houver uma derrota - e uma derrota do PSD é perder as eleições, não é impedir que o PS tenha maioria absoluta.
Neste contexto, o PSD de Santana Lopes tem dificuldade em polarizar os votos na sua área política, disparando em todos os sentidos, contra o Presidente da República, contra o Bloco de Esquerda (gastando um cartaz para o fazer), contra as empresas de sondagens (gastando outro cartaz), sem direcção estratégica ou alvo principal.
Esta confusão permitiu ao PP uma campanha agressiva que é toda pensada para ocupar o espaço do PSD.
É cedo para se saber se esta campanha resultará, mas pelos seus temas e palavras de ordem, a começar pela de "voto útil", o adversário do PP não é outro senão o PSD. O amolecimento do eleitorado do PSD, volatilizado no centro-esquerda, pode também sofrer no centro-direita pela competição com o PP.

O que o PSD afasta o PS não atrai.
O PS está numa posição privilegiada de ser o partido que todos se convenceram que vai ganhar as eleições.
Beneficiando da tendência para as eleições serem um plebiscito sobre o primeiro-ministro, o líder do PS é naturalmente promovido, mesmo sem dar provas da sua capacidade para o exercício do cargo, ou tendo que suportar um escrutínio severo das propostas do PS.
Mas, se o caminho do PS parece apontar para uma vitória, o objectivo de uma maioria absoluta está longe de ser adquirido.
A memória do guterrismo é ainda viva e a vacuidade da acção política de Sócrates não mobiliza fora do aparelho e do eleitorado mais seguro do PS. No entanto, as pressões para um voto útil à esquerda no PS são mais intensas do que na direita no PSD.
A minicrise na área de influência do BE, à volta das declarações reaccionárias de Louça no debate com Portas, é também um exemplo de como o actual leque de opções políticas está sobre tensão mesmo nos seus extremos.

Neste segundo balanço da campanha eleitoral não parecem alterados os pressupostos do primeiro que publiquei no PÚBLICO há cerca de três semanas. Continua a verificar-se a inexistência de uma forte bipolarização, acentua-se a previsível conflituosidade entre o PSD e o PP e, se há algo de novo, é a constatação de que a entrada de Santana Lopes na campanha não parece ter mudado a situação. A menos de um mês das eleições os dados parecem estar lançados.
José Pacheco Pereira

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sexta-feira, 21 de janeiro de 2005

A MENTIRA...



Não é verdade que a receita fiscal tenha aumentado em 4% de 2003 para 2004, como Santana Lopes anda a anunciar nos seus comícios; e em português o que não é verdade é, em princípio, mentira. e quem diz uma mentira ou está mal informado ou é mentiroso; bem, neste caso também temos que colocar a hipótese de estar a dizer mais uma asneira.

De 2003 para 2004 a receita fiscal sofreu uma redução de 05%, isto sem considerar o crescimento económico e a inflação, para além da não actualização das taxas do IRS e outros truques que se saldaram num aumento dos impostos.

O governo não concorda?
Então que publique a "Execução Orçamental" que é habitualmente divulgada pela DG do Orçamento no dia 15 de cada mês.
R.

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PIOR É SEMPRE POSSÍVEL


Rui Pimentel / VISÃO

1. O Presidente Bush iniciou ontem a sua festa de tomada de posse, que vai durar três dias, custar 7,5 milhões de contos, mobilizar seis mil agentes de segurança e exibir o que os americanos julgam ser o "glamour", em nove bailes de gala.
Face à controvérsia com o custo da "inauguration", extensiva aos próprios republicanos, Bush resolveu as coisas à sua maneira: um jantar de luxo, "à luz de velas e com a presença do Presidente", onde cada entrada custa cerca de 15.000 euros. Inscreveram-se para jantar representantes de empresas de todos os sectores até aqui beneficiados pelo Presidente - indústrias de segurança e de armamento, petrolíferas, empresas que saíram a ganhar milhões com o levantamento de restrições ambientais - e mais aqueles que confiam vir a ser beneficiados com as políticas do próximo mandato: as seguradoras, que farão um grande negócio com a privatização da segurança social, as farmacêuticas, que ganharão com o abandono de regras de assistência médica, e os bancos, em nome de todos os sectores que irão poupar fortunas com a anunciada maior descida de impostos para as empresas da história americana, financiada com o fim de políticas sociais de apoio aos pobres. Num imenso festim, os mais ricos dos Estados Unidos celebram assim, sem pudor algum, a reeleição do Presidente que promete torná-los ainda mais ricos com o dinheiro tirado aos pobres ou com as aventuras do tipo iraquiano.

O lado positivo desta história é a constatação de que é sempre possível descer mais baixo no descaramento político. E que o que faz a força da democracia é o facto de ela ser o único sistema político em que o povo pode livremente votar contra si próprio.

2. Há qualquer coisa que vai descolando aos poucos na imagem de José Sócrates. Não é fácil de definir, mas paulatinamente vai-se instalando a sensação de que ele vai vencer, não por convencer, mas por exclusão de partes. Sócrates ganhou uma imagem positiva enquanto governante nas áreas do consumidor e do ambiente. Deixou a ideia de alguém firme nas suas convicções, na forma como geriu o projecto da co-incineração contra o politicamente correcto. E, contra muitos bem-pensantes, deixou a ideia, na disputa interna pela chefia do PS, de ser o único dos socialistas que tinha algumas propostas moralizadoras pensadas para o país, como a proposta de pôr fim ao sistema de financiamento das autarquias que privilegia quem mais constrói e quem mais destrói a paisagem. Nos tempos que correm, em que, por exemplo, a um mês das eleições, há um governante que tem o despudor de anunciar um TGV, duas novas travessias sobre o Tejo, em Lisboa, e creio que uma rampa de lançamento de foguetões espaciais em Bragança, eu já me dou por satisfeito se ouvir um candidato a primeiro-ministro propor apenas meia dúzia de coisas para fazer em quatro anos. Mas que sejam propostas sérias, necessárias, exequíveis e de aplicação garantida, contra "lobbies" e interesses.

José Sócrates já reafirmou nesta campanha a proposta de rever o método de financiamento autárquico: espero, pois, que seja a sério e para impor ao poderosíssimo "lobby" camarário. Manteve-se aparentemente firme na co-incineração, dispondo-se, todavia e bem, a aproveitar algumas soluções correctivas anunciadas pelo Governo de Durão. Garantiu, e bem, que não mexeria nos impostos durante a presente execução orçamental e antes de conhecer o verdadeiro estado das finanças públicas - nisso se distinguindo, desde logo, de Santana Lopes, que, 15 dias depois de chegar ao Governo, já prometia descer impostos e subir salários e pensões, para acabar afinal a expropriar as reservas dos pensionistas da Caixa Geral de Depósitos. Prometeu criar 150.000 empregos em quatro anos, tantos quantos a actual maioria perdeu nos seus dois anos e meio de desvario. E disse não a algumas coisas importantes, tais como à golpada de relançar a regionalização na próxima legislatura, sem referendo nem nada, ou a proposta, de alguns interesses mal disfarçados, de nos candidatarmos ao Campeonato do Mundo de futebol ou aos Jogos Olímpicos, para acabar de vez com a viabilidade financeira do Estado.

Em tudo isso, o mais do que provável futuro primeiro-ministro esteve bem e esteve seguro, não cedendo à demagogia e ao facilitismo. Os problemas estiveram algures, a começar pela fraca gente que o rodeia, de candidatos a deputados, a porta-voz e candidato a ministro da Economia. Faz impressão vê-lo apoiado em todos os suspeitos do costume, gente que, por uns ou outros motivos, perdeu qualquer margem de credibilidade no país. Faz impressão e desalento: esperam que votemos neles, outra vez?
Depois, e por culpa da imbecil legislação eleitoral que temos, Sócrates viu-se forçado a entrar cedo de mais em campanha eleitoral. E, onde quer que vá, dia sim, dia sim, estendem-lhe um microfone e ele tem de falar. Se não fala, é acusado de fugir à questão; se fala, é acusado de falar demais e estar sempre disponível para produzir frases ocas para os telejornais. É difícil saber como contornar esta armadilha, mas a verdade é que, falando muitas vezes, ele acaba por não dizer nada de substancial e passar a imagem de alguém que apenas tem ideias genéricas sobre os assuntos e nada de concreto em relação ao que é urgente: como conter o déficit, onde cortar nas despesas, como reformar a administração pública, como disciplinar financeiramente as autarquias e meter na ordem o já intragável Alberto João Jardim, como e até onde prosseguir com a urgente reforma da justiça, que, verdade seja dita, pareceu finalmente ter-se iniciado com o actual ministro, Aguiar Branco.

Já alguém disse e com razão, que, para ganhar as eleições, bastava a José Sócrates ficar calado: com a quantidade de asneiras ditas ou feitas diariamente por Santana Lopes e o seu séquito, até um surdo-mudo ganhava as eleições. Mas o problema de Sócrates não é o de ganhar as eleições, nem sequer o de as ganhar com maioria absoluta. O problema é o de mobilizar um país descrente e desmoralizado, depois de ter visto dois primeiros-ministros abandonarem sucessivamente funções - um porque se fartou, o outro porque arranjou melhor - e ter visto suceder-lhes alguém cuja diletância, irresponsabilidade e incompetência ultrapassou tudo o que prometia a força humana.

Até agora, José Sócrates não conseguiu entusiasmar uma alma que fosse. Talvez seja a sua maneira de ser, talvez ele seja mais reflexivo que intuitivo, mais racional do que emocional. Ou mais programado do que convicto. O que, acima de tudo, lhe tem faltado é a capacidade de passar convicções, de entender o ruído surdo do país, a vontade de mudança genética dos governantes e da própria forma de fazer política, o gosto do risco, do rasgo, de outros horizontes. Dou um exemplo: Sócrates não resistiu a ir a Madrid colher a bênção, para fins eleitorais, de Zapatero - um gesto clássico do provincianismo político português. Zapatero tinha mais em que pensar, no momento em que em Espanha se vive a hora de todas as decisões sobre a autonomia basca, com o plano de ruptura de Ibarretxe e a indecifrável oferta de negociações da ETA: concedeu a Sócrates nada mais do que uma humilhante meia hora de audiência protocolar, o suficiente para gravar umas imagens para os telejornais de cá. Ficámos sem saber o que foi Sócrates fazer à Moncloa, para além da "photo-oportunity". À saída da audiência, Sócrates poderia ter tentado compor as coisas, disfarçar, dar-se um ar de estadista, mas tal não lhe ocorreu como necessário: nem uma palavra sobre a Espanha, as relações luso-espanholas, nada... apenas umas declarações sobre Santana Lopes!

Falta ainda um penoso mês. Um mês desta patética campanha, em que o primeiro-ministro acha que passar os dias em inaugurações e nomeações de última hora é sinal de que está a trabalhar, e o líder da oposição acha que a alternativa é falar muito sem dizer nada. José Sócrates tem um mês - não para derrotar Santana Lopes, que se derrota a si próprio cada dia que passa, mas para convencer os eleitores de que vale mais votar no PS do que votar em branco. Entre o nada e o vazio sempre existe uma diferença.
Miguel Sousa Tavares

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quinta-feira, 20 de janeiro de 2005

A NOSSA CLASSE POLÍTICA VISTA DO BRASIL

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segunda-feira, 17 de janeiro de 2005

NO DOMINGO PASSADO...


Se calhar sou mesmo eu que não gosto do Dr. Lopes mas há qualquer coisa de insólito quando um primeiro-ministro, demitido é certo mas no exercício de funções, e líder partidário convoca, num domingo, uma conferência de imprensa para atacar o líder da oposição, costuma ser ao contrário. Dito isto, e passe a espuma, aguarda-se pacientemente a divulgação dos programas de governo do PS e do PSD...
Manuel

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ENTEVISTA DO PEDRO MIGUEL...


O primeiro-ministro e líder do PSD concedeu uma entrevista ao Jornal de Notícias, este fim de semana. Descontados os habituais "estados de alma", Santana aproveitou o ensejo para lançar alguns "recados" ao dr. Portas. Lembrou-lhe que, nas autárquicas de 2001, ele foi "o herói da esquerda" e que agora aparece como o depositário de todas "as virtudes". Por contraste com ele próprio, presume-se. Por seu lado, Portas pôe hoje na rua o seu cartaz onde aparece entalado entre as palavras "voto útil". A devastação provocada pela inépcia destes últimos meses e o "balanço" fortemente negativo que é forçoso fazer da experiência da coligação, não deixam praticamente nenhuma margem para a "retoma eleitoral". Isto quer dizer que o PSD de Santana e o CDS/PP vão disputar basicamente o mesmo eleitorado. Em linguagem chã, têm que se enfrentar e opôr. Portas tem feito campanha à custa da sua "imagem" de ministro de Estado e da Defesa, repetindo à exaustão os seus "méritos" e as suas "medidas", reanunciadas vezes em fim. Tem a crédito a distância prudente a que se colocou das infantilidades do seu parceiro maior. Lopes naturalmente já percebeu o que é que isto quer dizer. Acontece que, nesta matéria, nenhum deles é particularmente "virtuoso". Preparemo-nos, pois, não para uma "campanha alegre", mas para uma campanha sórdida onde cada um tentará mostrar que "a minha virtude é maior que a tua".
J.G.

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sexta-feira, 14 de janeiro de 2005

UM HOMEM PRECISA DE CHORAR


O candidato a primeiro-ministro puxou ao sentimento esta quarta-feira à noite.
Antes de Santana entrar na sala, os sociais-democratas presentes assistiriam a um vídeo em que o líder aparece abraçado à família, a dançar com militantes, a ser beijado e a chorar.
As imagens foram acompanhadas por uma música em que o cantar diz que, «Um homem precisa de chorar». Santana Lopes terminou o seu discurso reafirmando que vai ganhar as eleições «por amor a Portugal».Pedro Santana Lopes acredita. «Apesar de tudo o que nos têm feito, vamos ganhar as próximas eleições», prometeu o líder do PSD esta quarta-feira à noite. E deixou um recado: «Não tirarei qualquer ilação vingativa da nossa vitória».O primeiro-ministro demissionário mostrou-se confiante esta noite, apesar de ter assumido que tem «pouco tempo para campanhas», já que tem de «continuar a ser primeiro-ministro».
Mas o «tempo que vamos ter, vai chegar para ganhar», disse o líder «laranja» na apresentação formal dos cabeças de lista do partido na Gare Marítima de Alcântara em Lisboa. [ler o resto aqui]
A mim também me dá vontade de chorar, e de corar, de raiva e vergonha.
Já só faltam 40 dias.
Manuel

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terça-feira, 11 de janeiro de 2005

O PPD/PSD LANÇA NOVO CARTAZ











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A TRAGÉDIA DO HOMEM A LUTAR CONTRA AS MARÉS




Pode um "outdoor" de campanha encerrar a tragédia de um candidato? Pode. O cartaz do PSD assume, numa frase singela, o destino de Pedro Santana Lopes: é candidato a primeiro-ministro "contra ventos e marés", contra o líder histórico, Cavaco Silva, e outras figuras iminentes do seu partido, contra o Presidente da República que o despediu por falta de credibilidade, contra as sondagens que o arrasam na praça pública, contra os amigos que o acusam das mais desvairadas malfeitorias.

"Contra ventos e marés. A favor de Portugal" é uma frase de resistência e nem por isso das mais mobilizadoras. Uma frase de resistência para apelar ao voto, no actual contexto político, limita-se a comprovar o que Lopes pede ao eleitorado do PSD: que resista, que resista o que puder, que resista às duras provas dos imponderáveis ventos e das imprevisíveis marés. "A favor de Portugal" não acrescenta nada (nem era um cartaz de Santana Lopes se não estivesse lá a palavra Portugal).

Lopes está exangue e sabe que o seu eleitorado se encontra exangue. Aliás, o próprio assumiu essa luta pela resistência, quando, na assinatura do acordo com o CDS, pediu aos votantes do PSD que continuassem a votar no seu partido. Os estrategas de campanha não podem pedir o céu ou a maioria absoluta sem dar vontade de rir, mas é duvidoso o modo como optaram por deliberadamente colar o seu candidato ao "bebé na incubadora" em que os "irmãos mais velhos" dão "murros e pontapés" em vez de carícias. A vitimização pode ser uma boa estratégia só até ao ponto certo - aquele ponto em que o que se vitimiza ainda tem suficiente força para recuperar o amor de alguém (do eleitorado, no caso).

José Sócrates, depois de pedir para "voltar a acreditar", assegura que "agora, Portugal vai ter um rumo". O desafio de "acreditar" é bom num contexto presente de crise e derrocada das crenças na boa governação. O eleitorado, presume-se, estará disponível para "voltar a acreditar" e isso implica, conforme a sugestão do cartaz, a alternância. Mas o PS confronta-se com uma questão problemática: "Acreditar em quê"? Acreditar que o guterrismo reciclado por um José Sócrates já de cabelos brancos que traz um futuro melhor? Mas, agora, Sócrates pede ao eleitorado para acreditar que tem um "rumo". É sintomático o recurso a uma palavra do léxico cavaquista. O actual secretário-geral do PS teve necessidade de repescar, eventualmente para se distanciar das constantes acusações de "falta de rumo" do guterrismo, o famoso "rumo" popularizado por Cavaco Silva. Pode ser que o eleitorado esteja disposto a "acreditar" que Sócrates tem "um rumo", mesmo que não saiba ainda muito bem qual.

"Mais votos para mudar a sério", pede o rosto de Jerónimo de Sousa. Para a CDU, "mudar a sério" não é, obviamente, com o PS e isso tenta a coligação explicar, campanha eleitoral após campanha eleitoral, há muitos anos. O cartaz é uma reciclagem do discurso tradicional para as legislativas da coligação que integra o PCP. A novidade está em Jerónimo, exclusivamente em Jerónimo, na imagem fortíssima de Jerónimo que enfrenta pela primeira vez as eleições na pele de secretário-geral do PCP. E é essa imagem que está em causa para determinar se é possível inverter "a sério" o declínio da CDU.

O Bloco de Esquerda - que não tem líder a quem mostrar o rosto - é o único partido a optar nesta fase pela campanha negativa, lembrando "os trabalhos" de Santana e Portas, de forma jocosa. A campanha acaba por ser complementar à do PS: o Bloco de Esquerda recorda o "odioso" do Governo, o PS fala para o centrão sem pôr a mão na massa. Se daqui sai um acordo pós-eleitoral talvez seja, nesta fase, apressado concluir.

Portas não gostou da fotografia

Dos cinco partidos com assento parlamentar, só o CDS ainda não colocou nas ruas um cartaz. E não o fez porque o líder do partido, Paulo Portas, não gostou da fotografia. Na semana passada, o presidente do CDS e ministro da Defesa esteve a tirar fotografias para o "outdoor", mas, quando viu o resultado final, não gostou da sua imagem e vai repetir a sessão fotográfica. A campanha do CDS está a ser feita pela mesma empresa que fez os cartazes do "Eu fico", nas autárquicas de 2001, em Lisboa. E.L.

Ana Sá Lopes

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quarta-feira, 5 de janeiro de 2005

POBRE PAÍS, O NOSSO...



O QUE É O PSD SEM…
O que é o PSD sem nenhum dos seus líderes anteriores a Santana Lopes?
Sem Rui Machete, Marcelo, Durão Barroso, Fernando Nogueira, Cavaco Silva.
O que é o PSD sem nenhum dos seus ministros das Finanças dos últimos governos até ao de Santana Lopes, que era do PP?
O que é o PSD sem nenhum dos seus ministros de relevo, dos Assuntos Parlamentares, da Economia (excepção para Álvaro Barreto), etc., etc. até aos governos de Santana Lopes?
O que é o PSD sem nenhum dos seus lideres parlamentares até à última legislatura (com excepção de Duarte Lima)?
O que é o PSD sem as suas figuras públicas que ainda conseguem falar para a universidade, para os jovens, para os empresários, para os sectores mais dinâmicos da sociedade?
O que é o PSD sem os self made man que o fizeram, em vez dos assessores, dos mil e um detentores de cargos de nomeação estatal ou autárquica, sem profissão que não seja o partido?É o PSD que jantou em Lisboa com Santana Lopes.
A reportagem da Lux é elucidativa: meia dúzia de actores, respeitáveis é certo, mas a milhas do que é o teatro de hoje, artistas de variedades, socialites, fadistas…
Eu sei que muitos militantes lá estiveram com dedicação ao seu partido e a Portugal.
Mas deviam olhar à volta e pensar como é que se chegou aqui, que tipo de selecção está a ser feita.
José Pacheco Pereira


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quinta-feira, 30 de dezembro de 2004

COM A CARTEIRA OU COM O CORAÇÃO? (VISTO DO LADO DO PSD E DO PP)


Rui Pimentel / VISÃO


O PSD deseja a bipolarização na próxima campanha eleitoral, mas parece não saber como a conseguir e encontra-se com limitações muito significativas para funcionar como um pólo de atracção activo para o eleitorado. Pelo contrário, parece estar mais a ser um pólo de rejeição do que de atracção. As limitações do acordo com o PP têm um papel na dificuldade de bipolarizar, impossível de fazer sem pretender sugar todos os votos anti-PS, o mesmo terreno em que o PP vai actuar.

Esta dificuldade vem também do estado actual do partido, que a tendência para a unipessoalização reforça. Esta tendência acentua a fragilidade do PSD e castra a capacidade de pensar a política fora dos jogos locais e da realidade autárquica, as únicas sobre as quais existe experiência na direcção partidária. O partido está debilitado, entregue a dirigentes de secção promovidos a presidentes de distritais, que, desde que entraram na JSD, têm carreiras de profissionais políticos. Pensam que exagero? Publiquem e analisem os currículos, retirem-lhes os cargos públicos de nomeação governamental, ou de acesso por listas em lugares electivos e secundários - vereadores, membros de assembleias municipais, deputados do meio da lista - e vejam o que sobra de "vida" profissional. Estas pessoas nas direcções partidárias fazem aquilo que sempre souberam fazer: preservar o seu "espaço", que é também o seu emprego, para o que aliás não precisam necessariamente de "ganhar", basta-lhes permanecer numa quota razoável de poder e de cargos, que o estatuto de um partido nacional como o PSD tem garantidamente.

A tendência é para cada vez mais o partido ficar dependente da liderança e do pequeno grupo de estrita confiança que a apoia. Este é um dos problemas mais graves de partidos como o PSD e o PS, onde o caminho para a desertificação é idêntico. Notoriamente, não chega para uma direcção nacional de um grande partido, que tem que defrontar a condução do país, falar para milhões de eleitores e competir num árduo mercado comunicacional.

Santana Lopes parte para as eleições com a pior imagem possível: a de um político incompetente, inconstante e errático, que gera confusão em tudo o que toca. Este será um enorme óbice para o PSD, cuja oferta eleitoral aparece mais dependente do destino pessoal do seu líder do que do seu papel de grande partido nacional. A situação de repúdio activo de uma parte do próprio eleitorado do PSD pela candidatura de Santana Lopes, sem existir qualquer entusiasmo pela alternativa Sócrates, tinha dado ao PSD uma janela de oportunidade para conseguir uma margem de manobra para a mudança, que poderia ainda ter permitido uma vitória eleitoral Recusando-se a mudar a liderança e enterrar este episódio infeliz, o partido pode ter comprometido o seu futuro. Aliás, esta situação é pouco sadia, até porque muita gente no PSD sabe que este comportamento é suicidário e há alguma má-fé na esperança que sejam as urnas a afastarem Santana Lopes da direcção do PSD. Mesmo sabendo que isso pode significar um longo período de governação socialista.

Neste contexto, Santana Lopes fará tudo para bipolarizar a campanha eleitoral, numa atitude contraditória, direi mais, habitualmente contraditória, com a ruptura da coligação que ele ajudou a dar-se, e com o acordo com o PP, que o limita politicamente. Limitado pelo acordo com o PP, pelo menos numa fase inicial da campanha, porque depois vai valer tudo, Santana Lopes tenderá a fazer uma campanha à "esquerda", desenvolvendo o mesmo tipo de ambiguidades "sociais" a que Paulo Portas tem também dado voz enquanto "Paulinho das feiras".

A versão de um governo sitiado e derrubado por grandes interesses bancários e pelos fraudulentos fiscais será a chave dessa campanha. E não é líquido que não possa obter alguns sucessos, porque haverá sempre intelectuais deslumbrados pela coreografia, como sempre aconteceu no passado. Santana Lopes "levou-os" no teatro, "levou-os" com a operação Gehry, e leva-os sempre que usar com habilidade as próprias ambiguidades de uma intelectualidade subsidiada, que responde a quem lhe dá a aparência de importância. Mas, em relação ao grande eleitorado, duvido que a operação tenha sucesso. Ela empancará na má imagem de Santana Lopes como primeiro-ministro e na sua falta de credibilidade como alguém com genuínas preocupações sociais e com capacidade para desenvolver políticas estruturantes.

Dito tudo isto, não me esqueço que há muitas características da sua acção que são simbióticas com o modo como hoje a comunicação social é e que isso lhe dá uma enorme vantagem, sobre a qual aliás construiu a sua carreira política e os seus sucessos eleitorais. A sua variante de populismo vive dessa simbiose e a próxima campanha eleitoral tem para Santana Lopes um enorme vantagem à partida: é sobre ele, é um plebiscito sobre ele com todas as vantagens e inconvenientes que isso tem. Por isso, o populismo dominará a campanha do PSD como nunca aconteceu. É verdade que Cavaco Silva também teve essa tentação, mas a estrutura psicológica e a competência técnica e política de ambos não tem comparação. Cavaco Silva foi um dador de esperança, mobilizou vontade de mudar, Santana Lopes atrai pelo caos, pela imprevisibilidade, pelo espectáculo do seu eu, pela publicidade. Até agora foi o bastante, mas hoje as características genuinamente mediáticas da personagem têm o óbice da péssima imagem do primeiro-ministro.

Por tudo isto, Santana Lopes tentará ultrapassar os mediadores - a comunicação social escrita em particular -, para se concentrar na imagem e na palavra afectiva, e nos efeitos televisivos. A ideia da campanha nas aldeias, ou nas "repúblicas" de Coimbra é um pouco bizarra para quem quer dar um sinal de modernidade, mas o que interessa é a criação de motivos de espectáculo televisivo pelo inesperado. É uma variação tardia do banho no Tejo de Marcelo. Resumindo e concluindo, a grande questão em aberto, e sobre a qual não tenho ainda certeza, é a de saber se haverá ou não bipolarização. Tudo indica que com Santana Lopes haverá, mas ainda não é certo.

O PP não quer de todo a bipolarização e joga uma campanha de grande risco. É um sinal flagrante do desprezo que o PP tem pela actual liderança do PSD a confiança que manifesta na incapacidade que, mesmo com Santana Lopes, esta não consiga polarizar seja o que for. Parece-me, apesar de tudo, confiança a mais, até porque o efeito de bipolarização não depende apenas das lideranças, mas também do tratamento comunicacional da campanha e não há razão para duvidar da maior facilidade e legibilidade que uma campanha bipolarizada tem para os "media".

Os temas de campanha do PP estão à vista, e, junto com o PS, é o único partido que está verdadeiramente em campanha. A sua estratégia é clara: enquanto existir governo, os ministros do PP continuam a governar como se não estivessem em gestão e demissionários, deixando o ónus da contradita ou das dificuldades legais para outrem, que poderão sempre oportunamente acusar de estar a pôr em causa o interesse nacional. Como se está a ver, esta estratégia resulta, com Paulo Portas a tomar decisões nas OGMA e Nobre Guedes quanto aos resíduos tóxicos, tudo matérias controversas e claramente fora do âmbito de um governo de gestão, perante o beneplácito de Belém. A atitude contrasta com a dos ministros do PSD, que ficaram inibidos e eles, sim, parecem que deixaram de ser ministros, numa atitude espelhar com a do primeiro-ministro, que não sabe muito bem o que fazer e até onde ir.

Quando se esgotar este período de governação no fio da navalha, o PP parecerá, como pretende querer para efeitos de propaganda, mais "credível", "merecedor de confiança" e "estável", os temas de afirmação do partido, que são, ao mesmo tempo, os termos de combate ao PSD. Serve-lhe o acordo, mas precisa de acalmia na campanha, e acalmia na campanha significa perda de votos no PSD.

Numa fase inicial, e sempre dentro desta mesma plataforma, o PP atacará somente o PS, o PCP e o BE, porque não precisará de atacar frontalmente o PSD. Mas não penso que isto possa durar toda a campanha e, mais cedo ao mais tarde, os conflitos emergirão, até porque a área de crescimento e consolidação do PP será nos mesmos votos que o PSD pretenderá manter ou conquistar. Em teoria é tudo muito bonito, em campanha será bastante mais feio, forte e duro.
José Pacheco Pereira

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terça-feira, 28 de dezembro de 2004

2005




1. Temos razões para encarar o ano de 2005 com algum optimismo? É possível começar a inverter o ciclo de decadência e de pessimismo em que Portugal mergulhou? As duas perguntas só podem ter uma resposta positiva se, por um momento, os responsáveis políticos, que se prepararam para disputar as eleições de Fevereiro, resolverem encarar a realidade e falar verdade ao país.

É pedir muito? A avaliar pelos primeiros foguetes da campanha eleitoral, parece que sim.

O PPD de Santana não tem alternativa senão seguir em frente, mesmo que em frente esteja o abismo. Disse aos portugueses que a austeridade acabara e que a retoma estava ao alcance da mão. Acaba o seu mandato à frente do Governo envolvido no imbróglio do défice orçamental e na modorra de um crescimento medíocre, a gritar aqui d'el-rei, que a culpa é de Ferreira Leite, do PS, do Presidente, do PSD, dos azares da vida. Não vai agora dizer que a realidade é outra, que se enganou, que o rumo também tem de ser outro. Condenou-se a si próprio. Resta-lhe a demagogia, o faz-de-conta e o choradinho a que já ninguém liga nenhuma.

Com o PS de Sócrates, a história é outra. Só muito dificilmente conseguirá perder as eleições, mas o mérito por enquanto não é próprio, é do Governo ainda em funções e do seu primeiro-ministro.

Os socialistas têm, pois, dois caminhos alternativos pela frente até 20 de Fevereiro. O primeiro, mais fácil e mais tentador, é deixar correr o marfim, alimentando a ideia de que o único problema do país é o Governo e que tudo se comporá com a sua substituição.

O outro é mais difícil, mais exigente mas, porventura, mais compensador no médio prazo. É falar verdade aos eleitores sobre as escolhas muito difíceis que terão se ser feitas nos próximos anos para recuperar a competitividade da economia, voltar a crescer acima da média europeia e encontrar de novo o caminho para uma sociedade moderna, desenvolvida e solidária. Explicar que o dinheiro não chega para tudo, dizer que escolhas são essas e as razões que as tornam inevitáveis, fazer, em suma, aquilo que compete aos políticos e que é dar sentido e fundamento a essas escolhas, por mais difíceis que sejam.

O "slogan" escolhido pelo PS - "devolver a confiança" - é ambíguo. O clima que começa a ser perceptível entre os socialistas faz, no entanto, temer o pior. Que confiança pode querer dizer, afinal, facilitismo e que bastam meia dúzia de ideias de tom moderno, mesmo que vazias de conteúdo e assentes em falsas ilusões.

Sócrates ainda merece o benefício da dúvida mas terá de começar rapidamente a dizer alguma coisa mais substancial sobre aquilo de que o país precisa. Caso contrário, pode ganhar as eleições até com maioria absoluta, mas não mobilizará as pessoas para aquilo que tem de ser feito e perpetuará a instabilidade política que parece ser hoje a manifestação mais preocupante da encruzilhada em que o país se encontra.

Como dizia recentemente Vítor Constâncio, em Portugal está tudo à prova - as elites e as instituições, incluindo os partidos e os seus dirigentes. Só será possível sair daqui se se for capaz de pensar o longo prazo, de interiorizar o que significa funcionar dentro de uma unidade económica e monetária com uma moeda forte e no quadro da globalização dos mercados. O "se" quer dizer as elites políticas, mas também empresariais, sindicais, intelectuais e profissionais. É pedir muito?

Normalmente, as sociedades só tomam decisões difíceis em momentos de crise profunda. A Europa a que pertencemos está cheia de exemplos, mais ou menos bem sucedidos, de reformas corajosas e impopulares, algumas das quais já estão a dar os seus frutos. Haverá em Portugal a percepção suficiente da gravidade da crise e da urgência e da dificuldade das soluções? É difícil de saber. Mas se houver, então serão penalizados, de uma forma ou de outra, os partidos que se recusarem a falar verdade.

2. O mundo continua no fio da navalha, deixando muita coisa em aberto para 2005. E, no entanto, há sinais de esperança. Alguns deles na nossa boa velha Europa que, apesar de tudo, se move na boa direcção. O seu magnetismo continua o melhor e o mais eficaz "soft power" que tem para oferecer ao mundo, como escreveu ontem nestas páginas Ralf Dahrendorf. A Turquia foi a mais recente e corajosa prova de que a União sabe e quer exercer esse poder.

Tem na coluna do "haver" muitas coisas ainda a seu favor para enfrentar os desafios de um mundo tão perigoso e tão incerto como aquele em que vivemos. Recorrendo a outra voz lúcida, de Jacques Delors, é bom ter presente que a UE "continua a ser a primeira potência comercial do mundo e que é cortejada por quase todas as outras nações para assinar acordos de comércio e de cooperação". É também o primeiro dador mundial de ajuda ao desenvolvimento e humanitária. É graças a ela que o Protocolo de Quioto ainda está vivo. Até hoje, voltando a Delors, "tem reagido bem aos sucessivos desafios que a História lhe tem lançado". "Acolhendo as jovens democracias espanhola, grega e portuguesa, ajudando a reunificar a Alemanha, integrando no seu seio os países que saíram do jugo comunista." Aceitando a Turquia, "quando o maior desafio histórico é o do 'choque de civilizações'".

Do lado do "deve", tem muitos problemas pela frente, o maior dos quais e provavelmente o mais decisivo - para os europeus e para o mundo - será a forma como resolver a questão transatlântica, se quer continuar a ser uma potência mundial. Como rival dos EUA, não tem futuro. Como aliada, mesmo que mais independente, pode alterar a balança do mundo para o lado certo.

E tem também o tremendo desafio da sua economia, se quer enfrentar com segurança os novos colossos económicos que emergem na China ou na Índia e preservar o lado melhor do seu modelo social num mundo globalizado. Mas também neste domínio a Europa se está a mover. Desde os casos exemplares das reformas levadas a cabo pelos países escandinavos que são hoje as economias mais competitivas do mundo, ombreando com a América, até à velha locomotiva europeia, onde é a coligação entre os sociais-democratas e os verdes que está a levar a cabo algumas reformas difíceis, impensáveis há meia dúzia de anos.

Com um bom impulso de Bruxelas revigorando os objectivos da agenda de Lisboa (é esse, talvez, o maior desafio de Barroso), a União pode inverter o seu declínio económico, como está a tentar inverter o seu declínio político.

3. Para nós é fundamental que isso aconteça. É uma condição necessária para que Portugal tenha futuro. Mesmo que já não seja suficiente.

Voltando a Vítor Constâncio, tirámos os maiores benefícios da união económica e monetária, no momento em que ela foi lançada (o dinheiro barato chegou para tudo e mais alguma coisa no final dos anos 90), mas ninguém quis saber das novas regras do jogo, muito mais duras e exigentes, nem do preço a pagar por elas. Ou seja, não fizemos as reformas necessárias nem soubemos aproveitar as novas oportunidades. Alimentamo-nos hoje de uma ideologia defensiva, corporativa e estatizante. As nossas elites teimam em viver divorciadas do mundo real.

Resta saber se vamos continuar nesta rota até batermos no fundo ou se haverá forças para inverter o caminho. É isto que se joga em 2005

Teresa de Sousa

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segunda-feira, 27 de dezembro de 2004

PEDRO...

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quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

ISTO VAI LINDO, VAI... [parte III]

Trapalhadas "non stop"
Mesmo demitido e em funções de mera gestão, o Governo Santana-Portas não pára de brindar o País com novas trapalhadas.
Ontem de manhã anunciava-se que os veículos monovolume e os jipes iam ser equiparados aos automóveis ligeiros nas auto-estradas, passando portanto a pagar menos portagens; mas à tarde uma nota oficial veio dizer que afinal eram somente os monovolumes os beneficiários da redução (Autoeuropa oblige...).


A TSF, reproduzindo uma rádio local, emitiu as afirmações incendiárias de um secretário de Estado sobre os serviços de bombeiros, o qual veio logo depois veio dizer que a gravação tinha sido feita clandestinamente, mas sem denegar as afirmações. A referida rádio local de Portalegre veio desmentir categoricamente o governante (?), afirmando que ele sabia que estava a ser gravado, tendo um microfone da emissora à sua frente.
De manhã os jornais faziam manchete do propósito governamental de venda maciça de edifícios públicos, entre eles alguns muito emblemáticos; ao fim do dia o Governo veio dizer que afinal não ia alienar a propriedade mas sim somente o direito da sua exploração (o que não passa de uma forma eufemística de dizer que o Estado realiza um empréstimo sobre eles, assegurando a amortização do mesmo com a afectação de uma renda paga sobre os edifícios em causa...).
Comentários para quê?
É o Governo Santana-Portas em todo o seu esplendor.
Está-lhe na massa do sangue...
Vital Moreira

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2004

E A TERRA TREMEU



"Santana Lopes entrou determinado no Palácio de Belém, formalizou junto do Presidente da República o pedido de demissão e a terra tremeu. Não é a primeira vez. Não é a primeira vez que um primeiro-ministro se demite. Não é a primeira vez que o Presidente aceita. E não é a primeira vez que o país fica aos solavancos".
Quando o sismo está emplena actividade, não é a primeira vez que, em busca do epicentro, lá se encontram empresários, gestores e banqueiros.
Os interesses...
Foi isso que o doutor Portas veio agora denunciar: o poder económico ajudou a derrubar o poder político. Sim sim, o Portas da direita, não o irmão que luta por uma revolução mais suave, nas fileiras bloquistas do doutor Louçã.
A História deste país está repleta de situações em que o poder económico conspira e o poder político cai. Este Governo já andava há muito a queixar-se, nas entrelinhas, de supostas manobras de bastidores. O ministro das Finanças. O próprio primeiro-ministro.
Mas ninguém atacou a promiscuidade entre os mundos dos negócios e da política como o ministro de Estado da Defesa decidiu agora fazer. Assim, de uma forma tão frontal, tão sem «papas na língua», só Marcelo Rebelo de Sousa, no famoso Congresso de Tavira, de Abril de 1998.
Era Portas seu parceiro numa nova AD, só que na oposição. Agora Portas é ministro e não insinua. Sabe do que fala, portanto, quando afirma que este Governo estava a tratar da delinquência fiscal como nenhum outro e a banca não deixou.
Por muito menos, Ricardo Salgado revelou-se então «chocado» com o professor Marcelo e considerou as suas declarações «absolutamente infames». Belmiro de Azevedo foi à RTP dizer que o então líder do PSD deveria ser «erradicado da política nacional».
Desta vez, ou muito nos enganamos, todos vão protestar com o livro de cheques. Porque os «interesses» de quem o doutor Portas agora se queixa são os mesmo que, na última campanha eleitoral, ajudaram o seu partido a pagar as contas.
Acontece que, em desespero, Paulo Portas decidiu recorrer ao populismo mais deplorável que a direita portuguesa até hoje usou. Ele, mais às descaradas que o seu parceiro de coligação, estão dispostos a tudo. Incluindo trocar amigos por votos.
Causando um enorme prejuízo ao país. Porque se não há transparência nos bastidores da política, têm de levar as suas palavras às últimas consequências e dizer, ipsis verbis, que interesses e com que interesses andaram a lidar.
Ele, mais do que Santana. Porque, se os «interesses» se irritaram só nos últimos quatromeses, é o doutor Portas que tem de responder à pergunta óbvia: o que terá acontecido nos dois anos anteriores, de que forma o seu Governo pagou o sossego dos «interesses»?
O guterrismo, o mesmo poder que segundo Marcelo andava com os grupos económicos ao colo, morreu aos pés da elite financeira e empresarial. Destes movimentos, de conspirações e quedas, ainda vamos tendo registos. Dos movimentos contrários, das cumplicidades e ascensões, os historiadores não obtêm registos.

Sérgio Figueiredo in Jornal de Negócios

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O CASAMENTO LIBERAL



Portas e Santana resolveram fazer uma pausa no seu relacionamento sério. Durante dois meses vão andar por aí ao engate.
Chamemos-lhe um teste à relação.
O pior é se, como muitas vezes acontece na vida real, um deles ainda acaba na cama do PS.

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segunda-feira, 13 de dezembro de 2004

PRAZOS E PROCESSOS


Já não é a primeira vez. Mas é tão estranho que, de uma conversa a dois, sem testemunhas, haja duas versões absolutamente diferentes e contraditórias! Que tal ocorra em situações de crise conjugal ou de conflito comercial, ainda se percebe. Mas quando as pessoas em causa são o Presidente da República e o Primeiro Ministro!
A fragilidade da democracia portuguesa tem vindo, desde o Verão, a ser posta em evidência. Em particular, quando estimulada pelas pesadas regras constitucionais e pelos absurdos processos burocráticos saídos das cabeças de juristas confusos dados a invenções. Ao abandono de Durão Barroso, cujas nefastas consequências se fazem ainda hoje e cada vez mais sentir, seguiu-se um longo e complicado processo. Além de politicamente quente, a sua substituição foi processualmente atabalhoada. Agora, a dissolução da Assembleia da República e a sequente convocação de eleições são feitas com demoras inúteis, compassos de espera absurdos e prazos inconcebíveis. Imaginando que tudo começou com o congresso do PSD e a declaração de Santana Lopes sobre o fim da austeridade, podemos concluir que serão precisos mais de quatro meses para resolver uma crise de governo que se poderia tratar convenientemente em poucas semanas. Período quase igual é o que será necessário para chegar do anúncio da dissolução até à aprovação do programa do próximo governo. Sem contar o tempo necessário a que os novos ministros conheçam os dossiers, aqueçam o lugar, nomeiem uns milhares de funcionários superiores e comecem a governar. Tudo isto, uma vez mais, poderia ser feito em menos de metade do tempo, com ganhos incalculáveis para todos, cidadãos e políticos. Há muito que se sabe que estes procedimentos são dispendiosos e inúteis, por isso prejudiciais. Mas chegámos ao ponto de desespero: tão cedo, não haverá mudança de regras nem renovação de processos. A nossa democracia vive, não da tradição, não necessariamente do direito, mas do regulamento.
A acrescentar a este enredo, temos, este ano, novos e magnos acontecimentos. Dez dias entre a comunicação verbal da dissolução e o seu anúncio formal! Adiamento da posse de Secretários de Estado por razões de agenda privada! Marcação da tomada de posse para depois da dita comunicação verbal! Indefinição da natureza e dos poderes do governo que ficaria em funções sessenta dias depois de dissolvido o Parlamento! Aprovação do orçamento de Estado por um governo quase demitido e por um Parlamento quase dissolvido! À última hora, demissão do governo depois de dissolvido o Parlamento! E indefinição quanto à possibilidade e oportunidade de realização do referendo constitucional europeu já deliberado pela extinta Assembleia! Custa acreditar!
E agora vamos todos iniciar mais um destes períodos dolorosos de ruído e desperdício. A campanha eleitoral vai durar tempo de mais. E será, aliás, precedida por uma extraordinária pré-campanha, invenção lusitana e contributo imorredoiro para a história da democracia. A organização das listas bloqueadas de candidatos será mais atribulada do que de costume, com contas a ajustar em todos os partidos. Como sempre, a identidade e a responsabilidade individual dos candidatos serão as menores das preocupações. Apesar das declarações de boas intenções, sobretudo do PSD, vai ser uma campanha dura, agressiva e por vezes ordinária. Como tem vindo a ser cada vez mais. É quase certo que haja meia dúzia de processos em tribunais por não cumprimento das regras legais, por insulto e outras minudências. Os candidatos vão desdobrar-se em centenas de comícios totalmente inúteis, ainda por cima em estação de frio e chuva. Grande parte dessas reuniões far-se-á apenas para poder filmar, para as televisões, bandeiras e jovens excitados aos gritos. Cada vez menos gente participará em tais festins, organizados por gente paga e abrilhantados por brindes e fancaria de plástico que umas muito vivas empresas inventam. Especialistas brasileiros e espanhois virão ganhar umas pequenas fortunas com uma ridícula campanha.
Ambas, pré-campanha e campanha, vão custar de mais. Os financiamentos vão ser, como habitualmente, disfarçados. Nem todos os partidos vão prestar contas. E, entre os que o fizerem, alguns vão mentir. Os prazos para a tomada de posse do Parlamento e do Governo vão ser longos, muito longos. Talvez haja uns boicotes de freguesia, mais uma vez impunes. A aprovação do programa do governo vai ser longa. Se ganhar o PS, a desforra vai ser terrível, nas leis e nas nomeações. Se ganhar o PSD, a vingança vai ser terrível, nas leis e nas nomeações. É uma situação de risco ser notável do PSD e não ser fiel de Santana Lopes. Dentro de seis meses, qualquer que seja o resultado, haverá, entre os que chegam e os que aparentemente partem, mais três a quatro mil novos altos funcionários da Administração.
O PS, que criticou a austeridade, prepara-se para uma política imaginativa e dispendiosa de gestão do défice. O PS, que também criticou o fim da austeridade proclamado por Santana Lopes, prepara-se para estabelecer que a situação é crítica e que é preciso manter a austeridade. Entre as duas políticas, perder-se-á algum tempo e gastar-se-ão uns milhões. O PSD, que decretou o fim da austeridade, ignora as contas públicas do terceiro trimestre, que revelam que esses mesmos três meses, os de governo de Santana Lopes, foram de recuo económico. O PSD prepara-se para gastar o que não tem, agora que pretende demonstrar que Sampaio não tinha razão. O PCP prepara-se para uma das suas maiores derrotas eleitorais de sempre. O Bloco prepara-se para entrar para o Governo, para o que já se tinha treinado em Julho. Votarão no PSD os que querem excluir Cavaco Silva e dar força a Paulo Portas. Os que querem eleger Cavaco Silva votarão no PS ou no Bloco. Os que votarem no PS fá-lo-ão apesar de recear Guterres.
O primeiro ano de mandato do novo governo será uma trapalhada suspensa da eleição do Presidente da República, só animada pelos autarcas que se preparam para cobrar, a fim de preparar as suas eleições. Se ganhar o PSD, o Presidente da República vai ter um fim de mandato particularmente difícil. Se ganhar o PS, o Presidente da República vai ter um fim de mandato particularmente difícil.
Para melhor e pior, a sociedade mudou e os portugueses também. Só a política e os políticos parece não terem percebido. Ou porque não sabem. Ou porque não querem.
António Barreto

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